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A maldição da ‘erradologia’

Adivinhem só: não existem soluções fáceis para resolver crises

Podemos sair da crise? Essa pergunta é feita com tanta regularidade que todos os brasileiros vivos já a ouviram em algum momento — a maioria, em vários momentos. Nossos dois vizinhos mais complicados, Argentina e Venezuela, ajudam bastante a entender as encrencas. Em matéria de território grande e administrável, riqueza de recursos naturais, inexistência de ameaças geopolíticas e bom nível educacional, no caso dos argentinos, ambos tinham tudo para crescer e frutificar. O exemplo venezuelano é e continuará a ser objeto de estudos, talvez até de uma nova disciplina, a “erradologia”, dedicada a decifrar como as classes dirigentes conseguem se enfiar numa armadilha autodestrutiva em que fazem tudo errado e, confrontadas com a ruína iminente, cometem erros maiores ainda. O desastre é tão estrondoso que pesou na última eleição no Brasil, um país normalmente infenso a fatores externos, e deixou uma lição: todo e qualquer partido ou líder, geralmente da família populista caudilhista, que falar em refundar a nação deverá ser encaminhado para o isolamento e medicado.

O que nos leva à Argentina, onde a versão local dessa corrente, chamada cristinismo (de Cristina Kirchner), está não só em processo de reenergização como com uma possibilidade bem concreta de recuperar o poder em outubro próximo. Com um presidente, Mauricio Macri, que conhece o manual básico sobre os perigos da “erradologia”, está tudo desabando em matéria de inflação, recessão e desvalorização. Por quê?

“Dois tipos de escolha me parecem cruciais para empinar o resultado em direção ao sucesso ou ao fracasso: planejamento de longo prazo e disposição para repensar valores básicos”, escreveu Jared Diamond, o homem que pode ser considerado o melhor professor de geografia do mundo — com as qualidades e os defeitos da categoria. O autor do clássico Armas, Germes e Aço está de volta ao mercado de explicação da história humana com Upheaval: Turning Points for Nations in Crisis. Diamond usa os processos terapêuticos empregados para tratar pessoas com grandes traumas psicológicos como modelo para “curar” países convulsionados por crises. Em alguns momentos, parece forçação de barra, inclusive pela disparidade entre os seis países em foco, escolhidos porque ele os conhece e fala o idioma de cinco deles: Ale­manha, Japão, Chi­le, Finlândia, Austrália e Indonésia.

Fisiologista, ornitólogo, ecólogo, pianista e celebridade intelectual, Diamond propõe passos nada fáceis aos encalhados: “Reconhecer que um país está em crise, aceitar a responsabilidade pela mudança em vez de recair na vitimização, identificar as características nacionais que precisam ser mudadas para não ter um sentimento avassalador de que nada no país funciona direito, distinguir outras nações a quem pedir ajuda, identificar os modelos usados por outros países para enfrentar problemas similares aos seus e reconhecer que a primeira solução pode não funcionar e outras serão necessárias, refletir sobre quais valores básicos continuam a ser apropriados e quais não o são mais, e praticar uma autoavaliação honesta”.

Num passado recente, alguns acrescentariam: um soldado e um cabo. Nem essa piada nos resta mais.

Publicado em VEJA de 22 de maio de 2019, edição nº 2635

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