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‘Amigos da Síria’ reconhecem CNS como representante de todos os sírios

Conselho Nacional Sírio passa a ser visto como interlocutor principal para as negociações no país. A decisão foi tomada neste domingo, em conferência com representantes de 83 países

O ministro das Relações Exteriores turco, Ahmet Davutoglu, anunciou que a 2ª Conferência dos Amigos da Síria, realizada neste domingo em Istambul com a participação de 83 países, reconheceu o opositor Conselho Nacional Sírio (CNS) como representante do povo. “Os Amigos da Síria reconhecem o CNS como representante de todos os sírios, como interlocutor principal para as negociações no país”, disse o ministro durante coletiva após a conferência. Houve ausências importantes na reunião de Istambul, como Rússia, China e Irã, os principais apoios do regime sírio.

Davutoglu ressaltou que na cúpula foram ouvidos os testemunhos de vários representantes sírios, recentemente exilados de Homs e Aleppo. Ele disse ainda que a situação humanitária é “ainda mais grave do que divulga a imprensa internacional”. Segundo o ministro, os civis expostos a ataques com armas pesadas e artilharia, inclusive helicópteros, “têm o direito de se defender e tentar escapar”. Neste domingo, na Síria, 16 pessoas morreram, entre elas oito soldados em combates ou ataques rebeldes no leste e noroeste do país, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH).

“Os que estão perto da fronteira podem fugir, mas os que vivem mais longe que opções têm? Têm direito a fazer tudo o que podem para sobreviver”, afirmou Davutoglu. “Nosso manifesto final inclui que devemos fazer chegar remédios e ajuda humanitária básica à população síria necessitada. A ajuda será coordenada pelo grupo Amigos da Síria em coordenação com as Nações Unidas e empregaremos todas as vias possíveis para enviá-las”, disse o ministro.

Agora, a espera é pela declaração de Kofi Annan, enviado especial das Nações Unidas e a Liga Árabe, na segunda-feira. “Depois utilizaremos todas as alternativas, repito: todas as alternativas para ajudar o povo sírio”, reiterou. O ministro expressou ainda o apoio da conferência à missão de Annan, mas lembrou que “não se trata de uma iniciativa nova. Annan foi para pedir ao regime sírio que implemente o plano da Liga Árabe, e não se deve permitir que o regime use isto para ganhar tempo e seguir matando”, segundo Davutoglu, “este é o erro que se cometeu na Bósnia, onde perdemos 250 mil pessoas”.

O ministro detalhou que a conferência estabeleceu dois grupos de trabalho, um dedicado às sanções contra a Síria e o outro à recuperação do país árabe após a transição política. “Oferecemos todo tipo de apoio a um processo político pacífico”, disse ao resumir o resultado da conferência.

A 2ª Conferência voltou a apostar em uma solução negociada para a crise e insistiu que isso deve ocorrer dentro de alguns dias. O encontro não avançou, no entanto, em medidas mais agressivas contra o regime de Bashar al Assad, como a intervenção militar estrangeira, o envio de uma força de paz árabe ou o apoio explícito à guerrilha síria- requisitadas por alguns setores da oposição e certos países da região. O documento final, de quatro páginas, contém numerosos detalhes que respaldam a postura do CNS, como o expresso “apoio às medidas legítimas que tome a população síria para se proteger”. O documento pede ainda que os membros das forças de segurança sírias não obedeçam ordens ilegítimas. Há também um apelo para que seja impedido o acesso do regime ao armamento.

Apesar das conclusões não permitirem falar de uma nova fase na pressão sobre o regime, todos os participantes se esforçaram em apresentar a reunião como um passo decisivo para pôr fim à violência que já custou a vida de mais de nove mil pessoas em um ano.

A conferência estabeleceu ainda dois grupos de trabalho: um que se esforçará para ampliar as sanções contra a ditadura de Assad e outro que trabalhará pela recuperação econômica de uma futura Síria democrática. No entanto, parece que qualquer medida ficará suspensa pelo menos até segunda-feira, quando Kofi Annan apresentará perante o Conselho de Segurança um balanço de sua iniciativa de paz, aceita em teoria por Assad, embora não tenha sido posta em prática, segundo se denunciou neste domingo. “Não quero julgar de antemão. Primeiro quero escutar o que Annan vai dizer amanhã, é um mediador experiente” disse a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, após a conferência. Hillary prometeu que Washington enviará equipamentos de comunicação aos ativistas na Síria para que documentem a repressão e façam chegar essa informação ao exterior.

A chefe da diplomacia dos Estados Unidos está quase convencida que não haverá mudanças, pois, em sua opinião, “Assad decidiu acrescentar este caso à sua longa lista de promessas quebradas”. O único passo concreto do encontro foi mesmo o reconhecimento do CNS como representante de todos os sírios como a organização que aglutina os grupos de oposição e se transforma no interlocutor principal da oposição com a comunidade internacional, segundo frisou Davutoglu.

O presidente do CNS, Burhan Ghaliun, acadêmico sírio exilado em Paris, interpretou esta formulação como um respaldo considerável. “Isso significa que o regime sírio já não pode ser considerado legítimo a partir do dia de hoje e que o povo sírio tem direito a derrubar este regime ilegítimo”, afirmou à imprensa. As conclusões da conferência também não contêm a opção de áreas desmilitarizadas ou de exclusão aérea que passariam ao controle do Exército Sírio Livre (ESL), como Ghaliun tinha pedido durante a reunião. Mas, por outro lado, inclui um compromisso claro de fazer chegar de forma urgente ajuda humanitária, com independência das negociações políticas, um ponto que Davutoglu expressou de forma mais nítida que o documento oficial.

A terceira reunião dos ‘Amigos da Síria’, grupo formado no dia 24 de fevereiro na conferência da Tunísia, acontecerá na França, ainda sem data definida.

(Com EFE e AFP)