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Assange pede a Obama que acabe com “caça às bruxas” contra WikiLeaks

Fundador do site que revelou documentos secretos dos EUA fez primeiro pronunciamento após se refugiar, há dois meses, na embaixada do Equador em Londres

Por Da Redação 19 ago 2012, 11h07

Em pronunciamento neste domingo, feito da sacada da embaixada do Equador em Londres, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, atacou os Estado Unidos e classificou os processos movidos pelo país contra o site como “caça às bruxas”. Essa foi a primeira vez que ele falou desde que precisou se refugiar na embaixada, há dois meses, para evitar sua extradição para a Suécia, onde é acusado de crimes sexuais.

Assange apareceu por volta das 14h30 (10h30 no horário de Brasília) vestindo uma camisa azul-clara, gravata vermelha e com os característicos cabelos brancos bem curtos. Ele leu um discurso, de aproximadamente cinco minutos, sendo constantemente ovacionado pelas pessoas que o acompanhavam do lado de fora da embaixada – e atentamente observado pela polícia britânica. Caso coloque os pés fora do prédio, Assange pode ser preso.

No início de sua fala, ele agradeceu aos países da América do Sul, entre eles o Brasil, por “defenderem o direito ao asilo” e aproveitou para agradecer ao presidente equatoriano, Rafael Correa, “pela valentia que demonstrou por levar em consideração e me conceder asilo político”.

O fundador do WikiLeaks acusou a polícia de tentar entrar na embaixada do Equador na última quarta-feira para prendê-lo. Segundo ele, a polícia só desistiu porque existiam testemunhas na embaixada. Um porta-voz da Polícia Metropolitana de Londres, a Scotland Yard, garantiu que as denúncias são falsas.

Assange também atacou os Estados Unidos e pediu ao presidente Barack Obama que acabe com a “caça às bruxas”, referindo-se aos processos contra o WikiLeaks. “Peço ao presidente Obama que faça o certo: os EUA devem renunciar à caça às bruxas contra o WikiLeaks”, disse Assange. “Não deve haver mais essa conversa sobre processar qualquer organização de mídia, seja o WikiLeaks ou o The New York Times“, acrescentou. O jornal americano é um dos veículos que publicou o conteúdo de documentos secretos dos Estados Unidos, revelados pelo WikiLeaks. Assange também pediu a libertação de Brandley Manning, soldado americano acusado de vazar informações para o site.

Minutos antes do pronunciamento de Assange, seu advogado de defesa, o ex-juiz espanhol Baltasar Garzón, havia dito que o fundador do WikiLeaks estava com espírito “combativo” e havia lhe pedido “que recorra à Justiça para proteger os direitos do WikiLeaks, os seus próprios e os de todas as pessoas que são alvo de uma investigação”. O tom das declarações de Assange indica que ele não tem intenção de se entregar à polícia.

Assange pediu asilo no Equador porque teme que, uma vez na Suécia, seja enviado aos Estados Unidos e submetido a novo julgamento. O país garantiu o asilo, mas o australiano não tem salvo-conduto para deixar a embaixada e circular pelas ruas de Londres até o aeroporto.

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Garzón especificou que entrará com uma ação judicial sobre “diferentes pontos, em diferentes países, tanto sobre a situação financeira do WikiLeaks, os bloqueios injustificados que foram feitos, assim como para reivindicar a concessão de um salvo-conduto”.

Também neste domingo, o número 2 do WikiLeaks, Kristinn Hrafnsson, assegurou que seria possível negociar a extradição de Assange para a Suécia se o país se comprometesse a não extraditá-lo aos Estados Unidos. “Seria uma boa base para negociar, uma maneira de encerrar este assunto, se as autoridades suecas declarassem sem nenhuma reserva que Julian nunca será extraditado da Suécia aos Estados Unidos”, indicou o porta-voz. “Posso garantir que ele quer responder às perguntas do promotor sueco há muito tempo, há quase dois anos”, acrescentou Hrafnsson.

A Suécia reagiu rapidamente: “O suspeito não tem o privilégio de ditar suas condições”, disse um porta-voz do ministério das Relações Exteriores. “Se o WikiLeaks quer dar uma mensagem deste tipo, deve fazê-lo conosco diretamente, de maneira convencional”. O porta-voz disse que, na situação atual, a Suécia não pode dizer o que pretende fazer, embora tenha assegurado que “não extraditamos ninguém que corre o risco de pena de morte”.

Relação promíscua – Analistas internacionais afirmam que, para se entender a decisão do governo equatoriano de conceder asilo a Assange, é preciso ter em conta que Correa e Assange têm interesses comuns. “Os dois acreditam que os Estados Unidos são um ‘império’ que precisa ser controlado”, afirmou à rede CNN Robert Amsterdam, advogado especializado em direito internacional. A relação do presidente equatoriano e do criador do WikiLeaks é, aliás, estreita. Correa, por exemplo, já participou do show de TV comandado por Assange, “The World Tomorrow”, transmitido pelo canal de televisão russa R-TV. No programa, ambos trocaram elogios. O australiano definiu Correa como um “líder transformador”. “Seu WikiLeaks nos fez fortes”, respondeu Correa.

Para o analista político equatoriano Jorge Leon, a concessão do asilo a Assange está relacionada às eleições presidenciais, programadas para acontecer em fevereiro de 2013. Segundo ele, a presença de Assange no país pode ser “útil para reforçar a imagem de esquerda de Correa”. Não deixa de ser irônica essa aproximação entre um homem que se proclama defensor incondicional do direito de expressão, como Assange, com um dos grandes perseguidores da imprensa independente, como Correa. O presidente equatoriano é famoso por processar jornalistas e recomendar a ministros que não deem entrevistas. Em seu pronunciamento deste domingo, Assange também agradeceu a países como Venezuela e Argentina, que também procuram controlar o trabalho da imprensa. Para Amsterdam, Assange parece agora estar mais interessado em se salvar do que em defender a imprensa livre.

Neste domingo, na cidade equatoriana de Guayaquil, está prevista uma reunião de ministros das Relações Exteriores da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) sobre o caso Assange. No encontro, o Equador busca conseguir apoio dos demais países para o asilo de Assange. A Organização dos Estados Americanos (OEA) convocou uma reunião para o dia 24 de agosto em Washington.

(Com AFP)

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