A poeta de poucas palavras que será a grande homenageada da Flip
Orides Fontela tem obra republicada em meio ao lugar de destaque que ganha no principal festival literário do país
“Vemos por espelho/ e enigma/ (mas haverá outra forma/ de ver?)”, indaga em um de seus sucintos poemas Orides Fontela, autora que tentou responder a esse dilema decantando e decompondo até a mínima raiz tanto a natureza à sua volta como os versos que lhe afloraram à mente. Na busca pela essência das coisas, Orides “produz muito significado com pouca palavra”, como cravou o professor Antonio Candido.
E é essa poeta de poucas palavras, misteriosa e desconhecida da maioria dos brasileiros, que a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) recoloca em evidência com a sua homenagem deste ano.
Orides Fontela foi breve na poesia e na vida. Nasceu em São João da Boa Vista, no interior paulista, em 1940. Foi apresentada ao mundo por um conterrâneo, o crítico literário Davi Arrigucci Júnior. Formou-se em filosofia, trabalhou como professora de escola primária e bibliotecária. Publicou cinco livros, foi aplaudida e premiada. E morreu prematuramente de complicações da tuberculose em um sanatório de Campos do Jordão em 1998.
Em Transposição, seu título de estreia, já aparecem o estilo, os signos e os elementos que lhe acompanharão pela obra toda, trajetória encerrada em Teia. Um itinerário de poesia a seco – sem drama nem gordura.
Para o professor Arrigucci Júnior, o primeiro livro de Orides é o mais original e poderoso. Eu, que entendo muito menos do que ele, fico com o último – a “poeta do corte” me lacerou ali.
A Flip é, sem dúvida, seu momento de (re)descoberta. Algo ainda mais tangível pelo relançamento dos seus cinco volumes pela editora Hedra, projeto coordenado pela pesquisadora Ieda Lebensztayn que traz uma senhora fortuna crítica (com Arrigucci Júnior, Candido e companhia) e se ramifica com a publicação da biografia O Enigma Orides, de Gustavo de Castro.
Quem foi Orides Fontela? Convidamos os editores da Hedra que participaram dessa iniciativa a compartilhar um pouco da vida, da obra e das ideias da poeta. Com a palavra, Jorge Sallum e Suzana Salama.
Orides Fontela é uma poeta pouco conhecida entre os brasileiros. A que atribui esse distanciamento?
Jorge Sallum: Tenho a impressão de que, com o passar das gerações, desconhecidos podem virar grandes autores, mas grandes autores podem também ser completamente esquecidos. O cartaz de um autor raramente se mantém — algo que alguns podem comparar a uma “bolsa de valores” da memória. No caso da Orides, que não está tão distante de nós, isso é gritante: ela queria o mundo, mas não para ela. O que parece que ainda não entendemos totalmente é seu desejo para o lugar do poeta na sociedade. Quando ela fala, nas entrevistas, sobre sua agonia com seu lugar de poeta, tendemos a olhar somente para ela, para uma mulher frágil, doente, deslocada. Mas ela aponta para outra coisa, e nós insistimos em olhar para o dedo e não entendemos que há uma crise gigantesca no campo da linguagem, da representação, da literatura e, mais especificamente, da poesia, que não nos permite conceber a vida para além do consumo, dos lugares funcionais.
Ela teve algum reconhecimento enquanto produzia poesia?
Orides foi muito reconhecida em vida. Trabalhou sob o olhar atento — e, por vezes, com a colaboração — de alguns dos maiores críticos brasileiros. Ganhou prêmios, publicou seus cinco livros. Ainda assim, no seu discurso, costuma aparecer uma rebeldia contra a lógica da “vida comercial”. Nós, que estamos chegando agora à sua poesia e escutamos rapidamente o que ela tem a dizer através de seus poemas curtos e concisos, assim como das entrevistas que ela concedeu — muitas delas inéditas e publicadas pela primeira vez em livro neste mês —, não entendemos que ela fala sobretudo a partir do lugar de poeta. É sobre a poesia, e ela está esquecida: essa é a grande crise.
Como descreveria a poesia de Orides em termos de forma e temática?
Suzana Salama: Orides é a poeta do corte. Sua poesia é marcada pela condensação da linguagem. Cada palavra parece ocupar um lugar indispensável, e o silêncio é parte constitutiva do poema. Seus textos combinam precisão, economia e intensidade para explorar questões fundamentais da existência, da linguagem, do tempo, do ser e da transcendência. Ainda que radical na forma, imagens tradicionais da lírica — como a pedra, a flor, o pássaro, a estrela — atravessam seus livros e compõem uma espécie de constelação simbólica, que dá unidade à obra e pode ser entendida como uma chave para compreendê-la.
E estamos diante de uma poeta com formação de filósofa, certo?
Sua poesia costuma ser chamada de filosófica, mas essa definição é insuficiente. Orides investiga questões humanas fundamentais que resistem a definições simples, sem nomeá-las de forma explícita. Seus poemas tratam de perguntas que permanecem abertas: cada questão conduz a outra, ampliando o campo de sentidos em vez de fechá-lo.
Os poemas da autora parecem buscar uma espécie de essência mínima, a raiz de uma ideia, de uma cena, de um sentimento, como se nada estivesse sobrando. A filosofia conversa com sua pegada literária?
Orides incorporou muito da filosofia à sua poesia, mas não no sentido de ilustrar conceitos. Conceitos, por si só, não fazem poesia. O que ela faz é transformar questões filosóficas em experiência poética. Isso aparece claramente em “Kant (Relido)”. O poema parte da célebre frase da Crítica da razão prática, “O céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim”, para recriá-la. Orides escreve: “Duas coisas admiro: a dura lei/ cobrindo-me/ e o estrelado céu/ dentro de mim.” Ela não comenta Kant nem o resume; ela o relê, como já diz o título. Inverte os termos, desloca o sujeito e produz uma imagem nova, em que a filosofia é absorvida pela linguagem poética.
Essa absorção dita também o estilo conciso da autora?
A impressão de uma poesia limpa, controlada e racional também vem daí. Orides trabalha com símbolos essenciais e quase nunca de maneira confessional. Podemos entender que sua voz poética busca a forma de um “espírito puro”, como se procurasse alcançar a essência das coisas, reduzindo a linguagem ao indispensável. Mas essa economia não diz respeito a frieza; significa buscar, através da linguagem, aquilo que está para além da própria linguagem. Também é importante pensar no papel do símbolo em sua poesia. O símbolo é o aspecto sensível de uma forma transcendente; ele sempre diz respeito a uma transposição. Orides representa, por exemplo, um silêncio ao qual não temos acesso, mas consegue exibi-lo ao leitor de forma controlada. Drummond, um de seus autores favoritos, parte da ideia de que a dor é incomunicável. Ou seja, ninguém é capaz de expressar totalmente o que sente. Há em todos nós um silêncio fundamental, uma impossibilidade fundamental. E Orides busca ser lúcida diante desse limite.
A poesia de Orides dialoga com outras formas de arte?
O professor Alcides Villaça fez, numa conferência, uma aproximação entre sua escrita e a Pietà, de Michelangelo. A dor da Pietà não é explosiva; é serena. Justamente por isso, é profunda. O mármore comunica aquilo que a emoção sozinha não conseguiria expressar. Algo semelhante acontece na poesia de Orides: a forma não esconde o sentimento, ela o torna possível. Na ordem dos símbolos, Orides trabalha sobre esse mármore. Talvez por isso sua poesia tenha um aspecto quase pétreo: são poemas feitos para durar o tempo das pedras. Neles convivem contenção, amargura, violência e uma espécie de estoicismo. E essa leitura dialoga diretamente com uma formulação do filósofo francês Gaston Bachelard, no ensaio Instante poético e instante metafísico: “A poesia é uma metafísica instantânea. Num curto poema deve dar uma visão do universo e o segredo de uma alma, ao mesmo tempo um ser e objetos. Se simplesmente segue o tempo da vida, é menos do que a vida; somente pode ser mais do que a vida se imobilizar a vida, vivendo em seu lugar a dialética das alegrias e dos pesares. Ela é então o princípio de uma simultaneidade essencial, na qual o ser mais disperso, mais desunido, conquista unidade.”
Se pudessem escolher um poema da autora que simbolizasse sua obra, qual seria?
Escolheria “A um passo de…”, o poema-epígrafe de Transposição, em que se está “a um passo de” Deus sem alcançar completamente esse lugar. O poema termina com: “Aqui aconteço”. É um poema que habita a distância e transforma a impossibilidade em experiência poética. Michel Riaudel, em uma longa entrevista com Orides, faz uma aproximação entre esses versos e a teologia da graça de Blaise Pascal — a ideia de que o ser humano pode se aproximar do absoluto, do espírito ou até de si mesmo, mas nunca alcançá-lo completamente apenas pela razão. A ideia de “transposição”, essencial a Orides, nasce justamente desse espaço intermediário, entre proximidade e impossibilidade. Na obra da poeta, a experiência do real frequentemente assume a forma de um limite. Estar “a um passo de” algo — do espírito, do divino, da própria linguagem — significa alcançar a proximidade sem eliminar a distância. O fim do poema não produz um encerramento tranquilo; abre um vazio, espécie de abismo diante do qual o leitor permanece suspenso. Mas o poema se constrói nesse quase.
O professor e crítico Davi Arrigucci Júnior diz, no texto-entrevista que vocês publicam, que talvez o primeiro livro de poemas da autora seja o mais poderoso e original. O que vem em seguida não superaria Transposição. Concorda com esse diagnóstico?
É uma leitura consistente. Transposição já apresenta praticamente todos os grandes temas e procedimentos formais que Orides desenvolveria nos livros seguintes. Ao mesmo tempo, sua obra mostra uma unidade rara: cada livro amplia, revisita e transforma questões já presentes desde a estreia. Por isso, embora Transposição possa ser visto como o momento de maior originalidade inaugural, livros como Alba (1983) — muitas vezes apontado como um ponto alto de sua maturidade, prefaciado por Antonio Candido e ganhador do Prêmio Jabuti — e Teia (1996), que aproxima sua poesia de temas mais concretos, demonstram que sua trajetória foi menos uma ruptura entre os livros do que um aprofundamento contínuo de um projeto poético.







