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A pandemia expõe e agrava as desigualdades sociais no planeta

O coronavírus ceifou muito mais vidas e tirou muito mais empregos dos pobres e vulneráveis — um fosso visível inclusive nos países ricos

Por Ernesto Neves - Atualizado em 29 May 2020, 11h22 - Publicado em 29 May 2020, 06h00

Desde que o mundo é mundo, uns têm mais e outros têm menos, e a parcela dos que têm menos é infinitamente maior. O desnível fica mais ou menos exposto conforme a riqueza de cada país e vem à tona, com toda a sua carga de injustiça e sofrimento, cada vez que um desastre desaba em uma população e o grosso da conta recai justamente sobre sua fatia vulnerável. A pandemia de agora, planetária e simultânea, abriu uma janela inédita para a desigualdade social, defeito atávico da humanidade. O novo coronavírus ataca sem distinção, mas a imensa parte das pessoas infectadas será aquela que não tem recursos para fugir de aglomerações, receber salário trabalhando em casa e prover a despensa com compras on-­line. Uma parcela dos que se contaminaram vai morrer, mas, na lista de fatalidades, a maioria será gente que só chegou a uma UTI, quando chegou, em algum precário hospital da rede pública. A paralisação das atividades atingiu as empresas em geral, mas a enorme massa de desempregados é composta principalmente de mão de obra menos qualificada e mais mal remunerada. “A desigualdade torna a sociedade ainda mais despreparada para lidar tanto com a pandemia quanto com a recessão que ela desencadeou”, diz o Nobel de economia Amartya Sen, professor da Universidade Harvard.

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Além de expor e agravar a desigualdade, a crise que mergulhou 2020 em um mundo novo deixou mais claro do que nunca que o fosso também é fundo nos países ricos. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, morrem quatro vezes mais negros do que brancos de Covid-19 não por causa de fatores genéticos, mas devido às piores condições de vida (veja no quadro abaixo). Entre a população britânica, as fatalidades nas comunidades de imigrantes asiáticos são o dobro da média geral. Os municípios americanos de maioria negra concentram 58% das mortes no país. Dois terços dos hispânicos, como são chamados os descendentes de latino-americanos, ou estão desempregados, ou tiveram a renda drasticamente reduzida. Parte dos 150 000 sem-teto da Califórnia foi acomodada em avenidas com lugares demarcados no chão. Em Paris, o subúrbio de Seine-Saint-Denis, onde um em cada três moradores vive abaixo da linha de pobreza, registrou 62% mais mortes do que o normal para o mês de março. A causa, evidentemente, é o novo coronavírus — lá se encontra o menor número de médicos per capita da França.

Na América Latina, onde ficam oito dos vinte países mais desiguais do mundo, e, nesse time, o Brasil está sempre no topo, a disseminação do vírus se dá em conjuntura por si só explosiva: enquanto 3% da população está na faixa de alta renda, três quartos se situam nas classes baixa ou média baixa. A concentração de recursos se reflete no mercado de trabalho, que tem 60% de sua força na informalidade — um gigantesco contingente que se viu sem amparo quando a pandemia parou as economias. A OCDE, organização dos países avançados, calcula que 22 milhões de latino-americanos mergulhem na miséria se confirmadas as estimativas de queda de 5% na renda média da região. A privação, é claro, se estende a outros cantos do globo assolados pela desigualdade. Na África do Sul, 9 milhões de crianças estão sem alimentação regular desde o fechamento das escolas — uma questão que permeia os países menos desenvolvidos, mas que a pandemia, sempre ela, também fez aflorar nos Estados Unidos. Isso mesmo: na nação mais rica do mundo, 30 milhões de crianças deixaram de se beneficiar de um programa de almoço na escola de graça ou a baixo custo.

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FOME DOBRADA - Fila para pegar alimentos na África do Sul: a crise pode levar milhões à pobreza extrema Siphiwe Sibeko/Reuters

Estudo da ONU em parceria com a King’s College, de Londres, estima que a recessão trazida pelo novo coronavírus possa anular trinta anos de queda contínua da pobreza no mundo, ao empurrar 500 milhões de pessoas para a penúria. “É um tsunami de miséria”, alerta o economista Andy Sumner, coautor da pesquisa. Outro levantamento da ONU calcula em 265 milhões o número de pessoas que possam vir a passar fome em futuro próximo, mais do que o dobro de 2019, o saudoso ano em que ainda se achava que não ter nada para comer caminhava para ser obstáculo vencido. Sempre por culpa dos efeitos colaterais da Covid-19, o Banco Mundial prevê que o índice de Gini, usado para medir a desigualdade social, suba até 1% em todo o planeta, em um movimento sincronizado sem precedentes capaz de afundar entre 40 milhões e 60 milhões de pessoas na extrema pobreza. “O vírus é perigoso para ricos e pobres, mas o choque econômico que ele produz é muito pior na base da pirâmide”, diz Torsten Bell, da Resolution Foundation, entidade voltada para políticas públicas sediada em Londres.

A maioria dos especialistas considera que existem recursos à mão para reduzir os impactos sociais da pandemia e, por tabela, a desigualdade em geral — um ponto positivo que, insistem, não pode ser desperdiçado. “Esta crise ilustra tanto a violência da desigualdade quanto a necessidade de um sistema econômico diferente”, diz o francês Thomas Piketty, autor de O Capital no Século XXI, que defende um novo sistema tributário que taxe os mais ricos e use os recursos para sustentar uma rede de proteção social sólida, capaz de prevenir o caos em tempos adversos. Um plano de crescimento conjunto da França e Alemanha tem como ponta de lança o desenvolvimento sustentável, através de um projeto de 500 bilhões de euros financiado pela taxação da emissão de gases do efeito estufa para incentivar tecnologias verdes.

NA MIRA DO VÍRUS - Londres: a Covid-19 mata quatro vezes mais negros Kirsty Wigglesworth/AP/.

Outra providência que ganha força no mundo é a renda mínima básica garantida pelo governo a todo e qualquer cidadão. A distribuição de dinheiro e alimentos nesses moldes já está sendo feita em 108 países, em caráter temporário. “Em circunstâncias tão adversas, a renda básica se mostrou crucial”, diz Lauren Graham, da Universidade de Joanesburgo. Bertrand Badie, professor de política social da Universidade Sciences Po, em Paris, recomenda a retomada urgente “da regulação do mercado, do multilateralismo e da solidariedade, três eixos abandonados do desenvolvimento”. As ideias estão aí, prontas para ser enlaçadas no esforço para sair do fundo do poço — e, se possível, emergir em um mundo melhor e um pouco mais justo.

Publicado em VEJA de 3 de junho de 2020, edição nº 2689

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