A petroleira americana que vai investir R$ 36 bi para dobrar produção de petróleo na Venezuela
Empresa fecha acordo para produzir 600.000 barris de petróleo por dia nos próximos cinco anos, parte das negociações entre Delcy e Trump
A empresa americana Chevron anunciou nesta quarta-feira, 2, um investimento de mais de US$ 7 bilhões (cerca de R$ 36 bilhões) para ampliar suas operações na Venezuela, afirmando que pretende mais que dobrar sua produção no país para cerca de 600 mil barris de petróleo por dia nos próximos cinco anos.
A decisão foi anunciada poucas horas antes de o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, concluir em Caracas um acordo com o governo da presidente interina Delcy Rodríguez que prevê a participação de Washington na exploração de 65 bilhões de barris de petróleo — o equivalente a 20% das reservas venezuelanas.
Segundo a empresa americana, os novos acordos incluem concessões na Faixa do Orinoco e mudanças nas condições legais, fiscais e comerciais para seus projetos no país. Uma das empresas conjuntas da Chevron, a Petroindependencia, na qual a companhia detém 49%, recebeu autorização para explorar dois campos de petróleo, Carabobo 1 e Carabobo 2 Sur-A.
“O portfólio reforça o fornecimento de petróleo e cria um valor de longo prazo diferenciado”, ressaltou Mike Wirth, CEO da Chevron, que também agradeceu Wright “por ajudar a facilitar as condições para um maior investimento e um crescimento mais robusto” das operações na Venezuela.
A Chevron é a única grande petroleira americana que manteve presença contínua na Venezuela ao longo das últimas décadas, mesmo durante o governo de Nicolás Maduro, capturado em Caracas durante uma operação militar americana em janeiro.
Acordo petrolífero
A Assembleia Nacional da Venezuela declarou apoio ao acordo petrolífero do país com o governo Donald Trump em uma votação realizada na terça-feira, 1º de setembro.
A proposta prevê uma parceria entre o governo americano, empresas privadas e o governo venezuelano para desenvolver 17 campos de petróleo. A administração Trump afirma que a iniciativa poderá atrair cerca de US$ 100 bilhões em investimentos e ampliar a produção venezuelana, hoje limitada pela deterioração da infraestrutura e pela falta de investimentos.
Projeto controverso
O acordo, no entanto, gerou dúvidas e críticas imediatas entre diversos da sociedade venezuelana. Delcy Rodríguez esclareceu no sábado que a Venezuela mantém a propriedade dos 17 “campos estratégicos” que os Estados Unidos controlarão, com o objetivo de produzir 1,5 milhão de barris por dia. A Venezuela, sob o plano atual, receberá US$ 19 (R$ 98,79) por barril vendido.
O modelo, no entanto, ainda é pouco transparente. A agência de notícias Reuters informou na segunda-feira que especialistas em energia e advogados questionam a legalidade e a execução do acordo e defendem que os contratos sejam divulgados. A negociação não passou por um processo competitivo e ocorreu paralelamente a uma reforma da legislação petrolífera venezuelana.
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As negociações geram preocupação também entre os apoiadores do chavismo, pois ocorrem em meio à intensa pressão de Washington sobre o governo de Rodríguez, que assumiu o poder após a captura e deposição de Nicolás Maduro.
Reformas
Sob pressão de Washington, Rodríguez implementou reformas nos últimos meses para abrir os setores de petróleo e mineração — indústrias antes zelosamente protegidas pelo Estado — ao capital privado, especialmente ao investimento estrangeiro. A produção de petróleo aumentou 29,8% de janeiro a julho, quando a Venezuela atingiu 1,2 milhão de barris por dia, mas permanece longe dos 3 milhões de barris por dia extraídos no final do século passado.
Um dos pontos controversos do anúncio, no entanto, é o fato de que grande parte dos campos oferecidos pelo governo venezuelano exige investimentos pesados antes de começar a produzir. Muitos são áreas ainda pouco desenvolvidas, sem infraestrutura adequada e, em alguns casos, sem fornecimento confiável de energia. Especialistas ouvidos pela Reuters questionam justamente quanto tempo será necessário para que o pacto produza volumes relevantes de petróleo.
Ainda assim, uma operação dessa magnitude poderia acelerar a tão esperada recuperação econômica da Venezuela, que ainda se recupera da brutal contração de 80% sofrida entre 2014 e 2021.
Essa é a esperança de muitos venezuelanos que mal sobrevivem com um salário mínimo mensal equivalente a US$ 0,16 (R$ 0,83) e bônus estatais que chegam a US$ 240 (R$ 1.247) por mês, bem longe do custo de US$ 730 (R$ 3.795) da cesta básica, segundo estimativas privadas.
Rodríguez, que descreveu o acordo como “histórico”, afirmou que espera que ele gere US$ 204 bilhões (R$ 1 trilhão) em receita tributária, mas não especificou os ganhos de outras fontes, como os royalties.







