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De Cabo Verde a Transilvânia: escritores são os melhores guias de viagem

Jornadas pela história e por outras culturas nas mãos de cinco habilidosos autores

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 13 ago 2026, 12h36 | Atualizado em 14 ago 2026, 12h10
De Cabo Verde a Transilvânia: escritores são os melhores guias de viagem Priorizar nos meus resultados Google

Quer escolher o próximo destino ou montar um roteiro diferente? Então pegue um livro. Não um guia de viagem stricto sensu. Mas obras que, com o sabor da crônica, levam o leitor por terras, mares, montanhas, ruas e memórias distantes. Com esse espírito de fazer as malas, selecionamos cinco títulos recentes que, em comum, permitem perambular por novas geografias, histórias e culturas – e, por que não, inspiram jornadas fora da caixa (e dos pacotes turísticos) na vida real.

Navegadores

Autora: Erika Fatland
Tradução: Leonardo Pinto Silva
Editora: Todavia
Páginas: 608

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A norueguesa Erika Fatland é, provavelmente, a melhor cronista de viagem da atualidade. Depois de fazer fama explorando os domínios e as fronteiras da antiga União Soviética – numa combinação de imersões in loco com farta pesquisa -, ela decidiu seguir os passos do povo que inaugurou a Era dos Descobrimentos. Sim, os portugueses. Em Navegadores, a autora percorre as rotas oceânicas abertas pelos pioneiros desde o século XV, desvelando, a cada capítulo, ilhas, cabos e países, bem como personagens ilustres e desconhecidos que construíram essa longa história. É um ponto de vista particularmente inovador para nós, brasileiros e falantes do português. Pois, além de revisitar o passado que nos forjou (com dores e chagas ainda abertas), Fatland nos apresenta territórios e comunidades que compartilham nossa gênese colonial mas permanecem a léguas de distância do nosso imaginário, como Cabo Verde, Moçambique, Macau e o Timor Leste.

Capa do livro Navegadores com ilustração em tons de azul de um painel de azulejos. A imagem mostra um pássaro, um navio à vela, um coração e o perfil de um homem, sobre um fundo claro. O título e o nome da autora, Erika Fatland, estão em destaque
(Capa: Todavia/Reprodução)

Viagem à Polônia

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Autor: Alfred Döblin
Tradução: Luis S. Krausz
Editora: Hedra
Páginas: 376

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Pouco depois da Primeira Guerra Mundial, o escritor alemão de origem judaica Alfred Döblin, hoje reconhecido por romances como Berlin Alexanderplatz, empreendeu uma jornada por aquela que era a pátria dos judeus na Europa. Em Viagem à Polônia, uma iniciativa patrocinada pelo jornal em que publicava seus textos, o autor caminha pelas ruas, pelas tradições e pela história de um país em constante redefinição – e que, alguns anos depois, seria dilacerado pelas invasões nazistas. De cidade em cidade, Döblin nos leva aos guetos, sinagogas e outros espaços comunitários que mantiveram viva a religião judaica e lapidaram, no concreto e na cultura, a arquitetura de parte do Leste Europeu. São particularmente marcantes seus relatos de incursões aos recintos onde se veneravam populares rabinos, bem como seu passeio pelo icônico cemitério judaico de Varsóvia.

Capa do livro Viagem à Polônia de Alfred Döblin. Lado esquerdo amarelo com título e autor em preto. Lado direito verde escuro com padrão geométrico de linhas azuis claras formando triângulos e paralelogramos
(Capa: Hedra/Reprodução)

Ir Até Havana

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Autor: Leonardo Padura
Tradução: Monica Stahel
Editora: Boitempo
Páginas: 288

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O escritor Leonardo Padura nasceu, cresceu e vive na capital cubana. E fez da cidade o pano de fundo de muitos de seus livros, com destaque para os protagonizados pelo detetive Mario Conde. Em Ir Até Havana, ele nos serve de guia apresentando um microcosmo impregnado de memórias pessoais, coletivas e literárias. Padura ama essa cidade. Mas não a poupa de críticas. E é nesse contato íntimo com a ilha que ele conhece tão bem que emergem reflexões capazes de transpor barreiras geográficas. Como a que suscita seu conceito de “alhenitude”, aquele sentimento que “acontece quando o que é nosso começa a nos parecer estranho”, uma percepção talvez universal, mas ainda mais aguda em cidades como a velha Havana, que “reclama afetos” e hoje talvez “receba menos carícias do que nunca”, turvando, assim, o próprio “senso de pertencimento” de um dos mais famosos cidadãos cubanos.

Capa do livro Leonardo Padura Ir Até Havana com a bandeira de Cuba pintada em uma parede desgastada e um homem caminhando à direita
(Capa: Boitempo/Reprodução)

Nós Dizemos Não

Autor: Eduardo Galeano
Tradução: Sergio Faraco
Editora: L&PM
Páginas: 480

Poucas pessoas se embrenharam tanto na vida da América Latina como o escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano. Uma amostra extraordinária de suas andanças, entrevistas e reportagens – todas com o estilo literário delicioso do autor – pode ser conferida na coletânea de crônicas Nós Dizemos Não, que reúne textos publicados entre 1963 e 1988. Galeano parte de episódios e experiências pontuais, sujando os sapatos e preenchendo bloquinhos de anotações como um bom repórter, para destrinchar a beleza e as feridas deste pedaço do mundo. Embora este livro não se restrinja ao território latino-americano, é nas veias abertas da região que sua prosa pulsa. Viajamos pela sua terra natal, pela Argentina peronista, pelo Chile sob a ditadura de Pinochet, e entramos com ele nas favelas brasileiras, onde o culto a Exu desafia a moral cristã.

Capa do livro Nós Dizemos Não de Eduardo Galeano, com fundo rosa vibrante. O título está em letras brancas e amarelas, e abaixo, em branco, Crônicas 1963-1988. No canto inferior direito, há uma ilustração de várias figuras humanas estilizadas em preto e branco, com detalhes coloridos, em diferentes poses de protesto ou dança. O logo da editora L&PM aparece no rodapé
(Capa: L&PM/Reprodução)

Ao Longo do Caminho Encantado

Autor: William Blacker
Tradução: Erika Nogueira Vieira
Editora: Âyiné
Páginas: 440

O britânico William Blacker teve uma ideia no início dos anos 1990: ir viver em um pedaço da Europa que não estivesse sufocado pela urbanização e pelo ritmo da civilização moderna. Pois ele encontrou o que procurava na Romênia, mais especificamente na região que abrange a Transilvânia e os Maramures. Travando contato com a comunidade local, que incluía saxões e ciganos, Blacker se estabeleceu ali levando a rotina da família que o acolheu, participando de cultivos, colheitas e ordenhas em lares que desconheciam luz elétrica e água encanada. Suas memórias pintam, assim, um cenário realmente idílico – e, como sugerem os acontecimentos narrados no livro, em vias de extinção. Ao Longo do Caminho Encantado oferece uma visão única das paisagens, das construções e dos habitantes de um recanto pouco conhecido do velho continente, um recanto que rende ao autor uma paixão cigana e a oportunidade de compartilhar o estilo de vida de um dos povos mais antigos e atacados ao longo da história.

Capa do livro Ao longo do caminho encantado: Viagens na Transilvânia de William Blacker. Um homem de gorro e casaco, com meias grossas sobre as calças, usa um bastão para mexer em um fogo no chão nevado. Árvores cobertas de neve ao fundo.
(Capa: Âyiné/Reprodução)
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