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A ascensão e queda de Steve Bannon – o primeiro conselheiro de Trump

Após se tornar uma espécie de guru do republicano, e ser descartado por ele, Bannon foi detido nesta quinta sob acusação de fraude

Por Da Redação - 20 ago 2020, 20h14

O ativista da extrema-direita americana Steve Bannon não conseguiu ganhar a empatia do presidente americano, Donald Trump, nem mesmo após ser detido nesta quinta-feira, 20, sob acusações de fraude em uma iniciativa civil para ajudar na construção do notório muro na fronteira com o México.

“É uma coisa muito triste feita pelo Sr. Bannon. Eu não gostei desse projeto. Eu pensei que era um projeto sendo feito por motivos de exibição”, disse Trump. “[A iniciativa] foi algo que eu achei muito inapropriado de se fazer”, acrescentou.

Bannon está bem distante de seu auge político. Até meados de 2017, há apenas três anos, durante o início da Presidência de Trump, o ativista era formalmente o principal conselheiro do governo.

De fato, ele teve uma estelar ascensão ao poder e, em sequência, uma abrupta queda.

Chegada à campanha eleitoral de 2016

O primeiro encontro entre Bannon e Trump ocorreu em 2010, disse o ativista em uma entrevista à emissora de televisão americana CBS News. Ele teria sido apresentado ao então apenas magnata de Nova York por David Bossie, presidente do coletivo conservador Citizens United.

Bannon era conhecido por escrever para o site Breitbart News, o qual ele havia cofundado em 2007, e que é notório por publicar artigos de cunho supremacista e disseminar notícias falsas.

Seis anos se passaram sem nenhum reencontro significativo registrado. Em 16 de agosto de 2016, em plena corrida eleitoral, Trump, já candidato pelo Partido Republicano à Presidência dos Estados Unidos, convidou Bannon para ser o diretor-executivo de sua campanha.

No comunicado em que anunciou essa decisão, Trump afirmou “conhecer Steve há muitos anos” e que o ativista “sabe como ser um vencedor”.

Durante a campanha, tendo concedido pouquíssimas entrevistas, Bannon demonstrou ser discreto, uma característica que o seguiria durante grande parte de seu relacionamento com Trump.

Conselheiro presidencial

Em 13 de novembro, menos de uma semana após a vitória nas eleições presidenciais, o então presidente-eleito nomeou Bannon ao recém-criado cargo de “conselheiro presidencial”.

O ativista compartilharia com o chefe de gabinete da Casa Branca, a função de “transformar o governo federal”, explicou a assessoria de Trump em comunicado.

Trump foi empossado em 20 de janeiro de 2017 e, cerca de uma semana depois, assinou um memorando executivo que permitiu Bannon de participar das reuniões do Conselho de Segurança Nacional, onde as principais decisões da política externa americana são tomadas.

Bannon teve acesso irrestrito às reuniões do conselho até o início de abril, após, segundo disse uma fonte interna à emissora de televisão americana ABC News, “cumprir sua missão” de “tomar conta de Flynn”, em referência ao polêmico conselheiro de segurança nacional, Michael Flynn, uma das primeiras figuras a cair do governo Trump.

O ideólogo não teria reclamado ao perder o direito de participar ativamente do conselho.

Charlottesville e a queda

O histórico de opiniões racistas de Bannon, expostos em seus artigos para o Breitbart News, ganhou os holofotes em agosto após uma série de conflitos raciais violentos na cidade de Charlottesville, no estado da Virgínia.

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Em sua primeira resposta aos conflitos, em 15 de agosto, Trump se distanciou do ideólogo.

“Eu gosto do Sr. Bannon. Ele é um amigo meu. Mas Bannon veio muito tarde. Vocês sabem disso. Eu [já tinha] ganho todas as primárias”, disse o presidente em referência à campanha eleitoral. De fato, Trump já havia vencido as primárias republicanas antes da chegada oficial de Bannon.

Essa não foi a primeira vez em que o presidente diminuiu o papel do conselheiro em sua campanha presidencial.

Desde abril, pelo menos, Trump publicamente falava que Bannon chegou apenas no final da corrida eleitoral. Em contraste, o costume do ideólogo de se vangloriar por sua participação em 2016 foi motivo de desgastes na relação entre os dois, afirma a imprensa americana com base em fontes internas.

Neoconfederados trazem tochas para 'proteger' a estátua nos EUA
Supremacistas brancos trazem tochas para ‘proteger’ a estátua do general Lee durante episódios de conflitos racias em Charlottesville, nos Estados Unidos – 14/05/2017 @WrrrdNrrrdGrrrl/Twitter

Com os eventos de Charlottesville e a incapacidade do presidente em condenar os supremacistas brancos envolvidos nos conflitos, membros do governo em especial o chefe de gabinete, John Kelly, e o conselheiro Jared Kushner, com quem Bannon já se desentendia — pressionaram pela saída do ativista.

Bannon foi oficialmente exonerado de suas funções na Casa Branca em 18 de agosto.

Fogo e Fúria

Em setembro, ele cutucou seu ex-chefe em uma entrevista à emissora de televisão americana CBS. Bannon disse que a decisão de demitir em maio James Comey do cargo de diretor do FBI foi “o maior erro da história política moderna”. A demissão levou ao agravamento do escândalo da interferência russa em 2016 e às acusações de tentativa de obstrução de Justiça.

Ainda no final de 2017, Bannon participou de pelo menos um comício em apoio à candidatura do republicano Roy Moore ao Senado americano em uma eleição especial em dezembro. Acusado de pedofilia, Moore, que não era inicialmente apoiado por Trump, perdeu o pleito para o democrata Doug Jones. A derrota irritou Trump, que depois a atribuiu ao seu ex-conselheiro.

Capa do livro Fogo e Fúria, de Michael Wolff Objetiva/Divulgação

O maior conflito de Bannon com Trump após sua passagem pela Casa Branca se deu apenas em janeiro de 2018, com o vazamento de trechos de Fogo e Fúria, do jornalista Michael Wolff.

No livro, que conta os bastidores dos primeiros meses do governo Trump, Bannon é citado, acusando um dos filhos do presidente, Donald Trump Jr., de “traição” e “antipatriotismo”, entre outras provocações a membros do gabinete e da família presidencial.

“Steve Bannon não tem nada a ver comigo ou com minha presidência. Quando ele foi demitido, ele não apenas perdeu o emprego, mas também perdeu a cabeça”, disse Trump em um comunicado.

“Agora que ele está sozinho, Steve está aprendendo que vencer não é tão fácil quanto faço parecer”, acrescentou.

Desde então, a situação entre Bannon e Trump pareceu se acalmar. Em agosto de 2019, o presidente americano disse em um tuíte que o ativista era “um de seus melhores pupilos”.

Nesta quinta-feira, no entanto, após a prisão do conselheiro, se distanciou.

“Acho que é um evento triste”, disse o presidente americano”. “Eu não lido com ele há anos, literalmente anos”.

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