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Aluna mentiu sobre polêmica que levou a decapitação de professor na França

Menina alegou que Samuel Paty mandou estudantes muçulmanos saírem de aula com charges do profeta Maomé, caso que instigou raiva de extremista

Por Amanda Péchy 10 mar 2021, 11h39

Uma aluna do professor Samuel Paty, assassinado na França em outubro passado, admitiu durante as investigações do caso que mentiu sobre a aula em que ele mostrou charges do profeta Maomé. As alegações geraram uma campanha de difamação que culminou na decapitação do professor por um extremista islâmico na porta da escola.

Publicadas em 2015 pelo jornal satírico Charlie Hebdo, o que também desencadeou um ataque terrorista distinto, as imagens geraram acusações de islamofobia e intolerância, principalmente porque o professor teria supostamente excluído estudantes muçulmanos. Só que a menina na origem da controvérsia sequer estava na aula.

“Eu não estava lá no dia das charges”, admitiu a estudante durante sua acusação por “denúncia caluniosa”, em 25 de novembro de 2020. Segundo o jornal francês Le Figaro, a menina teria mentido para não admitir para o pai que tinha matado aulas e recebido uma suspensão.

A complexa fabulação foi a seguinte: Paty teria mandado que os estudantes muçulmanos saíssem da sala para mostrar as charges de Maomé, mas ela se recusou, sendo punida com uma suspensão. Na verdade, ele havia dito que os alunos que se sentissem desconfortáveis com as representações podiam desviar o olhar, e a aluna foi suspensa dias antes da aula ser dada, de acordo com o jornal Le Parisien.

A polêmica acabou parando nas redes sociais por obra do pai da menina, que também iniciou um processo na Justiça, gerando uma campanha online contra o professor. As acusações de islamofobia e intolerância chegaram ao imigrante de origem chechena Abdullah Anzorov, de 18 anos (na França há doze), que decidiu matar Paty.

De acordo com o depoimento da aluna, ela disse: “Não vi os desenhos, foi uma menina da minha turma que me mostrou”.

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“Ela mentiu porque se sentiu presa em uma espiral, porque seus colegas a pediram para ser porta-voz [no caso]”, disse Mbeko Tabula, seu advogado.

Paty morreu decapitado na saída da escola em que lecionava em Conflans-Sainte-Honorine, na região metropolitana de Paris. O assassino não demorou a ser localizado e morto pela polícia. Nos dias que se seguiram, manifestantes foram às ruas condenar o incidente, que reacendeu o debate sobre extremismo no país.

Os promotores disseram logo após o assassinato que havia um “vínculo causal direto” entre a campanha online contra a Paty e seu assassinato. O jornal Le Figaro publicou no domingo 7 que as acusações se baseavam em informações falsas sobre o que havia ocorrido na aula.

Com uma população de 5 milhões de muçulmanos, a maior da Europa Ocidental, a França há tempos lida com pressão interna por conta da ataques extremistas. O presidente Emmanuel Macron, prestando homenagem a Paty, afirmou que “os terroristas não vencerão”. Meses depois, o governo passou nova legislação para combater o extremismo islâmico.

Recentemente, dois professores universitários receberam proteção policial após serem acusados ​​de islamofobia por estudantes. Cartazes com os escritos “Fascistas em nossas salas de aula, a islamofobia mata” foram colocados na universidade Sciences Po, em Grenoble, e a ministra do Interior, Marlène Schiappa, disse que a campanha lembrava o assédio a Paty.

“Não podemos tolerar esse tipo de coisa”, disse Schiappa.

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