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Como o Peru se tornou o maior destino gastronômico do mundo

As atrações da cozinha típica, os astros dos restaurantes e as políticas públicas que compõem o sucesso turístico da comida local

O NÚMERO 1 DO MUNDO – Virgilio, do Central: menu degustação por 725 reais

O NÚMERO 1 DO MUNDO – Virgilio, do Central: menu degustação por 725 reais (Jussi Puikkonen/Alamy/Fotoarena)

Harmonizar passeios por cartões-postais com uma imersão no que há de melhor da culinária dessas localidades. Eis uma receita que vem fazendo sucesso entre muitos viajantes. O menu variado vai de um mergulho na cozinha toscana de Florença, na Itália, à experiência de degustar a comida de rua em Hanói, no Vietnã. Mesmo em meio a uma concorrência da pesada, quem tem se destacado de forma surpreendente é o Peru, eleito por seis vezes consecutivas o melhor destino gastronômico do mundo pelo World Travel Awards, a mais importante premiação do mercado internacional de turismo. O país faturou em 2018 cerca de 500 milhões de dólares com o negócio, quase 10% a mais em relação a 2017. Os  visitantes compram pacotes para degustar pratos típicos como o ceviche, passear pelos mercados municipais e conhecer os grandes restaurantes de lá. Dois deles, o Central e o Maido, estão entre os dez primeiros da lista dos melhores estabelecimentos do mundo, segundo a mais recente edição do ranking da publicação inglesa Restaurant. A título de comparação, o Brasil tem apenas um endereço na lista, A Casa do Porco, de São Paulo, na 39ª posição.

O Peru começou a chamar atenção nesse circuito com a ascensão internacional de Gastón Acurio, que elevou receitas tradicionais do país ao status da alta gastronomia. Até as variedades de batata dos Andes viraram iguarias finas. A partir do sucesso de seu estabelecimento em Lima, o Astrid y Gastón, ele criou uma cadeia de negócios, que inclui hoje 38 restaurantes ao redor do mundo, em cidades como Madri, Barcelona e São Paulo. O governo peruano pegou carona na onda e o transformou em embaixador turístico do país, levando-o a feiras internacionais do setor para vender o Peru como destino gourmet. “A universalização da nossa cozinha elevou a autoestima do povo peruano”, disse a VEJA Acurio.

O posto de melhor restaurante da América Latina, que já foi ocupado pelo Astrid y Gastón, pertence hoje a outro endereço de Lima, o Central, comandado pelos chefs Virgilio Martínez e Pía León. Nele, um menu degustação sai por 725 reais e a sequência de pratos é organizada de acordo com a altitude em que se encontram as matérias-primas, da menor para a maior. Começa com frutos do mar, pescados a 10 metros de profundidade no Pacífico, e termina com um pato das montanhas. Ali, as reservas precisam ser feitas com dois meses de antecedência. Outro endereço ba­dalado, o Maido, tem como trunfo as criações de Mitsuharu “Micha” Tsumu­ra, que mescla sabores locais com a culinária japonesa.

Essas atrações já entraram na rota dos viajantes brasileiros. Agências nacionais lançaram nos últimos anos pacotes de turismo gastronômico com destino ao Peru, com preços a partir de 2 000 reais por pessoa, sem passagem aérea. Nas versões mais simples, a jornada inclui três noites em Lima com direito a visita ao mercado, aula de culinária e jantar com degustação de vários pratos em um restaurante renomado. Nas opções mais caras, ao custo de 6 230 reais, a pessoa tem direito a três jantares e a esticadas às cidades de Cusco e Machu Picchu.

FESTA DA COMIDA – A Feira Mistura: cerca de 300 000 visitantes por edição

FESTA DA COMIDA – A Feira Mistura: cerca de 300 000 visitantes por edição (./Divulgação)

A gastronomia funcionou como um dos ingredientes fundamentais para dobrar o movimento turístico no país na última década (no mesmo período, o Brasil registrou um crescimento de 30%). A meta é chegar a 6 milhões de visitantes estrangeiros em 2020 (em 2018, o total foi de 4,4 milhões). Se atingir esse objetivo, o Peru praticamente vai igualar o número de turistas que visitam o Brasil por ano (6,6 milhões). Somente em 2017, o governo peruano investiu 25 milhões de dólares nessa área. Criou eventos como a Mistura, feira gastronômica que atrai 300 000 pessoas por edição, e elaborou novas propostas de roteiro para as agências ao redor do mundo. “As ações do Estado estão voltadas para o progresso desse segmento”, afirma Milagros Ochoa, diretora de turismo do Escritório Comercial do Peru em São Paulo.

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Nesse aspecto, a comparação é novamente desfavorável ao Brasil. Embora o país tenha uma variedade ainda maior de sabores e de estilos culinários, pouco se faz aqui para explorar de forma profissional esse potencial. Enquanto o Peru transforma seus chefs mais renomados em garotos-­propaganda da nação, a Embratur vem nomeando como embaixadores informais uma série de “celebridades” das mais diversas áreas para fomentar o turismo internacional no Brasil. A leva mais recente, anunciada no último dia 10, incluiu o artista plástico Romero Britto e o apresentador de TV Ratinho. Até o momento, nenhum nome ligado ao mundo da culinária recebeu a mesma missão. “Estamos perdendo tempo, pois os estrangeiros são apaixonados por produtos como a caipirinha e a feijoada”, afirma Janaína Rueda, proprietária do Bar da Dona Onça e sócia do marido, Jefferson Rueda, em A Casa do Porco. “Deveríamos usar isso como chamariz para depois mostrar toda a nossa diversidade na cozinha”, completa ela. Por falta de iniciativas assim, o Brasil passa fome perto da fartura do Peru, que soube utilizar o ceviche e outros pratos típicos para engordar seus lucros no mercado de turismo.

Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2019, edição nº 2652