A estrada dos sonhos: nos 100 anos da Rota 66, VEJA percorreu um trecho da mítica rodovia
Ela se tornou um símbolo da vida americana e cenário celebrado na cultura pop
Dirigir pela Rota 66 não é a opção mais inteligente para quem quer chegar ao destino com rapidez e segurança. Estreita, antiga e entremeada de cidadezinhas, a estrada é obsoleta se comparada às rodovias modernas que perfazem o mesmo caminho que liga Chicago, no Meio-Oeste americano, a Santa Monica, na costa do Oceano Pacífico. Os 3 940 quilômetros da velha Rota 66 são a escolha óbvia, porém, se o objetivo é conhecer a alma dos Estados Unidos. Na comemoração dos 100 anos da rodovia mais cantada em verso e prosa no planeta (composta em 1946, a música Route 66 ajudou a popularizar a via graças a versões de roqueiros como Chuck Berry e Rolling Stones), VEJA percorreu os 550 quilômetros do último trecho da tortuosa pista, entre o Deserto de Mojave e Los Angeles (leia o quadro). Uma viagem no tempo e por paisagens desérticas que ajuda a entender como se construiu a mística em torno dela.
A sensação de percorrê-la é a de estar num filme do passado. Os aplicativos de navegação simplesmente não funcionam. Só se descobre que a estrada está interrompida, impedindo a visita a três vilarejos-fantasma, quando se depara, debaixo de um sol de 45 graus, com a placa de “rodovia fechada”. Resta dar meia-volta e encarar a atemporal visão de areia, pedras e cactos ao longo do asfalto. Pode-se dirigir nela por mais de uma hora sem cruzar ninguém. De quando em vez, surge um lugarejo anunciando motéis baratos e diners, em neon dos anos 1930. “Você cruza o país, passa frio e calor, vê florestas e desertos, vilas e metrópoles sempre em busca de um sonho — e não tem nada mais americano que isso”, diz Brendan O’Brien, dono do Museu da Rota 66 em Victorville, Califórnia.
Americaníssima também é a história de origem dessa estrada que ganhou vida própria na cultura pop (veja o quadro). A Rota 66 não nasceu de um projeto de engenharia, nem de iniciativa do governo, mas de uma jogada comercial. Em 1926, o país vivia a explosão do automóvel e Washington decidiu criar um sistema nacional de rodovias numeradas. Foi então que o corretor de imóveis e empresário Cyrus Avery, de Tulsa, Oklahoma, viu a chance de canalizar o tráfego de viajantes para seu próprio quintal, em detrimento de metrópoles como Kansas City ou Denver.
Traçou com uma caneta uma linha no mapa ligando inúmeras ruas, pequenas rodovias e trilhas sem asfalto ou sinalização e escolheu o sonoro número 66 como marca. Mandou a sugestão ao Escritório de Vias Públicas, por telegrama, em abril de 1926. Proposta aceita, em novembro daquele ano foi inaugurada a Main Street of America, apelido da estrada que literalmente funcionava como avenida central de dezenas de cidades no coração do país.
O sucesso foi tão retumbante que acabou por selar sua sentença. Com o tempo, a Rota 66 foi quase totalmente asfaltada, mas permaneceu essencialmente uma via com uma só pista para cada lado — com algumas pontes e mergulhões onde só passa um carro por vez — e traçado sinuoso para aproveitar as trilhas de uma era pré-automóvel. Não demorou a se provar insuficiente. Inspirado pelas autobahns alemãs que conhecera na II Guerra, o presidente Dwight Eisenhower assinou em 1956 a lei que criava o sistema de rodovias interestaduais. Largas, retas, projetadas para contornar as cidades sem a interrupção de trânsito local, as autoestradas foram aos poucos substituindo a icônica rodovia, ao longo de três décadas.
A mudança teve impacto dramático sobre a Rota 66. Motéis fecharam, restaurantes minguaram, cidades inteiras perderam a razão de existir. Em 1984, Williams, no Arizona, tornou-se a última cidade a ser contornada; no ano seguinte, a rota foi desativada. As placas foram retiradas, e a estrada-mãe, como foi batizada pelo escritor John Steinbeck em seu clássico As Vinhas da Ira, sumiu dos mapas oficiais dos Estados Unidos.
Mas um símbolo não desaparece só porque um governo deixa de reconhecê-lo. Em 1987, o barbeiro Angel Delgadillo, de um vilarejo de 500 habitantes dependente da estrada, criou uma associação para defender a Rota 66. Hoje, 85% do traçado original ainda pode ser percorrido. O Museu da Rota 66 registra que metade de seus visitantes vem da Europa, do Japão — e do Brasil. Há, ainda, um tanto de orgulho pátrio com a via: nada menos do que 41% dos adultos dos Estados Unidos têm o desejo de rodar pela Rota 66 no ano do centenário. O sonho americano sobrevive, entre curvas e percalços, na mítica estrada.
Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008









