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Assassino de Oslo deixou manifesto de 1500 páginas em que se vê como mártir

O documento traz também um relato detalhado dos preparativos que antecederam os atentados que deixaram 92 mortos - e revela a loucura de Breivik

Antes de executar dezenas de pessoas em Oslo, o assassino norueguês Anders Behring Breivik – que confessou ter planejado o massacre à polícia norueguesa na tarde deste sábado – enviou a todos os seus contatos na rede social Facebook (cerca de 7 000) uma mensagem contendo um manifesto de 1500 páginas. Segundo o jornal Afterposten, policiais que acompanharam o depoimento de Breivik confirmam se tratar de um texto de autoria do assassino. Fotos e um vídeo acompanhavam o documento. Ao longo do sábado, comentários políticos postados por Breivik em sites noruegueses como o Document.no já haviam vindo à tona, apresentando um mosaico de suas ideias políticas. O manifesto batizado de A European Declaration of Independence (Uma Declaração Europeia de Independência) desenvolve essas ideias de maneira obsessiva e grotesca. O documento é um compêndio caudaloso de reflexões políticas, filosóficas, religiosas e sociológicas, um diário do período em que os atentados foram planejados e ainda uma fonte de informações sobre a vida privada de Breivik, que emerge das páginas como um jovem perturbado e tomado por delírios de grandeza. “Sempre levarei comigo a certeza de ser um campeão do conservadorismo cultural, talvez o maior da Europa desde 1950”, diz o atirador a certa altura. “Sou um dos muitos destruidores do marxismo e, assim, um herói da Europa, salvador de nosso povo e da cristandade. Um exemplo perfeito que deveria ser copiado, aplaudido e celebrado. Saberei que fiz tudo para deter o genocídio cultural e demográfico dos europeus e reverter a islamisação da Europa.” Templários – Breivik não assina o documento com seu próprio nome, mas com uma versão anglicizada dele, Andrew Berwick. Ele afirma fazer parte de uma organização secreta que se espelha na dos antigos cavaleiros medievais, voltada a proteger os cristãos que faziam a peregrinação a Jerusalém. Esses novos templários almejariam formar “o principal movimento revolucionário conservador da Europa Ocidental”. Uma extensa seção no final do manifesto de Breivik, batizada de “Diário de um Cavaleiro Templário”, explica por que ele se filiou à tal ordem secreta (supostamente numa viagem à Inglaterra) depois de desligar-se do Partido Progressista norueguês, no qual militou por 10 anos: “Perdi a fé na luta democrática para salvar a Europa da islamização”. Mas esse segmento da volumosa “Declaração” é, antes de mais nada, um relato detalhado de todo o planejamento dos atentados que o levaram a matar tantas pessoas. Breivik conta como criou um esconderijo na floresta para armazenar produtos químicos e fazer testes de fabricação de explosivos. Relata viagens para tentar adquirir armamentos. Explica como financiou a compra de todos os equipamentos para os atentados (ele afirma ter gasto 310 000 euros de suas próprias economias). Registra seus esforços para escapar do radar das autoridades. E antecipa o momento da chacina: “Tudo acontecerá em meio à ação de esteroides e efedrina, que aumentarão minha agressividade, desempenho físico e foco mental em até 60% – ou possivelmente 100%. Além disso, colocarei meu iPod no volume máximo para afastar o medo, se necessário”. Breivik dá a entender que seu plano incluia quatro fases – as duas últimas, aparentemente, não puderam ser realizadas. Sex and the City – Em diversos pontos do manifesto, a pregação política é subitamente interrompida por considerações sobre a intimidade de Breivik. Uma seção destinada a discutir o legado da revolução sexual se transforma em peça de acusação contra seus amigos e familiares. “O estilo de vida típico de Sex And The City não deixou de me influenciar”, diz Breivik, “mas passei por uma mudança de mentalidade”. Ele conta, então, que sua meia-irmã foi infectada por uma doença sexualmente transmissível “depois de ter mais de 40 parceiros sexuais” e que sua mãe adquiriu herpes genital de seu namorado (padrasto de Breivik), um oficial do exército norueguês que teria tido “mais de 500 parceiras”. Diz o atirador: “Minha mãe e minha irmã envergonharam não apenas a mim, mas a elas mesmas e a toda a família. Uma família dilacerada pelos efeitos da revolução sexual feminista.” Nas páginas finais do texto, Breivik também deixa claro que pretende transformar-se em mártir. Ele afirma que um templário rejeita, em princípio, o suicídio, e prefere a morte em batalha ou como efeito colateral dos ataques que realiza. Mas existe uma circunstância em que o suicídio se torna aceitável: “Um templário só se suicida depois de ser capturado, para escapar da tortura ou da execução”, diz. Apesar de todas as referências aos templários e à cristandade, Breivik afirma explicitamente que sua motivação principal não se encontra na religião: “Não vou fingir que sou uma pessoa profundamente religiosa, pois isso seria mentira. Sempre fui muito pragmático e influenciado pelo ambiente secular em que vivo.”