Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia

A Índia das ‘meninas perdidas’

Por Da Redação 11 jun 2012, 10h08

Diego Agúndez.

Bahrana (Índia), 11 jun (EFE).- Bahrana seria uma pacata e pequena cidade, como tantas no norte da Índia, se não fosse pela disparidade de gêneros mais grave do país: segundo o último censo, apenas 27% dos recém-nascidos são meninas.

Na Índia, atualmente, nascem somente 917 meninas para cada mil meninos, e especialistas afirmam que o desequilíbrio se deve à prática ilegal de abortos seletivos, mas também a questões de planejamento familiar e até a teorias raciais de base científica duvidosa.

Na região de Haryana, vizinha a Nova Délhi e onde está Bahrana, ainda predomina uma sociedade profundamente patriarcal com destacada predileção pelos meninos – que perpetuam a linhagem, cuidam dos pais na velhice e garantem sua renda.

Assim, pouco surpreendeu o fato de que o distrito de Jhajjar, povoado agrícola no mesmo estado, tenha aparecido em um dos últimos lugares no ranking do país quando saíram os dados do censo mais recente (2011), com uma proporção de 774 meninas nascidas para cada mil meninos.

Em Bahrana, a situação é ainda pior: com 378 meninas nascidas para cada mil homens, não há lugar onde o perigo do desequilíbrio entre os sexos seja mais iminente, chegando ao ponto de os homens começarem a ‘importar’ mulheres em idade de se casar.

As meninas vêm de outras regiões indianas, como Manipur ou Kerala – onde há maior equilíbrio entre os sexos, porém uma situação econômica pior -, e chegam a esses povos sem conhecer seus futuros maridos nem as famílias com as quais conviverão.

‘É preciso repetir esse censo’, disse à Agência Efe Subhash Malik, diretor do Instituto Indiano de Estudos Avançados, edifício com um grande pátio e salas de aula escuras para aliviar o calor de maio.

Na escola, apenas o curso pré-universitário é misto, e é surpreendente constatar que há 25 meninas e somente 10 meninos, até que o diretor esclarece: ‘as famílias enviam seus filhos homens à escola particular, mas não querem investir na educação delas’.

‘Pensa-se que as meninas só têm responsabilidades. É preciso casá-las e pagar um dote, irão viver com o marido. O filho aumenta o status social’, afirmou Malik.

Continua após a publicidade

Como em outras sociedades, em Haryana a concepção da família leva os casais à ambição de ter filhos homens, mas apenas se o sexo do primogênito for feminino, eles tentam ter o segundo para seguir a tradição.

A mentalidade patriarcal atribui, além disso, o nascimento de meninos a uma ‘vantagem genética’ do pai: ‘se sua dieta é boa e você não é de família pobre, é provável que seu gene Y seja mais forte que o X’, contou à Efe o cirurgião chefe do distrito, Bhaskar Singh.

O médico reconhece que, paralelamente às questões de planejamento familiar, os abortos seletivos têm peso nos desequilíbrios, qualificados no ano passado pelo primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, como uma ‘vergonha nacional’.

Segundo um estudo do Centro Canadense de Pesquisa Global para a Saúde, nas últimas três décadas ocorreram no país 12 milhões de abortos seletivos de fetos do sexo feminino, metade deles nos últimos 10 anos.

Embora a legislação do país proíba os médicos de revelar o sexo dos bebês aos pais, a fim de evitar abortos seletivos, o problema se agravou neste milênio, com a difusão das técnicas para conhecer de antemão o gênero.

‘Para saber o sexo do feto basta fazer a ultrassonografia em um furgão’, disse à Efe o chefe da administração de Jhajjar, Ajit Joshi. ‘É comum que a grávida vá com seus pais, e é difícil saber se praticará depois um aborto seletivo’, acrescentou.

Segundo Joshi, que implementou um novo sistema de monitoração das ecografias por vídeo, em Jhajjar há cerca de 23 mil nascimentos anuais, mas faltam dados de entre 1 mil e 1.200 de grávidas que provavelmente ‘teriam abortado’.

‘Nossa sociedade considera as meninas uma carga’, conclui o funcionário, que estima que levará pelo menos ’15 anos’ para mudar os índices atuais de seu distrito.

O diretor do instituto de Barhana permite o testemunho de uma aluna, Rachna Ahlawat, de 16 anos, que deseja estudar história ou ciências políticas em uma cidade próxima.

‘Não acho – conta – que haja menos meninas que meninos. Mas sim, há uma mentalidade estreita. Não querem enviar as meninas para estudar fora porque acham que iremos mal’. EFE

Continua após a publicidade
Publicidade