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A poesia – sim, a poesia – é uma das principais armas do Estado Islâmico

Longe de serem manifestações isoladas e desvairadas, os poemas dão sustentação ideológica à jihad e constituem um poderoso instrumento para conquistar simpatizantes

“Pergunte a Mosul, cidade do Islã, sobre o Leão/ Que com sua luta feroz trouxe a libertação/ E a terra de glória experimentou sua humilhação/ Para depois se vestir em trajes de devoção*”. Quem lê os versos singelos da síria Ahlam al-Nasr pode não ver imediatamente o que a linguagem poética atenua: o terror do Estado Islâmico (EI). Feita em versos de fácil memorização, para declamação oral, a poesia jihadista louva a conquista da cidade iraquiana de Mosul pelos ‘leões’ do EI e a sua conversão – forçada, claro – a mais uma posse do califado terrorista.

Longe de ser um exemplo isolado de uma mente desvairada, a poesia é uma das principais ferramentas culturais do jihadismo. “Analistas geralmente ignoram esses textos, como se a poesia fosse uma colorida distração menor do jihadismo. Mas é um erro. É impossível entender o jihadismo – e seus objetivos, seu apelo com novos recrutas e sua durabilidade -, sem examinar a sua cultura”, escreveram os acadêmicos americanos Robyn Creswell e Bernard Haykel na revista New Yorker. Creswell leciona em Yale e Haykel em Princeton, e ambos são especialistas em literatura árabe. Para eles, enquanto os vídeos de decapitações, torturas e com pessoas queimadas vivas são feitos para chocar o público ocidental, a poesia, os hinos e “documentários” com temática histórica e religiosa representam formas de expressões culturais voltadas para os próprios muçulmanos. Longe de ser supérfluo, esse material “fornece uma janela para vermos o movimento falando a si mesmo e são os versos que expressam mais claramente a vida de fantasia da jihad”.

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Ahlam al-Nasr não é a primeira poetisa a louvar o Estado Islâmico, mas a mais bem sucedida. O seu primeiro livro de poemas, “O Brilho da Verdade”, publicado on-line, viralizou entre os jihadistas, que declamam seus versos à capela – respeitando a proibição do uso instrumentos musicais, determinada pelo extremismo do EI. Entre os 107 poemas da “poetisa do Estado Islâmico” há odes às conquistas e aos mujahidin (guerreiros da jihad), lamentações pelos prisioneiros e versos curtos de louvor ao EI, anteriormente divulgados via Twitter. Parte de sua projeção também se deve às conexões de seu marido, Abu Usama al-Gharib, um propagandista do EI que possui ligações com líderes jihadistas de alto escalão. O casal hoje vive em Raqqa, cidade síria dominada pelos jihadistas, onde Ahlam al-Nasr é tratada como uma celebridade.

O sucesso da lírica jihadista entre os simpatizantes do EI pode ser compreendido como parte de algo maior, já que se apoia em uma longa tradição de apreço e cultivo da poesia arraigada nas culturas árabe e islâmica; explica José Farhat, vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe. “Há uma grande admiração e respeito pela poesia entre os árabes e muçulmanos. O Corão é todo escrito em versos, é uma poesia do início ao fim”, diz o especialista formado na Université Saint-Joseph, de Beirute. “No mundo árabe, há muitos periódicos e revistas exclusivamente de literatura e outros somente de poesias, muito mais do que revistas de variedades ou de cunho político”, completa Farhat, ressaltando que por forte influência do Corão, e por peculiaridades da língua árabe, a poesia faz parte do cotidiano de milhões de muçulmanos e “de caso pensado, ou não, os versos dos jihadistas são uma imitação e deturpação do Corão”.

Há uma grande produção de poesia jihadista em língua árabe. O fenômeno não é recente e até mesmo Osama bin Laden, o ex-chefe da Al Qaeda, escreveu seus versos – muitos dos quais foram lidos para grandes audiências como parte de uma campanha de recrutamento de combatentes para lutar no Afeganistão, em 2003. O terrorista mais famoso do mundo também escreveu uma elegia para os jihadistas que sequestraram os aviões usados nos atentados de 11 de setembro de 2001. “Abraçando a morte, os cavaleiros da glória encontraram seu descanso superior/ Eles agarraram as torres com mãos raivosas e rasgaram seu interior*”.

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Utopia distorcida – A propaganda jihadista promete uma vida de aventuras e utiliza simbologias e códigos de cavalaria e medievais que só fazem sentido dentro do mundo fundamentalista e arcaico que eles prometem construir. O califado do EI em uma área que abrange partes da Síria e do Iraque, ainda que não oficial, é um mundo de fantasia, com fronteiras flutuantes, possibilidades de conquistas e batalhas épicas, onde tudo pode acontecer, incluindo a ressurreição de glórias passadas. Mais de 20.000 combatentes do EI não são sírios e nem iraquianos; eles renunciaram suas nacionalidades e agora no califado têm a oportunidade de criarem uma nova identidade.

Os jihadistas são constantemente convencidos – e muitos já os veem dessa maneira – que são os verdadeiros muçulmanos, aqueles que por direito e destino vão ditar os rumos do futuro califado que um dia vai voltar a dominar o Oriente Médio, o Norte da África e se expandir para a Ásia e Europa. Sim, é uma utopia amalucada. Mas dentro da lógica do discurso jihadista, essa narrativa épica e essa utopia distorcida fazem sentido: os combatentes e simpatizantes do EI não ocupam uma área empobrecida e poeirenta entre dois Estados desintegrados, mas sim um novo califado islâmico – um ideal com uma história de mais um milênio.

Em muitos dos vídeos do EI aparecem montagens com jihadistas destruindo a fronteira entre a Síria e o Iraque. Os extremistas islâmicos – e eles não estão sozinhos nisso – enxergam o atual mapa do Oriente Médio como uma farsa, fruto de um acordo majoritariamente costurado pela Grã-Bretanha e França no final da I Guerra Mundial. Antes confinados em países alquebrados e disfuncionais, como Afeganistão, Iraque e Síria, os jihadistas agora têm a oportunidade de conquistar e construir sua própria nação. Esse desejo expansionista do jihadismo e a interpretação radical do Islã, compartilhada por muitos extremistas de diferentes países, fazem o movimento ganhar um caráter supranacional. Ahlam al-Nasr descreve as aspirações geopolíticas do EI com um vocabulário em que a intolerância se traveste de igualitarismo. Nessa torção dos sentidos, o que ela faz é poesia, sim – de uma espécie sinistra e insidiosa.

“A minha pátria é a terra da verdade e da união/ e os filhos do Islã são meus irmãos/ Eu não amo o árabe do Sul/ mais do que o árabe do Norte / Meus irmãos estão na Índia/ assim como também estão nos Balcãs/ Na Arábia e na Chechênia, em Ahwaz e Aqsa/ Se a Palestina clama, ou se o Afeganistão me chama/ Se o Kosovo é injustiçado, ou Assam e Pattani ameaçados/ Meu coração se estende a eles, desejando ajuda-los de bom grado/ Não existe qualquer diferença entre nós, este é o ensinamento do Islã/ Somos todos um só corpo, é o nosso credo em nossa mente sã/ Somos diferentes pela língua e pela cor/ Mas partilhamos o mesmo sangue e a mesma dor*”.

* Todos os poemas aqui reproduzidos foram traduções a partir do inglês. Procurou-se, na medida do possível, respeitar a característica principal dos originais em árabe: o uso de uma única rima ao longo de todo o poema, técnica de versificação conhecida como monorrima.

Vídeo: Poema “O Amante da Jihad” (legendas em inglês)