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À moda stalinista, tio de Kim Jong-un “desaparece” de imagens oficiais

Filme-propaganda é retransmitido por TV estatal sem as imagens de Jang Song-Thaek

A fúria do ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, contra seu outrora influente tio Jang Song-Thaek não se limita à retirada dele do poder e à denunciá-lo publicamente. À moda stalinista, Jang começou a desaparecer dos registros do Estado comunista. Imagens divulgadas nesta segunda-feira pelo Ministério da Unificação da Coreia do Sul mostram que Jang, de 67 anos, que era considerado um dos homens-chave do regime norte-coreano, teve sua figura apagada – e de maneira pouco sutil – de O Grande Camarada, um filme-exaltação em homenagem ao ditador do país.

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Segundo o jornal britânico The Guardian, o programa foi ao ar pela primeira vez em 7 de outubro, transmitido pela estatal KCTV. Nele, Jang Song-Thaek aparecia diversas vezes ao lado do sobrinho em visita a fábricas do país, que a família Kim domina há mais de 60 anos. Em nova versão da propaganda, difundida no último sábado, não se vê mais Jang: as imagens em que o tio aparecia foram editadas.

​Os truques não são nenhuma novidade nos regimes comunistas, para o qual a desgraça ou a eliminação física não bastam. O ditador Josef Stálin fez uso extenso de técnicas similares para modificar fotografias históricas onde apareciam rivais, como Leon Trotsky, ou antigos aliados, como ex-chefão da NKVD (antecessora da KGB) Nikolai Yezhov. A técnica de fraudar o passado acabou sendo copiada por regimes satélites da União Soviética, conforme os autocratas comunistas devoravam uns aos outros, e inspirou uma das narrativas de O Livro do Riso e do Esquecimento, do escritor tcheco Milan Kundera.

A desgraça de Jang Song-Thaek só foi anunciada publicamente pela Coreia do Norte nesta segunda-feira, apesar de já ter sido relatada na semana passada pelos serviços de inteligência e pela imprensa sul-coreana. Jang foi arrastado de seu assento por dois policiais, durante uma reunião. Para completar, a TV estatal do país o acusou publicamente de ser um “mulherengo afetado pelo modo de vida capitalista”.