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A chance da oposição contra Chávez

Partidos opositores se uniram em torno de um candidato único, que levou as pessoas às ruas e aparece nas pesquisas empatado com o ditador

Hugo Chávez enfrenta neste domingo a disputa mais difícil contra a oposição desde que chegou ao poder, há 14 anos. Os venezuelanos vão às urnas decidir se o coronel, fatigado pela luta contra o câncer, continua na presidência ou se é hora de a oposição assumir, guiada pelo candidato Henrique Capriles. Apesar de a maioria das pesquisas apontar o atual mandatário como favorito, há levantamentos recentes que mostram a aproximação de Capriles, empatado tecnicamente com Chávez. E duas pesquisas chegaram a colocar Capriles à frente.

Capriles foi eleito candidato da oposição após uma ampla consulta popular realizada em fevereiro, na qual obteve mais de 1,9 milhão de votos, 64% do total. Saiu da disputa com o apoio de mais de 20 partidos. Ele agora precisa contar com a mobilização popular – o voto não é obrigatório na Venezuela – para superar a máquina chavista que impôs toda sorte de obstáculos à sua campanha. Em VEJA de 22 de fevereiro deste ano, Capriles alertou para a necessidade de fiscalizar a votação deste domingo: “As eleições são decididas nas urnas. Se não fiscalizarmos os locais de votação, perderemos. Temos de nos organizar para converter essa força demonstrada nas primárias em um esforço para supervisionar os votos em todas as seções eleitorais”.

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Logo depois da vitória nas primárias, Capriles, governador do estado de Miranda, onde se situa a capital, Caracas, foi punido com um corte no orçamento do estado. O governo nacional também tirou de sua administração todos os hospitais e postos de sáude. Ao longo da campanha, Chávez lançou mão do expediente antidemocrático de usar a cadeia nacional para interromper transmissões de atos políticos de Capriles pelas emissoras. E chegou até mesmo a acusar a oposição de fazer bruxaria contra sua campanha eleitoral.

O último comício de Chávez antes das eleições, na quinta-feira, contou com uma multidão de funcionários públicos obrigados a participar do ato político em Caracas. Fato destacado pelo opositor em comício: “A partir do próximo domingo, ninguém aqui vai precisar colocar a camisa vermelha (cor do chavismo) para poder exercer seus direitos. Esse tempo do lenço vermelho ou da obrigação de comparecer à atividade política será parte da história”, disse Capriles, que também conseguiu levar multidões às ruas. Apelidado de “O Magro”, o quarentão solteiro, corredor e jogador de basquete, percorreu o país várias vezes em uma campanha enérgica.

Chávez, de 58 anos, teve sua campanha comprometida pelo tratamento contra o câncer, deixando de ser onipresente no cenário público. As informações sobre a doença foram desencontradas desde o início – nem mesmo a localização exata dos tumores foi revelada. Os próprios comentários de Chávez oscilaram muito: em um momento, ele se dizia “curado”, no outro, alertava para uma queda de ritmo, e depois, prometia voltar “com mais energia”. Nesta semana, disse “nem se lembrar” do câncer. O certo é que os venezuelanos ainda o cercam e tentam pedir favores pessoais, mas paira no ar a incerteza sobre a sua saúde em um novo mandato.

Esconder a gravidade da doença foi uma estratégia de campanha para Chávez, minimizada por Capriles. Em VEJA de 25 de julho deste ano, o opositor disse que o debate é outro: “Não acho que a enfermidade possa ajudar ou atrapalhar. As pessoas estão cansadas de sentir medo e de ter de falar o que não pensam apenas para agradar ao governo e não perder o pouco que ganham do estado. A maioria quer mudar o governo e viver em paz. Estou convencido de que a partir de 8 de outubro, após a votação, haverá uma nova realidade política no país.”

Sinais de que a oposição se reforçava contra o regime chavista puderam ser vistos já em 2007, quando a população impôs uma derrota ao governo em um plebiscito ao preferir a democracia a uma Constituição de caráter totalitário. E novamente nas eleições parlamentares de 2010, quando o espaço dos oposicionistas aumentou.

Promessas – A promessa do caudilho é continuar seus programas sociais em uma lógica simples: usar o dinheiro das vendas de petróleo para construir conjuntos habitacionais populares e fornecer assistência médica e escolarização. Já Capriles aposta na continuidade das políticas sociais associadas a uma ‘gestão eficiente’. O oposicionista já chegou a evocar o ‘modelo Lula’ para atrair o voto de setores populares, mas substituiu a estratégia por “modelo brasileiro” originado na administração de Fernando Henrique Cardoso depois que Luís Inácio Lula da Silva mandou uma mensagem de apoio a Chávez.

O pior problema para os venezuelanos, contudo, não é o controle contraditório da economia, o desrespeito à liberdade expressão nem a negligência ao investimento presentes no governo chavista, e sim a alta taxa de violência que assombra o país. Somente em 2011, mais de 17.000 pessoas foram assassinadas na Venezuela, segundo dados da ONG Observatório Venezuelano de Violência.

Cenários – O ex-embaixador americano na Venezuela, Patrick Duddy, prevê, em uma análise publicada no Council of Foreign Affairs, a ocorrência de conflitos violentos nas ruas entre apoiadores do governo e da oposição em três cenários diferentes: se Chávez perder, se ele morrer inesperadamente ou se a sua vitória parecer fraudada.

A probabilidade de um golpe também existe, principalmente se os resultados seguirem o que preveem as pesquisas de opinião: uma vitória apertada de qualquer um dos candidatos. Com ares de blefe, Chávez prometeu respeitar o resultado das eleições, mas há setores chavistas das Forças Armadas que são mais leais ao presidente do que à instituição governamental e podem não aceitar uma derrota pacificamente.

Uma vitória inquestionável de Capriles provocará um imenso racha no ‘movimento bolivariano’, e o PSUV sairá fatalmente enfraquecido, comprometendo a atuação do novo governo de oposição. Nas eleições parlamentares de 2010, o partido de Chávez fracassou na busca da plena maioria entre os 165 deputados – a oposição conquistou 65 cadeiras. Ainda assim, o PSUV é maioria, com 98 parlamentares.

Se Chávez sair vitorioso, ele será ainda mais criticado por tirania, fraude e apego ao poder.