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A estrada dos sonhos: nos 100 anos da Rota 66, VEJA percorreu um trecho da mítica rodovia

Ela se tornou um símbolo da vida americana e cenário celebrado na cultura pop

Por Felipe Carneiro, de Los Angeles 14 ago 2026, 06h00 | Atualizado em 14 ago 2026, 10h46
A estrada dos sonhos: nos 100 anos da Rota 66, VEJA percorreu um trecho da mítica rodovia Priorizar nos meus resultados Google

Dirigir pela Rota 66 não é a opção mais inteligente para quem quer chegar ao destino com rapidez e segurança. Estreita, antiga e entremeada de cidadezinhas, a estrada é obsoleta se comparada às rodovias modernas que perfazem o mesmo caminho que liga Chicago, no Meio-­Oeste americano, a Santa Monica, na costa do Oceano Pacífico. Os 3 940 quilômetros da velha Rota 66 são a escolha óbvia, porém, se o objetivo é conhecer a alma dos Estados Unidos. Na comemoração dos 100 anos da rodovia mais cantada em verso e prosa no planeta (composta em 1946, a música Route 66 ajudou a popularizar a via graças a versões de roqueiros como Chuck Berry e Rolling Stones), VEJA percorreu os 550 quilômetros do último trecho da tortuosa pista, entre o Deserto de Mojave e Los Angeles (leia o quadro). Uma viagem no tempo e por paisagens desérticas que ajuda a entender como se construiu a mística em torno dela.

A sensação de percorrê-la é a de estar num filme do passado. Os aplicativos de navegação simplesmente não funcionam. Só se descobre que a estrada está interrompida, impedindo a visita a três vilarejos-fantasma, quando se depara, debaixo de um sol de 45 graus, com a placa de “rodovia fechada”. Resta dar meia-volta e encarar a atemporal visão de areia, pedras e cactos ao longo do asfalto. Pode-se dirigir nela por mais de uma hora sem cruzar ninguém. De quando em vez, surge um lugarejo anunciando motéis baratos e diners, em neon dos anos 1930. “Você cruza o país, passa frio e calor, vê florestas e desertos, vilas e metrópoles sempre em busca de um sonho — e não tem nada mais americano que isso”, diz Brendan O’Brien, dono do Museu da Rota 66 em Victorville, Califórnia.

Infográfico da Rota 66 nos EUA, com mapa amarelo destacando o trajeto e cinco pontos numerados. Imagens mostram: placa Historic Route 66 Begin em Chicago; estátua de homem dirigindo carro em Tulsa; carros coloridos enterrados no Cadillac Ranch em Amarillo; letreiro Historic Route 66 Motel ao pôr do sol em Seligman; e placa Santa Monica 66 End of the Trail no píer de Santa Monica, com pessoas e o oceano

Americaníssima também é a história de origem dessa estrada que ganhou vida própria na cultura pop (veja o quadro). A Rota 66 não nasceu de um projeto de engenharia, nem de iniciativa do governo, mas de uma jogada comercial. Em 1926, o país vivia a explosão do automóvel e Washington decidiu criar um sistema nacional de rodovias numeradas. Foi então que o corretor de imóveis e empresário Cyrus Avery, de Tulsa, Oklahoma, viu a chance de canalizar o tráfego de viajantes para seu próprio quintal, em detrimento de metrópoles como Kansas City ou Denver.

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Traçou com uma caneta uma linha no mapa ligando inúmeras ruas, pequenas rodovias e trilhas sem asfalto ou sinalização e escolheu o sonoro número 66 como marca. Mandou a sugestão ao Escritório de Vias Públicas, por telegrama, em abril de 1926. Proposta aceita, em novembro daquele ano foi inaugurada a Main Street of America, apelido da estrada que literalmente funcionava como avenida central de dezenas de cidades no coração do país.

CAMINHO MÍTICO - Placa de motel: lugarejos só existem em função da via
CAMINHO MÍTICO - Placa de motel: lugarejos só existem em função da via (Felipe Carneiro/.)
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O sucesso foi tão retumbante que acabou por selar sua sentença. Com o tempo, a Rota 66 foi quase totalmente asfaltada, mas permaneceu essencialmente uma via com uma só pista para cada lado — com algumas pontes e mergulhões onde só passa um carro por vez — e traçado sinuoso para aproveitar as trilhas de uma era pré-­automóvel. Não demorou a se provar insuficiente. Inspirado pelas autobahns alemãs que conhecera na II Guerra, o presidente Dwight Eisenhower assinou em 1956 a lei que criava o sistema de rodovias interestaduais. Largas, retas, projetadas para contornar as cidades sem a interrupção de trânsito local, as autoestradas foram aos poucos substituindo a icônica rodovia, ao longo de três décadas.

A mudança teve impacto dramático sobre a Rota 66. Motéis fecharam, restaurantes minguaram, cidades inteiras perderam a razão de existir. Em 1984, Williams, no Arizona, tornou-se a última cidade a ser contornada; no ano seguinte, a rota foi desativada. As placas foram retiradas, e a estrada-mãe, como foi batizada pelo escritor John Steinbeck em seu clássico As Vinhas da Ira, sumiu dos mapas oficiais dos Estados Unidos.

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Reportagem sobre a Rota 66 na cultura pop, com fotos de Woody Guthrie tocando violão, John Steinbeck pensativo e motociclistas em estrada desértica

Mas um símbolo não desaparece só porque um governo deixa de reconhecê-lo. Em 1987, o barbeiro Angel Delgadillo, de um vilarejo de 500 habitantes dependente da estrada, criou uma associação para defender a Rota 66. Hoje, 85% do traçado original ainda pode ser percorrido. O Museu da Rota 66 registra que metade de seus visitantes vem da Europa, do Japão — e do Brasil. Há, ainda, um tanto de orgulho pátrio com a via: nada menos do que 41% dos adultos dos Estados Unidos têm o desejo de rodar pela Rota 66 no ano do centenário. O sonho americano sobrevive, entre curvas e percalços, na mítica estrada.

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Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008

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