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A contrarrevolução preventiva da Rússia

Em artigo, professor do Instituto Universitário Europeu fala sobre os danos da ‘ditadura primitiva’ de Vladimir Putin

Por Alexander Etkind 28 dez 2014, 15h15

Em 2014, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, conduziu o seu país de volta à ditadura. Do Kremlin à Crimeia, os cidadãos russos agora precisam lidar com a ganância, o medo e a hipocrisia de um ditador que, ao longo deste ano, eliminou qualquer dúvida a respeito de sua autoridade.

Em muitos aspectos, a ditadura de Putin é primitiva. Diferentemente do que acontecia na era soviética, é alicerçada em emoções fundamentais, e não em motivações ideológicas. Embora Putin tenha tentado instilar o desejo de um império na população, anexando a Crimeia e intervindo no leste da Ucrânia, essas ações constituem pouco mais do que um roubo escancarado, perpetuado por homens mascarados na calada da noite; eles têm pouca chance de serem lembrados com glória.

Muitos historiadores culturais discordam. Insistem que o regime de Putin representa uma espécie de continuidade das tradições culturais russas. Acreditam que a Rússia herdou um DNA cultural que transcende revoluções, como se uma espécie de gene maligno estivesse impulsionando o atual ataque imperialista do Kremlin à Ucrânia (e, se as ameaças de Putin são dignas de crédito, o Cazaquistão logo pode ser o próximo). Outros acreditam que esta continuidade se dá através da identidade nacional. Argumentam que a natureza particular da Rússia leva os russos a apoiarem Putin, assim como eles supostamente apoiaram Stalin e os Romanov.

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Tais argumentos não resistem a uma análise mais profunda. Impérios vêm e vão, assim como suas tradições. Para cada czar ou comissário expansionista, de Catarina II a Putin, existiram líderes prontos para recuar. Alexandre II vendeu o Alasca; Lênin se retirou da Ucrânia em troca da paz com a Alemanha; e Gorbachev se retirou da Europa central em uma tentativa de acabar com a Guerra Fria.

A crença de que os russos desejam um líder autoritário também é descabida. É claro, com o ano chegando ao fim, os índices de aprovação de Putin permanecem altos (embora sejam tão confiáveis como indicadores quanto as projeções orçamentárias, os pronunciamentos públicos e o fornecimento de gás do país). Mas, mesmo que as pesquisas estejam corretas, a sua popularidade é altamente irrelevante; ditadores não governam através de um contrato social, nem a sua posição ou legitimidade derivam do seu apelo popular.

Essa distinção entre povo e Estado definiu por muito tempo as políticas ocidentais em relação à Rússia. Em seu longo telegrama de 1946, que marcou o início da Guerra Fria, o diplomata americano George F. Kennan entendeu que a linha do Partido Comunista não representava “a visão natural do povo russo”.

De qualquer forma, embora Putin seja retratado como um líder poderoso, não se pode dizer que ele esteja seguindo o último homem forte da Rússia, Stalin, em qualquer aspecto significativo. Sob Stalin, o autossacrifício entusiasmado e a racionalidade científica eram promovidos como ideais. O desenvolvimento industrial e as vitórias militares, embora acontecessem a um intolerável custo de vidas humanas, eram reais. O regime dependia de julgamentos exemplares e trabalho nos gulag, e usava de uma violência sem precedentes para consolidar o poder de burocratas acéticos e dogmáticos. A corrupção era punida.

Hoje a corrupção é a norma, e os julgamentos exemplares, embora ainda existam, não acontecem na escala industrial de Stalin. Putin e seu círculo estão preocupados, principalmente, com a sobrevivência e o enriquecimento. Ele só temeu os levantes na Ucrânia, em 2014, como uma “praga revolucionária” porque podiam eclodir também nas praças Moscou. O desejo de Putin de evitar tais consequências explica a reação brutal do Kremlin.

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O regime de Putin é apenas uma versão russa do clientelismo, com riqueza e oportunidades econômicas distribuídas com base na fidelidade política. Os crimes do sistema são evidentes há anos, e é trágico que nenhum poder internacional tenha conseguido puni-los. Os ocidentais que pensam de outra forma e concordaram com as ações da Rússia na Ucrânia o fazem por nenhuma outra razão que não a sua própria ganância, medo ou autoenganação.

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De fato, depois de sugar recursos e dinheiro da Rússia e dos seus cidadãos, Putin e seus obedientes oligarcas puderam investir seus ganhos ilícitos no setor imobiliário e em bancos americanos e europeus, pagando gordas taxas que impulsionaram o aumento dos lucros das empresas ocidentais.

Os lucros ocidentais, entretanto, continuam a causar enorme desconforto para o russo médio. Depois de quase um quarto de século da chamada política econômica “liberal”, tudo, de mercadorias importadas a empréstimos bancários, ainda é muito mais caro do que no Ocidente, e sanções recentes apenas pioraram a situação.

A crise na Ucrânia mostrou como a duradoura colaboração entre a Rússia e o Ocidente prejudicou princípios importantes da ordem global moderna. Todo mundo sabia sobre o subinvestimento, a superexploração e a ilegalidade que caracterizam a Rússia de Putin, mas nenhum poder internacional estava interessado em discuti-los, que dirá combatê-los. Apenas quando o Estado russo decidiu, em 2014, elevar a cleptocracia a um princípio de política externa é que o sistema de governo de Putin se tornou uma preocupação internacional.

A Rússia teve mais de duas décadas para se reconfigurar como um país que beneficiasse o seu povo, a Europa e o mundo em geral. Em vez disso, permanece presa em um submundo pós-soviético, graças aos esforços concertados por uma elite que tem um profundo interesse em prevenir a emergência de um país produtivo e cumpridor das leis. Isso não era inevitável, embora seja provável que continue em 2015.

Alexander Etkind, professor de história no Instituto Universitário Europeu, em Florença, já lecionou Literatura Russa e História Cultural no King’s College, em Cambridge.

(Tradução: Roseli Honório)

© Project Syndicate 2014

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