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A alergia de Hillary Clinton às entrevistas coletivas

O receio de Hillary parece ter algo a ver com seu problema histórico com a imprensa, a qual acusou de alimentar um "duplo padrão" misógino a respeito dela

Por Da redação - 10 set 2016, 11h41

Hillary Clinton, uma das figuras políticas mais investigadas de sua geração, desenvolveu uma alergia às entrevistas coletivas que agrava a já complicada relação com os veículos de comunicação, mas que provavelmente não fará tanto prejuízo nas urnas como gostaria seu rival republicano, Donald Trump.

Na última vez que candidata democrata concedeu uma entrevista coletiva formal, as ruas dos Estados Unidos começavam a se preparar para o Natal, as eleições primárias ainda nem tinham começado e o consenso entre os analistas era de que Trump levaria a pior na tentativa de conseguir a indicação republicana. Foi em 5 de dezembro de 2015, há 277 dias, números que Trump e o Partido Republicano se encarregam de atualizar diariamente em e-mails enviados aos jornalistas.

A candidata democrata, que traz na bagagem uma difícil relação com a imprensa desde que era primeira-dama, desenvolveu uma sofisticada estratégia midiática que a permite controlar ao máximo a mensagem e se esquivar do fator da imprevisibilidade das perguntas dos repórteres. Hillary concedeu 350 entrevistas neste ano, embora a maioria tenha sido tão curta — entre três e oito minutos que era impossível se aprofundar em qualquer tema. Além disso, muitas foram feitas por simpatizantes ou humoristas, não jornalistas, segundo uma análise da emissora de rádio pública americana NPR.

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A ex-secretária de Estado também respondeu a perguntas de jornalistas em poucos atos de campanha, como fez em agosto durante a conferência das associações de jornalistas negros e hispânicos, mas apenas três repórteres que tinham sido pré-selecionados puderam questioná-la. “Parece que a campanha de Hillary não vê benefícios em convocar uma entrevista coletiva”, disse à Agência Efe um especialista em comunicação política da Universidade de Dayton, em Ohio, Daniel Birdsong.

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“Hoje em dia, os candidatos podem expressar suas mensagens com seus próprios meios – anúncios de televisão, YouTube, Facebook, Twitter e sites oficiais – e se esquivar dos veículos de comunicação mais facilmente do que antes, então há poucos incentivos para que Hillary convoque uma entrevista coletiva”, acrescentou.

Podcast — Há algumas semanas, a campanha da democrata estreou um podcast, chamado “With her” (com ela, em inglês) e dirigido por um de seus apoiadores, Max Linsky, que no primeiro episódio esclareceu que não era “jornalista nem imparcial” e perguntou à candidata coisas como o horário em que acordava a cada dia e em que pensava antes de dormir. O jeito de Hillary Clinton lidar com a imprensa pode parecer o suficientemente correto em comparação com o de Trump, que tem uma lista negra de veículos vetados em seus atos e frequentemente incentiva o público de seus comícios vaiar os jornalistas “desonestos” presentes.

Mas o magnata concede entrevistas coletivas frequentemente e, para muitos jornalistas, a reticência da rival em fazer o mesmo é grave devido aos escândalos de seus e-mails e da Fundação Clinton, o que gera desconfiança entre muitos eleitores. Cerca de 56% dos americanos tem uma imagem negativa de Hillary, segundo uma pesquisa divulgada pelo jornal The Washington Post na semana passada, ao mesmo tempo em que Trump encurtava distâncias nas pesquisas de intenções de voto.

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“Evitar a imprensa quando parece que você vai ganhar as eleições pode te dar uma vantagem tática, mas também significa que o público está menos informado, e pode fazer com que o candidato em questão esteja menos preparado para responder a perguntas difíceis”, afirmou Kathleen Hall Jamieson, professora de comunicação política na Universidade da Pensilvânia, à revista The Atlantic.

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Para Robert Lehrman, professor de comunicação pública na American University, a questão é que a candidata democrata não “ganharia” nada se desse entrevistas coletivas. “Por acaso ela perdeu ponto em alguma pesquisa por evitá-las? Vai custá-la algum estado que necessite para ganhar? Seu índice de “confiança” seria melhor se tivesse dado entrevistas coletivas? Certamente que não. Se não convocar nenhuma antes de 8 de novembro [dia da eleição], isso pode prejudicá-la um pouco, mas atualmente não. Vale mais a pena se dedicar a outras coisas”, considerou Lehrman.

De qualquer forma, o receio de Hillary Clinton parece ter algo a ver com seu problema histórico com a imprensa, a qual acusou de alimentar um “duplo padrão” misógino a respeito dela e de outras mulheres poderosas em sua época de primeira-dama (1993-2001). Antes de iniciar sua segunda corrida presidencial, em março de 2015, Hillary disse a um grupo de jornalistas que queria “uma nova relação com a imprensa”, com a qual tinha tido uma interação “às vezes, digamos, complicada”.

(Com agência EFE)

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