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Aldeia beduína em Israel já foi demolida e reconstruída mais de 30 vezes

Por Da Redação - 10 jun 2012, 10h07

Antonio Pita.

Al Arakib (Israel), 10 jun (EFE).- Após ser demolida e reconstruída mais de 30 vezes nos últimos dois anos, a aldeia beduína de Al Arakib, em Israel, cuja existência não é reconhecida oficialmente pelo Estado, agora teme mais as árvores que as escavadeiras.

Nem a inóspita aldeia, localizada ao nordeste de Beer Sheva, nem o caminho de cascalho que a conecta com a estrada estão sinalizados ou aparecem nos mapas porque, no papel, Al Arakib não existe.

Seu caso não seria diferente do dos outros 45 povoados não reconhecidos, nos quais vive a metade dos 180 mil beduínos do deserto do Neguev, se não fosse pela ‘guerra de desgaste’ que seus moradores e as autoridades israelenses vivem desde julho de 2010.

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Al Arakib foi destruída 35 vezes (a última na semana passada) e parcial ou totalmente reconstruída outras tantas pelos beduínos, com a ajuda de ativistas israelenses e estrangeiros.

Como se fosse uma brincadeira macabra, as 30 famílias que ficaram na aldeia (dezenas desistiram no caminho) instalaram suas tendas e cabanas no cemitério para evitar que se transformem em escombros.

‘Não é triste? Antes tínhamos casas e oliveiras. Vivíamos do campo. Agora vivemos no cemitério’, assegura Aziz al Turi, enquanto passeia pelos poucos vestígios de vida em Al Arakib.

O ancião Saiy exibe documentos da época otomana para mostrar que a aldeia existia décadas antes de nascer o Estado de Israel, que a confiscou por ‘necessidades de segurança’ e promoveu a colonização judaica do Neguev para superar a maioria demográfica dos árabes.

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Em 2008, uma comissão propôs a legalização de muitos povoados não reconhecidos, mas no ano passado o Governo de Benjamin Netanyahu aprovou um plano de incentivo para o realojamento de mais de 30 mil beduínos.

Mas agora, em Al Arakib, a preocupação não está nas escavadeiras e documentos das altas esferas políticas, mas em troncos de árvore – de apenas meio metro e quase sem brotos – plantados este mês em torno do povoado pelo Fundo Nacional Judeu (FNJ), organização sionista criada em 1901 para comprar terra para judeus na então Palestina sob o Império Otomano.

A Administração de Terras de Israel, organismo governamental por trás do plantio das tais árvores, admitiu à Agência Efe que a estratégia consiste ‘em ‘arborizar’ as regiões problemáticas’, nas quais se instalam com frequência casas ilegais.

‘Decidimos deixar de lutar contra este fenômeno com maquinaria pesada e escavadeiras. Em outras palavras, prevenir demolições plantando árvores’, o que ‘beneficia o meio ambiente’ e ‘economiza dezenas de milhares de shekels para o país’, explicou um dos porta-vozes do organismo.

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Oren Iftajel, professor de geografia e urbanismo da Universidade Ben Gurion de Beer Sheva envolvido na defesa de Al Arakib, acredita que a introdução das árvores está profundamente relacionada com o processo legal iniciado pelos beduínos na Corte Suprema.

Em setembro, o tribunal deverá determinar a quem pertence a terra e se o confisco de Al Arakib foi legal.

‘O confisco foi justificado por necessidades de segurança. Depois de 60 anos, a terra não foi usada para esse propósito e agora que a sentença está próxima, tentam encontrar outro’, assegura Iftajel.

Moriel Rotmhan, um dos ativistas do grupo Rabinos pelos Direitos Humanos que organiza visitas de solidariedade com o povoado, insiste na importância do novo elemento da arborização: ‘Uma vez que as árvores estejam plantadas é o fim, já que removê-las pode significar acabar atrás das grades’.

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Danificar parcial ou totalmente uma árvore tem uma pena especial no ordenamento jurídico israelense de até quatro anos de prisão, explica Carmel Pomerantz, a advogada que trabalha no caso.

‘É outro meio ou ferramenta para expulsá-los de suas terras. Neste contexto, o FNJ não faz nada ilegal, mas se transformou em um ator principal’, opina Haia Noaj, diretora do Fórum de Coexistência no Neguev para a Igualdade Civil.

O Fundo ressalta que as árvores não foram plantadas em nenhuma das quatro partes de Al Arakib, mas em suas imediações, como prometeu seu presidente, Efi Stenzler.

‘As operações de plantio e todo o desenvolvimento da terra do Neguev estão destinados a prevenir a expansão da linha do deserto e a erosão do solo, criando, além disso, uma zona verde para pasto, turismo e lazer’, apontou em comunicado de resposta.

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Rothman teme, no entanto, que essa plantação seja ‘só o início’ e se trate de uma ‘estratégia envolvente’.

Talvez as ruínas de Al Arakib acabem cobertas por um parque, como, em uma irônica reviravolta da história, ocorreu com 86 dos 400 povoados palestinos em Israel destruídos após a guerra de 1948. EFE

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