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Ataque contra centro de refugiados na Líbia é ‘crime de guerra’, diz ONU

Pelo menos 44 migrantes morreram em bombardeio na madrugada desta quarta; capital líbia, Trípoli está em alerta para ofensivas de militares rebeldes

Pelo menos 44 pessoas morreram em um bombardeio contra um centro de migrantes e refugiados em Trípoli, capital na Líbia, na madrugada desta quarta-feira, 3, no que a Organização das Nações Unidas (ONU) classificou como um “crime de guerra”.

O enviado da ONU para o país, Ghassan Salamé, disse que o ataque, aparentemente cometido por forças do líder rebelde do Exército Nacional, Khalifa Haftar, “claramente constitui um crime de guerra, já que matou inesperadamente pessoas inocentes cujas condições as forçavam a estar naquele abrigo.”

Pelo menos outras 130 pessoas foram feridas pelas bombas no centro de detenção de Tajoura. O governo apoiado pelas Nações Unidas, conhecido como Governo do Acordo Nacional, afirma que as instalações foram atingidas por dois ataques aéreos. A maioria das vítimas estava detida depois de tentar entrar clandestinamente na Europa pelas fronteiras marítimas com a Líbia.

“O absurdo desta guerra em curso hoje em dia levou essa carnificina às consequências mais trágicas e hediondas”, acrescentou Salamé.

A União Africana também publicou um comunicado pedindo por um inquérito sobre a responsabilidade pelo ataque. Fundada pelo ex-ditador líbio Muammar Gaddafi, a organização tenta promover a democracia, os direitos humanos e o desenvolvimento econômico entre os países do continente.

O ataque desta quarta foi o mais letal registrado na Líbia desde que forças orientais aliadas a Haftar realizaram uma ofensiva contra as tropas terrestres do Governo do Acordo Nacional há três meses, em uma tentativa de tomar Trípoli do controle do governo internacionalmente reconhecido.

Organizações não governamentais dizem ter recebido mensagens de voz do centro de detenção relatando um número de mortos ainda mais alto, e acusaram a Europa de ignorar seus alertas sobre a ameaça contra os refugiados com as diversas operações aéreas dos rebeldes de Haftar nos céus da capital líbia durante os últimos dois meses.

120 pessoas estavam presas no hangar em que a bomba caiu, e outras 600, incluindo crianças, estavam em outras partes do complexo, sendo atingidas por estilhaços.

A Agência de Refugiados da ONU, a Acnur, afirmou estar “extremamente preocupada” com as notícias do ataque, mas não explicou por que os detidos não haviam sido transferidos pela agência diante dos ataques intensos nos arredores do centro.

Prince Alfani, o coordenador do programa Médicos sem Fronteiras na Líbia, afirmou que esta não é a primeira vez em que migrantes e refugiados ficam presos em meio ao fogo cruzado do conflito em Trípoli.

“Apenas oito semanas atrás, o estilhaço de uma explosão furou o telhado do hangar para mulheres no centro de detenção de Tajoura e quase atingiu uma criança”, contou Alfani.

O Exército Nacional Líbio (LNA) de Haftar negou responsabilidade pelo ataque, mas, pouco antes do incidente, na segunda-feira 1, o comandante das forças aéreas de suas tropas, Mohammed al-Manfour, já havia alertado sobre a intensificação das ofensivas na capital.

Manfour recomendou aos residentes que ficassem longe dos chamados “campos da mílicia”, em referência às Forças Armadas Líbias. O centro de detenção era próximo a um quartel-general.

Retorno perigoso

As agências da ONU e entidades humanitárias têm expressado reiteradamente sua oposição à devolução de migrantes resgatados no mar com a Europa para a Líbia, em razão do caos institucional no país.

Na Líbia, estes migrantes e refugiados são colocados em “detenção arbitrária” e regularmente ficam a mercê das milícias armadas.

Apesar da constante instabilidade e do caos institucional, o país africano permanece como um ponto de trânsito dos emigrantes fugindo de conflitos armados e da instabilidade em outras regiões da África e do Oriente Médio.

A missão de apoio da ONU na Líbia (MANUL) tem manifestado sua preocupação com os cerca de 3.500 emigrantes e refugiados “em risco nos centros de detenção situados nas zonas de conflito”.

 

(com Reuters)