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A arma perigosa: egos frágeis

Ambiente de exaltação à violência influencia os mais fracos

O que concluir quando num dia um atirador de “direita” mata 22 pessoas e, no seguinte, outro, de “esquerda”, incinera nove vidas?

A reação de muitos americanos é simples: primeiro, condena-se a pena de morte, vigente tanto no Texas, onde agiu Patrick Crusius, o assassino do Walmart de El Paso, quanto em Ohio, o território de caça aos humanos de Connor Betts, que matou a própria irmã entre as vítimas de Dayton.

Depois, discutem-se as razões, facilidades, doenças mentais e sociais e motivações ideológicas dos dois assassinos.

Sob o impacto de crimes horríveis, sem explicação nem sentido, cresce a onda favorável a controles sobre a venda de armamentos, mas logo reflui. Até agora, a maioria dos americanos continua a acreditar no direito de ter e portar armas para a defesa própria e até a aceitar tacitamente a anomalia dos atiradores em massa como o preço a pagar por ele. Nos estados onde a população muda de opinião, os políticos ouvem e aprovam legislação mais rígida.

“Culpar Trump pelos crimes é tão idiota quanto achar que Barack Obama fragilizou os pobres meninos brancos”

A barulheira é feita basicamente pelo poderosíssimo lobby contra as armas. O NRA, uma antiga associação de tiro transformada em seita, o Templo da Glock, é ridiculamente impotente comparado a suas muitas nêmesis. Todos os grandes meios de comunicação, a academia, o mundo das artes e os influencers de modo geral espumam de raiva nas campanhas antiarmas.

A hipocrisia dos famosos é rapidamente captada pela população comum. Por que atores, roteiristas e diretores simplesmente não se recusam a fazer filmes em que o “revólver de Chekov” (o princípio de que, se uma arma aparece no primeiro ato, tem de ser usada até o terceiro) é levado aos mais absurdos extremos? Por que, no cinema, as armas sempre são a solução desde a violência doméstica (Jennifer Lopez em Nunca Mais) até uma infestação de leprechauns (Jennifer Aniston em O Duende)? Sem contar a salvação do mundo, que pode ser compactada em Matrix, o filme que continua a ser o paradigma dos “malucos do porão”, adolescentes brancos e isolados, com ego frágil, perturbados por bullying e mergulhados no universo viciante dos videogames, das redes ou do 8Chan.

Os dois assassinos do último fim de semana têm esse perfil. Mas também já houve um atirador coreano (Virginia Polytechnic, 32 mortos), um ex-militar negro (Dallas, cinco policiais) e até uma ex-­menina transmutada em menino trans (STEM School Highlands Ranch, Colorado, um morto, oito feridos). O atirador mais letal, o de Las Vegas (58 mortos), tinha 64 anos. Até hoje persiste uma cortina de mistério sobre o caso. Patrick Crusius deixou um manifesto contra estrangeiros, típico dos supremacistas brancos. Connor Betts se dizia socialista. Ambos eram viciados no tóxico poderoso da exaltação à violência narcisista, exacerbado pelos meios digitais.

Culpar Donald Trump por crimes assim é tão idiota quanto achar que Barack Obama, que veio ao Brasil no começo do ano falar meias verdades e mentiras completas sobre armas nos Estados Unidos (400 000 dólares é o cachê habitual), fragilizou os pobres meninos brancos.

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2019, edição nº 2647