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“A balança sempre pende para lado masculino”

Diretora de documentário que trata de estupro coletivo ocorrido em Nova Délhi, em 2012, diz que a cultura indiana não é a única que desrespeita a mulher no mundo contemporâneo

A cineasta britânica Leslee Udwin passou os últimos dois anos entre Londres e Nova Délhi, filmando o documentário India’s Daughter (Filha da Índia), que conta a história do estupro coletivo sofrido pela estudante Jyoti Singh Pandey, no final de 2012. O filme traz entrevistas com os criminosos que violentaram a jovem – na ocasião, Jyoti estava com 23 anos – e também com seus advogados de defesa dos estupradores. Em determinado momento, um desses advogados, Manohar Lal Sharma, encara a câmera e afirma: “Nós temos a melhor cultura. Na nossa cultura, não há lugar para as mulheres”. Lançado em março, o documentário foi banido na Índia sob o pretexto de proteger a identidade da vítima. De Londres, onde mora, Leslee concedeu, por telefone, a seguinte entrevista ao site de VEJA:

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No país dos estupros

A senhora esperava que o documentário fosse banido na Índia? De maneira nenhuma. Esperava o oposto, mas, nessa jornada para filmar India’s Daughter, absolutamente todas as minhas expectativas foram revertidas. Fui entrevistar os estupradores achando que eles eram monstros, mas eram seres humanos normais. Achei que seria extremamente difícil conseguir a liberação das autoridades para entrevistar aqueles jovens, mas essa foi a parte mais fácil do processo. Achei que o governo indiano fosse abraçar o filme porque ele trata do desrespeito às mulheres em âmbito global. A Índia virou uma referência no filme por causa dos protestos que ocorreram no fim de 2012. Nenhum outro país se preocupou em protestar contra casos de estupro daquela maneira apaixonada e comprometida. Eu estava fazendo um filme positivo sobre a Índia. O banimento foi um choque. Não consigo compreender. Seria uma excelente oportunidade para o primeiro-ministro provar que estava sendo sincero quando disse, durante o período de campanha, que mudaria a maneira como as mulheres eram vistas no país.

Narendra Modi, o premiê indiano, declarou que baniu o documentário para proteger a identidade da vítima. Como a senhora responde a essa justificativa? Conheço a lei indiana e sei que ela proíbe a divulgação do nome de vítimas de estupro. Eu obedeci a essa norma. A versão indiana do documentário não revela o nome de Jyoti Singh Pandey. As autoridades baniram o filme sem vê-lo.

Muitos indianos acabaram assistindo ao documentário pela internet. Recebeu algum retorno deles? Sim. Com o banimento, o governo só aguçou a curiosidade das pessoas. O que chamou minha atenção foram os e-mails e mensagens de homens que diziam nunca haver levantado um único dedo para uma mulher. Mesmo assim, eles se diziam envergonhados e atormentados, pois reconheciam alguns pensamentos expressados pelos estupradores e seus advogados no filme.

Como foi encarar os estupradores de frente? Foi surpreendente porque, antes de encontra-los, eu imaginava que eram psicopatas, monstros. Fiquei surpresa e desarmada ao constatar que pareciam pessoas completamente normais. O líder do grupo era até sensível e educado. Quando os entrevistei, já estavam na prisão há dez meses e, portanto, imaginava que estivessem sentindo culpa e remorso, mas não. O episódio me lembrou o livro Into that Darkness, da húngara Gitta Sereny. A reação dos jovens que entrevistei se assemelha a do comandante do campo de concentração nazista, descrita por ela no livro. Eles não acreditam que fizeram algo de errado, por isso não sentem remorso ou arrependimento. O que eles pensam é: “Por que nós? Todo mundo está fazendo isso. Por que nós é que temos que servir de exemplo?”. Eles não sentem que fizeram algo de errado porque foram educados para pensar na mulher dessa maneira.

Qual aspecto da cultura indiana impacta negativamente no número de estupros? Não é só a cultura indiana. Isso tem que ficar claro. É a cultura do mundo, que não trata a mulher com o mesmo respeito com que trata o homem. Os problemas mudam de acordo com os países, mas a balança sempre pende para o masculino. A cultura indiana tem suas próprias características como, por exemplo, o fato de os casais não desejarem bebês do sexo feminino. As meninas são tratadas como um fardo e, assim que nascem, as famílias já sabem que terão que entrega-la à família do marido ainda nos primeiros anos da adolescência ou da infância. Para piorar, há o dote que, apesar de proibido, continua sendo praticado. No papel, a Índia é uma democracia. As leis estão lá, mas não são implementadas porque as práticas tradicionais continuam a ser toleradas.