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Após impasse com o Irã, Trump tenta saída honrosa para guerra no Oriente Médio

É ainda incerto o impacto do bloqueio americano no mercado mundial de energia — inclusive nos Estados Unidos

Por Amanda Péchy Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 17 abr 2026, 06h00 | Atualizado em 17 abr 2026, 09h55
Após impasse com o Irã, Trump tenta saída honrosa para guerra no Oriente Médio Priorizar nos meus resultados Google

Quando Estados Unidos e Israel lançaram as primeiras bombas sobre solo iraniano, em 28 de fevereiro, conflito que logo transbordou por todo o Oriente Médio e provocou estrondos na economia global, era esperado que o Irã sacasse da manga a ameaça sempre à mão de fechar o Estreito de Ormuz, nevrálgica passagem para 20% do petróleo consumido no planeta. Só que aí, farto de não conseguir extrair nenhuma concessão do oponente, entre as quais “a abertura do estreito já”, o imprevisível Donald Trump resolveu ele mesmo agir naquelas águas, avisando ao mundo, de olho no enrosco em tempo real, que imporia ali seu próprio bloqueio. “A melhor de todas as marinhas vai eliminar qualquer um que se aproxime”, bradou o presidente. Desta vez, falou e fez.

BLASFÊMIA - O presidente americano com ares de Jesus: imagem de IA foi alvo de críticas planetárias
BLASFÊMIA - O presidente americano com ares de Jesus: imagem de IA foi alvo de críticas planetárias (//Reprodução)

Desde segunda-feira 13, a frota americana posicionou-se por lá com o declarado objetivo de barrar petroleiros da república islâmica que, durante toda a guerra, abasteceram como nunca os cofres do regime dos aiatolás, uma vez que reinaram quase absolutos em Ormuz, sem competição. A estratégia da Casa Branca, cujo êxito é visto com ceticismo por observadores de variados matizes, é estrangular o inimigo a ponto de forçá-lo a voltar à mesa de negociações, da qual debandou batendo porta, no sábado 11. Pois o toma lá dá cá no mar tem potencial para dar novos contornos à crise energética e reacender os combates, parcialmente interrompidos por um cessar-fogo que, a princípio, dura até terça-feira, 21 de abril.

O mais recente capítulo da tensão começou após vinte horas de um encontro de envergadura histórica — nenhum outro havia juntado quadros de tão elevada estirpe, de lado a lado, desde a Revolução Islâmica, em 1979. Acabou não dando em nada. “Deixamos muito claro quais são as linhas vermelhas, e eles optaram por não aceitar nossos termos”, afirmou com indisfarçável decepção o vice-presidente JD Vance, à frente da delegação americana no Paquistão, que atua como mediador. Já o Irã saiu da reunião queixando-se do “clima de desconfiança” e das “exigências excessivas” dos Estados Unidos.

mapa Irã

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Em uma contenda que se estica e não interessa a nenhuma das partes, Trump repete o roteiro de deixar o mundo em suspense (“ainda não acabamos o nosso trabalho”), ao mesmo tempo que acena com outra rodada de conversas nos próximos dias, sem poupar quem lhe faz ressalvas. Sobrou até para o papa Leão XIV, o primeiro americano no Trono de Pedro, que condenou a guerra e foi chamado de “fraco” e “péssimo em política externa” pelo ocupante do Salão Oval. Eis que Trump surpreendeu ao reaparecer nas redes, em imagem produzida por inteligência artificial, com ares de Jesus Cristo. Foi alvo de críticas em escala planetária, deu a deslavada desculpa de que queria só se passar por “médico” e deletou o post, sem no entanto apagar o estrago causado em uma fatia de seu eleitorado.

A aposta com a manobra militar no Estreito de Ormuz, palco de um baque no fornecimento de petróleo que levou o FMI a projetar crescimento global mais modesto, é atingir o pilar-­mor da economia iraniana e arrancar concessões. Feitas as contas, o Irã vem se beneficiando, e muito, do bloqueio que impôs: diante do valor alavancado do barril, arrecadou em março 140 milhões de dólares por dia, salto de 20% em relação ao mês anterior. A barreira americana pode obrigar a nação persa a reduzir a produção já em maio. A medida também coloca um obstáculo ao abastecimento de alimentos importados pelos aiatolás, como trigo, soja e milho, agravando um cenário de inflação nas alturas. Em meio a tudo, a China, destino de quase 90% do petróleo iraniano, é fortemente afetada — o que, aliás, parece estar nos cálculos de Trump, como se deixou vazar. A tática seria criar um incômodo a Pequim, que assim pressionaria Teerã a liberar o estreito. Por ora, os chineses, donos de fartas reservas, que manteriam suas engrenagens operantes em horizonte dilatado, qualificaram a ação dos Estados Unidos como “perigosa e irresponsável”. O presidente Xi Jinping, que até então havia optado pela discrição, chegou a disparar: “Não podemos permitir que o mundo volte à lei da selva”.

NO AR - Reunião entre diplomatas de Israel e do Líbano mediada por Rubio (no centro): sem acordo sobre o fim dos ataques no país que abriga o Hezbollah
NO AR - Reunião entre diplomatas de Israel e do Líbano mediada por Rubio (no centro): sem acordo sobre o fim dos ataques no país que abriga o Hezbollah (Andrew Harnik/Kawnat Haju/AFP)
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A eficácia do cerco depende, claro, de sua extensão, sujeita às idas e vindas das costuras que venham a ser seladas. Mais de 10 000 soldados, quinze navios de guerra e dezenas de aviões e helicópteros americanos foram mobilizados para vetar o tráfego de embarcações do Irã. O bloqueio de Trump se estende a barcos de qualquer nacionalidade que façam escala em portos iranianos, bem como àqueles que paguem o chamado “pedágio de Teerã” para atravessar o estreito, estipulado em 2 milhões de dólares. Até quinta-feira 16, treze deles já foram obrigados a recuar. Os considerados “neutros” podem seguir viagem, mas sob inspeção, para evitar o transporte do petróleo iraniano. “Qualquer embarcação que entre ou saia da área bloqueada sem autorização poderá sofrer interceptação, desvio e captura”, comunicou o Centcom, comando militar americano no Oriente Médio. Os Estados Unidos alardeiam ter expertise em ações do gênero, uma vez que só neste ano apreenderam dez petroleiros chegando ou partindo da Venezuela. “Sustentar toda essa logística não será nada simples”, avalia Matthew Kroenig, do think tank Atlantic Council.

É ainda incerto o impacto do bloqueio americano no mercado mundial de energia — inclusive nos Estados Unidos, onde a gasolina 30% mais cara já derrubou a aprovação de Trump ao nível mais baixo de seu segundo mandato, trazendo um complicador e tanto ao Partido Republicano no ano da tão aguardada eleição de meio de mandato, em novembro, que definirá assentos cruciais na Câmara e no Senado. O poder do mercurial mandatário depende dessa configuração, daí tentar a todo custo pôr fim a um conflito para lá de impopular, que ele mesmo começou. Neste caldeirão, Ormuz ganha protagonismo, e a queda de 27% das remessas de petróleo de países do Golfo é dor de cabeça para a Casa Branca. A questão central é que, pelo menos até agora, Teerã segue na linha de resistir e ameaça causar mais estrago ainda, mirando portos da região e até aventando a possibilidade de piorar a vida dos que cruzam o Mar Vermelho, outra valiosa rota para a dinâmica da economia global.

O fracasso das conversas em Islamabad, a capital paquistanesa, ajudou a dar a medida de quão frágil é o equilíbrio do cessar-fogo e do tanto de dificuldades que se apresenta no meio do percurso rumo à paz duradoura. Nem os mais otimistas esperavam, é verdade, que o desenlace de nós históricos se resolvesse ali, em poucas horas, mas o fato de Irã e Estados Unidos fincarem o pé em tópicos de alta relevância deixou um sabor particularmente amargo. O principal impasse continua a girar em torno do programa nuclear iraniano, uma das justificativas, tanto do lado americano como do israelense, para a atual investida militar. Mas se o que foi posto à mesa parece afastar de vez um ponto de convergência, ao menos houve aí um início de conversa — o governo de Washington exigiu a suspensão do enriquecimento de urânio por ao menos vinte anos, enquanto Teerã ofereceu cinco, proposta já descartada.

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TIRO N’ÁGUA - Vance no Paquistão: horas de conversa com os adversários não levaram a lugar nenhum
TIRO N’ÁGUA – Vance no Paquistão: horas de conversa com os adversários não levaram a lugar nenhum (Jacquelyn Martin/Getty Images)

Sabidamente, o assunto requer tempo para maturar, e é muito mais do que sugere o discurso do tudo ou ­nada de Trump. “O último acordo nuclear entre americanos e iranianos levou mais de dois anos para ser negociado. O que podemos esperar agora é, no máximo, um tratado provisório para continuar as tratativas”, ressalta Miad Maleki, pesquisador da Fundação para a Defesa das Democracias, nos Estados Unidos. Em um cenário alvissareiro, novas reuniões em Islamabad ampliariam a trégua até se alcançar um arranjo em que os aiatolás abram mão de seu estimado estoque de 440 quilos de urânio — suficiente para dez ogivas, caso siga na rota do enriquecimento — em troca do alívio de sanções e do desbloqueio de bilhões de dólares em receitas petrolíferas, congelados em bancos no exterior. “Esse é um obstáculo concreto para uma paz sustentável”, afirma o especialista em relações internacionais João Nyegray, da PUCPR.

Outro foco de inflamada discórdia é a situação do Líbano, uma guerra à parte que só interessa a Israel. O governo de Benjamin Netanyahu aproveita o momento para atacar como pode o Hezbollah, milícia financiada pelos iranianos e alojada no país vizinho, o que fez balançar o já enfraquecido cessar-fogo. No acerto da trégua, segundo Irã e Paquistão, teria sido adicionado ao pacote o fim dos inclementes bombardeios sobre o território libanês, o que Tel Aviv e Washington trataram prontamente de negar. O impasse foi crescendo a tal ponto que, sob pressão de Trump, o gabinete de segurança israelense anunciou na quinta-feira 16, não sem relutância, que pausará por dez dias os ataques, com saldo até agora de 2 200 mortes.

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Também por insistência americana, Netanyahu já havia cedido a um pedido do Líbano e, na terça-feira 14, embaixadores dos dois países sentaram-se à mesa pela primeira vez em trinta anos, o que deu grandeza à reu­nião mediada pelo secretário de Estado Marco Rubio, em Washington. “Descobrimos que estamos do mesmo lado”, disse o diplomata israelense Yechiel Leiter. “Pode ser o começo do fim do sofrimento”, afirmou o presidente libanês Joseph Aoun. Nada de concreto emergiu daí, além de um salutar aceno para novas conversas. Detalhe: faltou combinar com o Hezbollah, que tem vida própria no Líbano e é mais poderoso do que o governo local. Como se vê, o Oriente Médio não é para amadores.

Publicado em VEJA de 17 de abril de 2026, edição nº 2991

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