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Após declarar vitória contra a Covid-19, Israel enfrenta segunda onda

Menos de dois meses após o início do relaxamento, governo decretou o fechamento de bares, academias, piscinas e espaços de eventos

Por Julia Braun - Atualizado em 8 jul 2020, 12h08 - Publicado em 8 jul 2020, 11h38

Por meses, Israel foi considerado um modelo internacional de sucesso na lutra contra o coronavírus. Em 18 abril, exatamente dois meses após o país detectar seu primeiro caso de Covid-19, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu declarou vitória contra o vírus. Infelizmente, este não foi o fim da história: atualmente, a sociedade israelense enfrenta uma segunda onda da doença muito mais violenta do que a primeira.

Apenas algumas semanas após a reabertura de restaurantes, shoppings, academias e praias, Israel passou a observar um crescimento na curva de infecções. De aproximadamente 20 novos casos de coronavírus por dia em meados de maio, o país agora registra quase 1.000 novos casos diariamente.

Ao todo, Israel registrou até esta quarta-feira, 8, 32.714 casos e 342 mortes, segundo a Universidade John Hopkins. A cifra é baixa, comparada com outras nações como Brasil, Estados Unidos, Rússia e Índia. Ainda assim, o crescimento das infecções preocupa o governo.

Menos de dois meses após o início do relaxamento das medidas de distanciamento social, o governo corre para fechar algumas áreas e proteger sua população contra novos surtos. Na segunda-feira 6, Netanyahu decretou o fechamento de bares, centros esportivos, piscinas e espaços de eventos. Restaurantes e templos religiosos só podem funcionar com capacidade limitada.

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Para evitar um lockdown total e um crescimento ainda maior da taxa de desemprego, que atualmente já passou os 20%, o primeiro-ministro decidiu manter lojas e outros serviços funcionando, mas fez questão de alertar a população sobre os riscos. “Todos os cidadãos de Israel sabem, ou precisam entender, que agora devemos tomar ações limitadas, com o mínimo de impacto econômico possível, a fim de evitar medidas extremas que paralisarão a economia”, disse.

Com as novas restrições entrando em vigor, os israelenses estão novamente perdendo a sensação de “normalidade” em que acreditavam viver. O retrocesso desencadeou uma chuva de críticas ao governo. A confiança da população na gestão de Netanyahu da crise do coronavírus está caindo rapidamente. Em meados de maio, 73% aprovavam as ações de seu governo, enquanto atualmente apenas 46% concordam com as ações do premiê, de acordo com uma pesquisa conduzida pelo Canal 12 de notícias.

A principal responsável pela gestão em saúde pública do Ministério da Saúde, Siegal Sadetzki, renunciou nesta terça-feira 7, após criticar de forma contundente a gestão da pandemia pelo governo. No Facebook, Sadetzki afirmou que “o tratamento do surto perdeu o rumo por várias semanas”. “Apesar dos avisos sistemáticos e regulares nos vários sistemas e nas discussões em diferentes fóruns, assistimos com frustração enquanto a ampulheta de oportunidades se esgota”, escreveu.

Sistema de controle

Nos primeiros meses de combate ao coronavírus, Israel foi avaliado como um modelo a ser seguido pelo resto do mundo. Comandada pelas Forças de Defesa de Israel (IDF), a estratégia utilizada pelo país consistiu em grandes investimentos em tecnologia, controle do distanciamento social e uso de hotéis para isolar cidadãos contaminados ou pessoas vindas do exterior.

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Graças à mão de obra a sua disposição, o Exército “adaptou rapidamente sua produção” de aparelhos de proteção e aparatos para limpeza. Em uma base perto de Tel Aviv onde normalmente são construídos tanques, dezenas de pessoas passaram a trabalhar na produção de óculos de proteção contra o novo coronavírus.

São fabricados até 1.000 máscaras de proteção por dia para equipes médicas, militares e civis. Os militares também trabalharam na criação de um software de gerenciamento de informações para gerenciar os testes Covid-19 com eficiência.

Soldados, oficiais, engenheiros e civis também trabalham na adaptação de ambulâncias, instalando paredes de plástico para separar o paciente do motorista ou transformando grandes contêineres em salas de detecção do vírus. Em tempo recorde, o Exército também desenvolveu um robô com capacidade de desinfetar grandes superfícies.

Além disso, os militares foram responsáveis por coordenar os esforços para transformar hotéis em grandes centros de recepção para pacientes da Covid-19 e pessoas vindas do exterior e que precisavam passar por quarentena. A estratégia se mostrou muito eficaz nos primeiros meses do surto.

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Israelenses e palestinos também entraram em um período de trégua em prol do combate ao vírus. Israel enviou toneladas de desinfetante para a Cisjordânia, além de kits para realização de testes e equipamentos de proteção para as equipes médicas e as forças de segurança palestinas.

O governo de Benjamin Netanyahu também organizou workshops conjuntos entre as equipes médicas dos dois lados e montou um hospital de campanha na fronteira com a Faixa de Gaza.

O que aconteceu?

O crescimento da curva foi identificado logo após o início do relaxamento, no final de maio. Os hospitais estão sofrendo para acomodar casos graves, que começaram a dobrar a cada dia, segundo dados do gabinete do primeiro-ministro.

Especialistas em saúde pública, ao mesmo tempo em que elogiam a atuação do governo para conter o surto no início do ano, citam uma série de falhas cometidas pela administração nos últimos meses. A falta de um coordenador para a força-tarefa contra o coronavírus e de uma rede nacional de laboratórios e técnicos capazes de rastrear o vírus foi apontada como uma das principais razões para o surto.

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Em países europeus como Alemanha e Áustria, a estratégia de rastreamento de casos e possíveis contatos que podem ter levado a uma transmissão tem se mostrado funcional até o momento. Para os críticos, isso foi o que não funcionou em Israel.

Ao jornal americano The Washington Post, um funcionário do governo observou que Israel realiza em média mais de 20.000 testes por dia, mas reconhece o rastreamento inadequado das transmissões. “[O rastreamento] não era suficientemente robusto em termos de mão-de-obra”, disse o funcionário.

“Somos o único país do mundo menos preparado para a segunda onda do que para a primeira”, disse o líder da oposição no Parlamento, Yair Lapid, em uma reunião do seu partido Yesh Atid na segunda-feira.

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