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Refugiada narra viagem da Síria à Alemanha. De cadeira de rodas

Sua história é tão extraordinária que inclusive a adolescente paquistanesa Malala Yousafzai, ganhadora do Nobel da Paz, disse que a considera uma inspiração

Por Da redação - 26 nov 2016, 22h19

São dois mil quilômetros entre a destruída Alepo, na Síria, e o refúgio na Alemanha, país mais aberto para os refugiados na Europa. A distância é quase intransponível devido às inúmeras dificuldades: a viagem é longa, cara e perigosa. Aqueles que se arriscam precisam atravessar uma zona de guerra, entrar na Turquia — país hostil para refugiados — e cruzar praticamente toda a Europa continental. A adolescente Nujeen Mustafa, de 17 anos, conseguiu. Mas um detalhe nada irrelevante faz de sua façanha algo ainda mais inacreditável: Nujeen usa uma cadeira de rodas.

E se não bastasse salvar a própria pele, ela ainda ajudou outros refugiados usando o inglês que aprendeu assistindo a uma novela americana. Esta jovem síria nunca evitou desafios. E agora que vive segura em Colônia, decidiu fixar um novo objetivo: provar que a chanceler alemã, Angela Merkel, tinha razão ao abrir as portas de seu país aos refugiados em 2015, ano em que 890.000 migrantes chegaram ao país.

“Vamos fazer o máximo possível para provar a todo o mundo que a Alemanha tinha razão desde o início”, disse em uma entrevista. Sua história é tão extraordinária que inclusive a adolescente paquistanesa Malala Yousafzai, ganhadora do Nobel da Paz, disse que a considera uma fonte de inspiração. “Ela disse que sou sua heroína, o que é um pouco estranho para mim, porque foi ela quem mostrou que as meninas podem mudar o mundo”, comentou Nujeen.

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A jovem síria contou em memórias escritas junto à jornalista britânica Christina Lamb seu difícil périplo pela Europa em cadeira de rodas. Esta obra, apresentada recentemente na Feira do Livro de Frankfurt, é uma tentativa de dar um rosto humano à onda de refugiados que chegou à Europa. “As pessoas pensam na crise síria como algo que acontece muito longe delas e da qual não deveriam se importar”, lamentou. “Espero que este livro tenha um impacto, ainda que seja em apenas uma pessoa”, expressou.

‘Perdoe-me, Síria’ — O livro, intitulado simplesmente “Nujeen”, começa com o relato dos primeiros dias da guerra e conta a escalada da violência, que terminou com a decisão de sua família de fugir do país. “Perdoe-me, Síria”, disse a menina ao cruzar a fronteira com a Turquia. Seus pais, que são muito idosos para a viagem, ficaram ali e deixaram que Nujeen e suas irmãs seguissem a viagem até a Alemanha.

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A adolescente contou no texto a viagem apavorante de barco até a Grécia. Seu tio dirigiu a embarcação utilizando noções que aprendeu no YouTube, enquanto a jovem precisou enfrentar muitos passageiros que queriam se desfazer de sua cadeira. Uma vez em terra, precisou enfrentar os traficantes mal-intencionados, os campos de refugiados superpovoados e as fronteiras fechadas.

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Mas também vivenciou momentos de solidariedade, como quando muitos migrantes a ajudaram a avançar levando a cadeira de rodas. Para a jovem, que saía pouco de seu apartamento em Aleppo, este périplo de um mês representou, apesar de tudo, uma aventura. “Pela primeira vez” se sentiu útil, já que o inglês que aprendeu assistindo à novela “Days of our life” foi muito útil. Entrevistada por vários jornalistas durante a viagem, tornou-se uma espécie de estrela, que surpreendeu os repórteres com seu sonho de ser astronauta.

‘Somos convidados’ — Desde que chegou à Alemanha, em setembro de 2015, Nujeen vai à escola, pela primeira vez fez amigos e inclusive começou a jogar basquete. Num momento em que aumenta a desconfiança em relação aos refugiados na Alemanha, Nujeen disse que este clima não mudou sua opinião sobre os alemães.

“Entendo por que algumas pessoas podem estar assustadas”, disse. Os refugiados deveriam “compreender isso e respeitar a cultura e o modo de vida dos alemães. Somos convidados e devemos causar uma boa impressão”. Se pudesse se reunir com a chanceler Angela Merkel, aproveitaria para agradecer a ela por sua política de acolhida.

“Vamos mostrar ao mundo inteiro que o resultado desta política será bom, que pode ficar orgulhosa e dizer ‘eu tinha razão'”, afirmou. Nujeen espera com impaciência a resposta ao seu pedido de asilo, ansiosa para poder ir visitar, finalmente, seus pais.

(Com France-Presse)

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