‘Nos damos ao luxo de ignorar a realidade do câncer até o momento em que ela nos toca’
Presença na Flip, o português José Luís Peixoto nomeia a doença impronunciável em obra que trata de dor, finitude e luto nas fronteiras entre vida real e ficção
A montanha de José Luís Peixoto começou a ser escalada há mais de 25 anos, quando o premiado escritor português publicou seu primeiro livro, Morreste-me, nascido a partir do luto com a dolorosa perda do pai.
A Montanha, seu mais novo romance publicado no Brasil pela editora Dublinense, parece condensar – e levar às últimas consequências – a obra desse autor que esgarça e descostura as fronteiras entre ficção, realidade, (auto)biografia, delírio e história, aquela com H maiúsculo.
Nestas páginas, pela primeira vez, ele redige, expõe e enfrenta a palavra terrível que também levou seu pai – a inominável doença de Morreste-me. Se a Montanha Mágica do alemão Thomas Mann respirava o ar da tuberculose, a Montanha inadjetivável de Peixoto é aquela em cujas sombras se encontra o câncer.
O Escritor – a figura real e o personagem, assim se embaralham vida e narrativa na arte deste português – é convidado a ouvir e recontar histórias de pacientes com o diagnóstico tratados em um hospital oncológico do Porto. E, entre jovens e velhos, damas e cavalheiros confrontando doenças diferentes e únicas, mas reconhecidas sob um nome idêntico e assustador, é incitado a rever e a incorporar a própria trajetória do pai.
Mas A Montanha não é apenas um livro sobre câncer. É algo mais próximo de um livro-total, daqueles que falam dos elementos que mais ressoam e calam profundamente na mente humana. Dor, luto, finitude, felicidade, vida… E é um livro-total no sentido de questionar inclusive onde terminam e onde começam a literatura e a experiência real.
Só que, subindo a montanha de José Luís Peixoto, a mesma que nos faz chorar em Morreste-me – não se trata de força de expressão: lendo Morreste-me, me ocorreu algo que nunca havia acontecido em meu percurso de leitor: chorei no instante em que o autor-narrador chora -, já não importa o que é fato ou ficção. Importa que, lá do alto, enxergamos a paisagem, a doença e a vida sob outros ângulos.
Ao escalarmos a montanha ao lado desse Escritor que é pai e filho, fruto de um milagre que só o amor, a arte e a religião podem conceber, ressignificamos palavras, memórias e aspirações. Não me parece um exagero dizer que esse é um livro que pode salvar almas e vidas.
Com a palavra, José Luís Peixoto.
Há quem diga que um autor está sempre (re)escrevendo o mesmo livro, ainda que seja com abordagens e personagens distintos. Em que medida A Montanha reelabora e completa o ciclo iniciado por Morreste-me? Morreste-me nasceu da própria perda, nasceu dessa urgência. Nesse tempo, a ausência era quase uma presença física, tangível. Num certo sentido, A Montanha relaciona-se com a mesma experiência, mas contempla muitas outras nuances e, por isso, tem outra complexidade. A finitude é um tema importante deste romance, mas existe também a experiência da doença, o confronto com um diagnóstico que é sempre desregulador da visão que alimentamos no dia a dia. Considerando tanto a vida como a morte, nossa e dos outros, creio que este é um livro sobre as grandes questões, sobre a existência, sobre o sentido de viver.
O que pronunciar e escrever a palavra “câncer” mudou na forma de encarar a doença? Por vezes, há palavras que evitamos pronunciar, como se o silêncio as fizesse deixar de existir. Eu próprio nunca tinha utilizado a palavra “câncer” em qualquer livro meu. Escrevê-la repetidamente, colocá-la em evidência, obrigou-me a retirar-lhe parte desse poder simbólico. Continua a ser uma palavra pesada, evidentemente, mas deixou de ser uma palavra proibida. Acredito que o uso natural dessa palavra contribui para uma série de propósitos desejáveis. Por um lado, tira algum peso aos doentes que têm de confrontar-se com essa palavra, com essa realidade, que precisam de reconhecimento e de apoio da sua comunidade e não de rejeição ou incômodo. Por outro lado, chama a atenção para a circunstância de, hoje, “câncer” já não significar exatamente o mesmo que significava há alguns anos. Hoje, há muito mais gente a sobreviver ou a conviver com a doença. “Câncer” não significa automaticamente “morte”.
Nas suas pesquisas sobre o câncer (ou melhor, os cânceres) e sobre as pessoas diagnosticadas com a doença, o que mais lhe marcou? De fato, no nível clínico e não só, as experiências da doença são muito diversificadas. A notícia do diagnóstico é sempre dura e, em certa medida, traumatizante. Quem tem de lidar com ela vê a sua vida profundamente transformada. Talvez isso seja o que mais me marcou. Enquanto sociedade, nos damos ao luxo de ignorar essa realidade até o momento em que nos toca. E, é quase inevitável, de modo direto ou indireto, o câncer tocar-nos.. A maioria dos doentes, ao receberem o diagnóstico, parecem entrar num mundo novo, receberem uma nova identidade. A percepção mais comum do cotidiano não conta com o câncer, comporta-se como se ele não existisse. Essa negação paga-se caro. O câncer existe, ignorá-lo é injusto para quem lida com ele e deixa-nos totalmente despreparados para quando chegar a nossa vez.
O Escritor optou por não adjetivar a “montanha” do livro, diferentemente de Thomas Mann. Mas, se tivesse que lhe dar um adjetivo, qual seria? Talvez a caracterizasse como uma montanha interior. Não porque exista apenas na consciência de quem a sobe, mas porque transforma profundamente quem a percorre. Ainda assim, preferiria não lhe dar nenhum adjetivo, como escolhi fazer. Os adjetivos limitam sempre um pouco a abrangência dos substantivos, e eu gostaria que, perante a leitura, cada leitor pudesse descobrir a sua própria montanha.
Entre a vida e a ficção, a realidade e o delírio, no livro (e na mente) o autor incorpora seu “pai”. Terá ele conseguido metamorfosear o luto em algo diverso, difícil de definir mas menos dolorido decerto? O que ele encontra no fim desta jornada? Não acredito que a literatura seja capaz de eliminar a dor. Ainda assim, pode contribuir para organizá-la e, dessa forma, atribuir-lhe um sentido. Essa poderá ser uma importante forma de consolo. A literatura permite trabalhar a relação que temos com a dor, o que não é pouco. As múltiplas dimensões que este livro apresenta são um reflexo da forma como, desde Morreste-me, o primeiro livro que escrevi, e até agora, quase 30 anos depois, tenho lidado com a perda do meu pai. Uma circunstância que, através do pensamento, das emoções e da linguagem, já teve muitas formas e que, atualmente, é inseparável da minha identidade. Hoje, como o narrador afirma no romance, eu sou o meu pai. Esse aparente paradoxo é surreal e, em simultâneo, é absolutamente real. Eu sou ele e, da mesma maneira, ele sou eu.







