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Assistencialismo pavimentou vitória islamita no Egito

Diferenças entre Irmandade Muçulmana e salafistas devem levar os liberais a apoiar o grupo menos radical para limitar poder militar, diz Economist

Por Da Redação 9 dez 2011, 16h07

Uma revolta popular derruba um tirano, desperta esperanças de reconstrução nacional e inicia uma corrida para restaurar a estabilidade sem renegar os ideais revolucionários. No Irã, um cenário extamente como este durante a Revolução Islâmica de 1979 resultou em um regime fundamentalista, onde religião e estado se tornaram um coisa só. Com a ampla vitória dos islamitas no início das eleições parlamentares, o Egito pode ter um destino parecido? É a pergunta feita pela nova edição da revista The Economist, para quem o que acontecer no Egito, país mais populoso e influente do mundo árabe, deve se espalhar pela região.

Entenda o caso

  1. • Na onda da Primavera Árabe, que teve início na Tunísia, egípcios iniciaram, em janeiro, sua série de protestos exigindo a saída do então presidente Hosni Mubarak.
  2. • Durante as manifestações, mais de 850 rebeldes morreram em choques com as forças de segurança de Mubarak que, junto a seus filhos, é acusado de abuso de poder e de premeditar essas mortes.
  3. • Após 18 dias de levante popular, em 11 de fevereiro, o ditador cede à pressão e renuncia ao cargo, deixando Cairo.
  4. • No lugar dele, assumiu a Junta Militar que segue governando o Egito até o fim do processo eleitoral.

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Apesar de ainda restarem duas das três etapas do processo eleitoral para a escolha da Assembleia do Povo, a Câmara Baixa do Parlamento egípcio, o desempenho dos partidos islamitas foi assustador e chocou as facções liberais. Fundada em 1928 e perseguida por todos os governos desde então, especialmente a ditadura de Hosni Mubarak, a Irmandade Muçulmana conquistou, por meio do seu Partido Liberdade e Justiça, 46% das cadeiras em disputa e teve 37% dos votos na lista fechada, na qual os eleitores votam apenas no partido.

Esse resultado de muitas formas era previsto, o que não se pode dizer da performance do partido Al Nour, da mais radical e puritana corrente salafista, grande surpresa das eleições. Inspirados em parte pelo wahabismo saudita – movimento religioso que prega a fidelidade do povo ao governante sob a sharia (a lei islâmica) – os salafistas conquistaram 21% das cadeiras e obteram 24% dos votos por legenda. Enquanto isso, o Al Wafd, o maior partido secular, elegeu menos de 10% das 150 vagas em disputa.

Religiosidade – O cenário, porém, deve ficar ainda pior para os liberais, umas vez que a primeira fase da votação foi realizada nas maiores cidades do país, enquanto as seguintes serão em regiões mais rurais, onde os islamitas tem ampla influência. Tudo indica, portanto, que após o processo eleitoral que termina no fim de janeiro os partidos islâmicos dominem ao menos dois terços do novo Parlamento.

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Extremamente pobre, grande parte da população do Egito não tem acesso à educação e vive completamente desconectada da classe dominante, mais ligada às tendências ocidentais do que aos costumes locais. Em dezembro de 2010, uma pesquisa realizada pelo instituto americano Pew nos sete maiores países com maioria muçulmana apontou que a grande maioria dos egípcios prefere os fundamentalistas, e não os moderados, para simbolizar o Islã.

Mais da metade mostrou-se a favor da separação de sexos no trabalho, assim como às penas tradicionais do islamismo, como apedrejamento em casos de adultério, amputação nos de roubo e morte por apostasia (renegação da fé islâmica). Tudo isso após os tribunais do Egito terem extinto esse tipo de pena há quase um século.

Assistencialismo – A Economist ressalta que, em centenas de guetos pelo país, milhares de pessoas vivem sem qualquer presença de governo e seu único recurso é recorrer aos islamitas. Negligenciando grande parte da população, o regime de Mubarak criou uma realidade em que apenas os fundamentalistas islâmicos impõem algum tipo de ordem e possuem influência. Em muitas cidades pequenas, a Irmandade Muçulmana presta auxílio financeiro a viúvas e fornece animais para serem criados por trabalhadores sem-terra. Os salafistas também adotaram recentemente o assistencialismo, oferecendo comida em celebrações religiosas e organizando aulas de recitação do Corão.

Os dois movimentos têm uma grande característica em comum: professam o mesmo objetivo de recolocar o Islã no centro de todos os apectos da vida. Apesar disso, possuem diferenças notáveis. Os integrantes da Irmandade Islâmica costumam ter mais apelo entre os trabalhadores em ascenção, possuem um discurso pragmático e usam terno e gravata, enquanto os salafistas são mais populares nas camadas mais pobres, têm linguagem baseada nas escrituras sagradas e usam roupas tradicionais.

O salafista Al Nour recusa regimes teocráticos como o iraniano da mesma maneira que rejeita as democracias ocidentais. O partido defende uma democracia “restrita”, limitada pelas fronteiras do islamismo. Propõe banir bebida alcoólicas, adotar o véu para as mulheres e segregar os sexos para que todos “entrem no paraíso”.

Já a Irmandade afirma que vai respeitar a escolha do povo. O Partido Liberdade e Justiça chegou a trabalhar em nome de uma coalização com os liberais, que acabou não dando certo. Agora, o Al Nour afirma que deseja uma aliança com a Irmandade, que permanece cutelosa a respeito desta aliança. A maior probabilidade é que o grupo articule um acordo com facções centristas, para não provocar potências estrangeiras e as Forças Armadas, que continuam com a última palavra no governo.

A Junta Militar já deu sinais de que não pretende abrir mão da escolha dos membros do gabinete de ministros e pretende enfraquercer o Parlamento na nova Constituição, resguardando para si o direito exclusivo de decidir seu próprio orçamento sem qualquer fiscalização dos poderes civis. Para evitar o surgimento de um novo regime militar, os liberais podem apoiar a Irmandade Muçulmana como forma de limitar o poder dos generais. Nesse cenário, o Egito irá estabeceler uma nova tendência no mundo árabe: um forma de islamismo tolerante que, por meio das urnas, vai dominar a cena política.

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