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América Latina: Covid-19 desafia economia cambaleante e sistema precário

Países da região marcada por déficit social histórico enfrentam epidemia com isolamento social, Nicarágua é exceção

Por Denise Chrispim Marin Atualizado em 16 abr 2020, 18h13 - Publicado em 16 abr 2020, 18h02

Quando surgiu o primeiro caso de contaminação pelo novo coronavírus na América Latina, em 26 de fevereiro, o mosaico de países com economias cambaleantes e histórico déficit social viu-se diante de um desafio para o qual conta com bem menos instrumentos para lidar que seus aliados europeus. Com sistemas públicos de saúde frágeis, boa parte das nações apressou-se em fechar fronteiras e impor quarentenas, algumas delas draconianas. Mas dessa mesma região vieram declarações negacionistas que, de forma inusitada, aproximam os presidentes Jair Bolsonaro e Daniel Ortega, o ex-guerrilheiro e líder bolivariano há 13 anos da Nicarágua.

Não foi à toa que o jornal The Washington Post, em editorial publicado na terça-feira 14, indicou Bolsonaro como pior líder mundial a comandar a reação à pandemia do novo coronavírus, por sua resistência às medidas de isolamento e seu exemplo – antes, portanto, da demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. A seu lado, elencou Ortega e os presidentes do Turcomenistão e de Belarus. 

Desde aquele primeiro caso, em solo brasileiro, mais de 70.000 se somam na região como enfermos da Covid-19, a doença provocada pelo novo coronavírus. Desse grupo, mais de 3.000 morreram até o momento. Mesmo em países que conseguiram lidar habilmente com a epidemia, o temor de nova onda de contaminações e os efeitos da economia estagnada provocam os governos a encontrar o ponto de equilíbrio entre as medidas de restrição e a retomada das atividades.

Como dado mais eficaz para comparar os contágios em cada país latino-americano, o raking dos mais efetados por grupo de 100.000 habitantes está encabeçado pelo Panamá, cujo território é cortado pelo canal que conecta o Atlântico ao Pacífico e motiva uma movimentação ininterrupta de navios cargueiros e tripulações de todo o mundo. Economia em ascensão até a chegada da pandemia, o país registra 83 casos por grupo de 100.000 habitantes. O Brasil, que lidera em número efetivo de enfermos (29.214 até a quinta-feira, 16), tem 12 casos na mesma comparação. O quadro, porém, sugere que o governo panamenho se mostrou mais preparado para tratar as vítimas. Dos seus 3.472 pacientes de Covid-19, 94 faleceram – algo como 2,7%. No país governado por Bolsonaro, o porcentual é o dobro, 5,7%.

No mesmo ranking de enfermos por grupo de 100.000 habitantes, três países da costa do Pacífico registram números alarmantes. O Equador, país cujo sistema funerário não conseguiu lidar com o alto número de óbitos e que enviou ao mundo imagens impressionantes de corpos largados nas ruas de Guayaquil, registra 44 contaminações por grupo de 100.000. O Chile, altamente desafiado em um momento de crise social e institucional, figura em terceiro lugar, com 42. Peru e República Dominicana, seguem em terceiro lugar, com 31. Reconhecido por seu elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o vizinho Uruguai está na frente do Brasil, com 14.

A situação no Equador, onde 8.225 pessoas foram contagiadas e 403 morreram, pode ser explicada por um conjunto de fatores. Entre eles, a renúncia da ministra da Saúde, Catalina Andramuño, no auge da crise em Guayaquil, e pela elevada conexão com a Espanha, onde os equatorianos formam a principal comunidade estrangeira. O país foi o primeiro a adotar o toque de recolher, mas os apelos por isolamento e distanciamento social ficaram no ar por muito tempo antes de a sociedade testemunhar os resultados da negligência.

 

Não é o que parece

Criança com máscara observa coleta de água em recipientes precários em Caracas: crise humanitária somada à epidemia -27/03/2020 Cristian Hernández/AFP

O grupo dos menos afetados, com menos de 1 caso por 100.000 habitantes, é formado pela Guatemala, Nicarágua e Venezuela. A suspeita sobre os dados dos dois últimos tem relevância, mas nenhum país latino-americano ainda conseguiu testar massivamente sua população com sintomas da Covid-19, como fez a Coreia do Sul. Fato é que nenhum dos dois é exemplo de bom gerenciamento da crise e de seus sistemas de saúde.

A Venezuela impôs uma quarentena severa desde meados de março, e a Nicarágua não adotou nenhuma medida restrita – até permitiu a continuidade do campeonato nacional de futebol. Ambas nações estão entre as mais isoladas, dos pontos de vista político e econômico, do continente. São também as que o coronavírus tem potencial de fazer mais estragos, dada a fragilidade de seus sistemas de saúde e a precária rede de cooperação internacional. As receitas adotadas, porém, foram completamente opostas.

Nicolás Maduro, ditador da Venezuela, estendeu nesta semana a quarentena por mais 30 dias. Em um país onde alimentos, remédios, materiais médico-hospitalares e gasolina são itens tão raros como necessários há anos, a medida de isolamento “voluntário” tem sido a única alternativa a um regime que não tem mais fontes de financiamento. Na Nicarágua, onde Ortega reapareceu depois de mais de um mês oculto e sem dar explicações na quarta-feira 15, nenhuma restrição à circulacão das pessoas nas ruas foi adotada até o momento, exceto a postergação do feriado da Semana Santa nas escolas até 20 de abril. O líder atribuiu a Deus o surgimento do coronavírus e, na linha de Bolsonaro, defendeu a continuidade da atividade econômica. “Se parar de trabalhar, o país morre”, afirmou, sem mencionar quantos testes de diagnóstico do vírus foram realizados no país.

Assim como na Venezuela, o isolamento social tem sido a resposta mais comum – além de ser a mais eficaz, do ponto de vista da Organizacão Mundial da Saúde (OMS) – na quase totalidade dos países latino-americanos. O acesso limitado a testes de diagnóstico reforça essa iniciativa. O Paraguai, um dos primeiros a suspender as aulas e os eventos esportivos e culturais, seguiu a lógica da prevenção diante da incapacidade de seu sistema de saúde aguentar o tranco da epidemia que se avistava. Tem dois casos para cada grupo de 100.000. No Peru e no Chile, mesmo sem os resultados esperados, o Exército e a polícia foram colocados nas ruas para vigiar e até prender quem rompesse a quarentena.

Isolamento, mesmo que tardio

Cartaz pede que pessoas fiquem em casa em Buenos Aires, Argentina: saúde em perigo e crise econômica severa – 19/03/2020 Santiago Botero/NurPhoto/Getty Images

No grupo dos que estão administrando com melhor eficácia a epidemia, seja por causa das restrições e/ou das redes de saúde mais bem preparadas, estão países como Cuba, Colômbia, Argentina e México, este último com atraso. Castigada por uma severa crise econômica, a mensagem do governo de Alberto Fernández, da Argentina, para que as pessoas fiquem em casa não só tem sido mantida desde 19 de março, como foi prorrogada até 26 de abril. O temor de uma nova onda pode levar a uma extensão desse prazo, mesmo diante de uma recessão ainda mais grave. A Casa Rosada, porém, fez uma clara escolha pela saúde dos argentinos, enquanto anunciava na quinta-feira, 16, o seu plano de reestruturação da dívida pública e esperava a reação dos mercados.

“Ao contrário da China, da Itália e dos Estados Unidos, a Argentina adotou medidas drásticas e antecipadas desde o começo da pandemia. Temos um grande gargalo na área de saúde, por exemplo no acesso aos reagentes para os exames, mas nosso sistema é medianamente mais preparado do que nos países vizinhos”, afirmou o médico epidemiologista Adolfo Rubinstein, ex-ministro da Saúde.

A epidemia alcançou a Argentina em 7 de março, quando foi registrada a primeira morte causada pelo coronavírus, em um de seus piores momentos. Há um claro racha no Poder Executivo, de onde o peronista Fernández se desdobra tanto com a oposição quanto com sua cabo eleitoral e vice, Cristina Kirchner, enquanto o governo corre para controlar a inflação, de 53,8% em 2019. O país será golpeado pelo terceiro ano de recessão, com redução de 5,7% no Produto Interno Bruto (PIB) em 2020, segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), e pela escalada do desemprego a 10,9%.

“O governo tomou medidas de qualidade para deter a pandemia, mas não se sabe se haverá orçamento para a compra de respiradores e, com os antecedentes que temos sobre os dados oficiais, não há certeza sobre os números já divulgados de casos de contaminação e de mortos”, afirmou o analista político Gabriel Palumbo.

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O populista de esquerda Andrés Manuel López Obrador, presidente do México, chegou a dizer que não havia razões para as pessoas pararem de se abraçar e beijar, quando a epidemia ceifava vidas às centenas a cada dia na China e, depois, na Itália. Apenas na última semana de março, quando contágios locais surgiram, AMLO passou a correr atrás do tempo perdido. Sua orientação aos mexicanos passou a ser para que ficassem em casa, que as atividades com movimentação massiva de pessoas fossem suspensas e que as Forças Armadas se mobilizassem para auxiliar na emergência de saúde pública. As atividades estão suspensas até 30 de abril, e o governo torce para que, até lá, os hospitais não estejam lotados.

Até o momento, o país registra quatro contaminações por grupo de 100.000. habitantes, apesar da vizinhança com os Estados Unidos, onde há 201 enfermos nessa mesma relação. Na manhã de quinta-feira 16, ao lado de AMLO, o subsecretário de saúde do México, Hugo López-Gatell, apresentou projeções de fim da epidemia apenas em 25 de junho se as medidas restritivas continuarem em vigor.

  • A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), em relatório do início de abril sobre o impacto da Covid-19, destacou que o setor de saúde da região será fortemente impactado pela escassez de mão de obra qualificada e de estoques de materiais médicos, além do aumento dos custos. A maior parte das nações latino-americanas, informou, investiu apenas 2% dos gastos públicos em saúde em 2018, quando o recomendado pela Organizacão Panamericana de Saúde (OPS) era o desembolso de 6% para prover cobertura universal.

    Para a Cepal, as instalações hospitalares não são suficientes para atender a demanda prevista e dependem de importações de equipamentos e insumos médicos. Há dois anos, apenas dois países latino-americanos contavam com número mais elevado de leitos hospitalres por grupo de 1.000 pessoas do que a média mundial, de 2,8 por leito: Cuba e Argentina. O Uruguai, Chile, Brasil e Panamá estavam acima da média da região, de dois leitos por 1.000 habitantes.

    “A maioria dos países da região se caracteriza por ter sistemas de saúde frágeis e fragmentados, que não garantem o acesso universal necessário para fazer frente à crise da Covid-19”, diz o texto. “Os sistemas de saúde de vários países da região já estava sob pressão por causa da epidemia de dengue. Em 2019, mais de 3 milhões de pessoas – o maior número histórico – foram contaminadas e 1.538 delas morreram. O Brasil teve o maior número de casos: 2,2 milhões de pessoas”, completou.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

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