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A “campanha misteriosa” do filho do presidente egípcio

Aos 82 anos, Hosni Mubarak começa a ser questionado como líder do país e seu filho tenta ocupar espaços

Gamal teve uma infância privilegiada, cresceu no palácio presidencial e levou sua mulher para o Reino Unido no nascimento do primeiro filho, no lugar de confiar nos hospitais de seu país

Por cerca de tres décadas, o presidente do Egito Hosni Mubarak foi um dos pilares do Oriente Médio: um ponto de referência em torno do qual tudo gira. Porém, mais de um ano antes da próxima eleição presidencial, a incerteza substituiu a estabilidade como tema da política egípcia.

Hosni Mubarak tem 82 anos. Rumores sobre sua saúde costumam ser vigorosamente desmentidos. Para alguém com a sua idade, segue uma notável agenda de atividades. Os compromissos estão em linha. Mas é difícil silenciar as perguntas sobre se um candidato de 83 anos é o mais indicado para assumir um novo mandato de seis anos de trabalho extenuante. Em meio a essa atmosfera febril, apareceu uma estranha campanha para indicar o filho do presidente, Gamal Mubarak, para concorrer ao posto mais alto do país.

Cartazes de Gamal ao lado do pai foram vistos em bairros pobres. Várias campanhas on-line buscam reunir milhões de assinaturas pedindo que se torne candidato. Numa região de operários, em ruas de vida agitada na tarde de verão, um pequeno grupo colhe mais assinaturas. Dinheiro vem sendo gasto em alto-falantes e cartazes.

O Partido Nacional Democrático (PND), onde Gamal ocupa um alto posto, insiste que nem ele nem o filho do presidente organizaram ou endossam a campanha. É um movimento popular espontâneo que não podemos impedir, dizem.

“As campanhas são iniciativas individuais, não estão relacionadas com o PND e nenhum de seus dirigentes as aprovou oficialmente ou extra-oficialmente”, disse Aley el-Din Hilal, uma autoridade do partido.

Gamal Mubarak está em silêncio, não endossa as campanhas, nem faz nenhuma tentativa de silenciá-las. Assim, observadores da política egípcia duvidam de que tudo é tal como parece ser. Ele é um jovem e inteligente empresário, que já trabalhou no exterior e está ligado a empresários e reformistas que pretendem injetar um sopro de capitalismo na economia estatal egípcia.

Gamal teve uma infância privilegiada, cresceu no palácio presidencial e levou sua mulher para o Reino Unido no nascimento do primeiro filho, no lugar de confiar nos hospitais de seu país. Por isso, foi estranho encontrar a sede da “Coalizão do Povo em apoio a Gamal Mubarak” em uma das mais sujas e degradadas ruas do Cairo. Ainda mais estranho é ouvir o organizador, Magdi el-Murdy, falando sobre a necessidade de indicar o filho do presidente à campanha presidencial para afastar a elite do poder.

Os membros da oposição, claro, têm outra perspectiva. Shadi Taha, do partido de oposição Al-Ghad, descreveu a campanha como uma tentativa de mostrar que o público egípcio irá “mendicar” pelo sim de Gamal. Esse foi, segundo ele, um dos “muitos escândalos” do PND.

O que ainda não está claro é o que pensa o presidente Hosni Mubarak. Anos atrás, ele disse que serviria ao Egito até seu último suspiro e não tem um vice-presidente. Por isso não existe um sucessor evidente. Sua posição sobre a candidatura do filho não é pública. Mas certamente Gamal nunca foi apoiado pelo pai. Alguns acreditam que o presidente tem dúvidas sobre as credenciais do filho.