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A superação do Caminho de Santiago

A maioria dos peregrinos ainda faz o trajeto com motivação religiosa

Por La Vanguardia 30 ago 2010, 21h33

Cansados e felizes, ao chegar à praça do Obradoiro, os peregrinos se acostumaram a transmitir, acima de tudo, sua satisfação de haver alcançado um objetivo de superação pessoal. Esse esforço individual acaba de se traduzir na superação também das marcas históricas do Caminho de Santiago. Na sexta-feira passada, o arcebispado entregou a credencial que registra o peregrino de número 179.945, com o que, a três meses de terminar o atual ano santo, ultrapassou o total do anterior, em 2004, de 179.944. A maioria dos peregrinos assegura que faz a rota com uma motivação puramente religiosa, mas essa razão caiu de 73,9%, seis anos atrás, para 52,5% hoje.

“O melhor do Caminho é que você se desconecta do outro mundo”, dizia uma madrilena ao chegar à capital da Galícia. O que ela chama de alcançar um “outro mundo” – alternativo à vida do trabalho urbano, por meio do contato com a natureza e pelo esforço físico – é o que impulsionou o crescimento da peregrinação neste século, que culminou com a massificação do atual ano santo, celebrado quando o dia 25 de julho cai num domingo.

Até a noite de sábado, o número de peregrinos credenciados pelo arcebispado – que são os que chegam a Santiago depois de percorrer um mínimo de 100 quilômetros andando ou 200 quilômetros de bicicleta – era de 183.282, que se somaram aos 10 mil a 20 mil de um encontro juvenil, que vão receber a credencial. Em relação a 2004, o aumento é de 50%. Caso isso se mantenha, chegaria-se a um total anual de cerca de 270 mil peregrinos, acima das previsões iniciais.

“O Caminho não é fácil”, afirma um andaluz que o terminou esta semana. Por isso, como apontava um valenciano, chegar a Santiago “é um orgulho”. A prova dessa satisfação é o certificado oferecido pela delegação diocesana das peregrinações. São de dois tipos. A “compostela”, para os que declaram uma motivação religiosa ou religiosa e cultural, e o certificado que se dá aos movidos por causas unicamente culturais. Segundo os dados do arcebispado, de 1º de janeiro a 31 de julho deste ano, os que tinham um objetivo espiritual foram 69.908, pouco mais dos 65.608 de seis anos atrás. Os que também tinham interesses culturais passaram de 17.908 para 55.825. Os que não têm motivações religiosas passaram de 5.301 em 2004 a 7.391 hoje.

Nesse contexto, fazem sentido os contínuos alertas do arcebispo de Santiago, Julián Barrio, contra a “paganização” do Caminho. Ainda assim, o arcebispado destaca que nos anos santos, ao contrário do que já ocorre em outros anos, a peregrinação genuinamente cristã segue sendo majoritária.

“Em agosto, mais que peregrinos de verdade, há muitos ‘turigrinos’, turistas que em vez de sair de férias, fazem o Caminho”, comenta José Antonio López, que carimba as credenciais em uma paróquia de Sarria, cidade a 100 quilômetros de Santiago e principal ponto de saída. O que López chama de ‘turigrinos’ costuma ser o cidadão espanhol, que vai ao Caminho no verão para percorrer a distância mínima, um fenômeno que em 2009 teve um importante crescimento como alternativa de turismo barato. Neste ano santo, os espanhóis são maioria e representam 67% dos peregrinos. Mas em 2004 eram apenas 24%. Entre os estrangeiros, a maioria dos peregrinos vem da Alemanha, Itália, Portugal e França.

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