Eventos climáticos extremos põem em risco patrimônios da cozinha mundial
Casos como as ondas de calor na Europa afetam terroir de produtos nobres
Imaginar uma receita de risoto ou de massa sem quantidades generosas de um belo parmigiano-reggiano — queijo popularmente conhecido no Brasil como parmesão — é um sacrilégio para qualquer italiano. E é bem provável que boa parte do mundo, claro, também assine embaixo dessa opinião. O produto, porém, agora figura em uma lista intragável: a das iguarias gastronômicas ameaçadas pelas consequências do aquecimento global. Menos visível do que as grandes perdas agrícolas ou a alta no preço dos alimentos, esse é um efeito colateral das mudanças climáticas capaz de pôr em risco tradições que definem a identidade gastronômica de países inteiros. São itens cuja qualidade depende de um delicado equilíbrio entre temperatura, chuva, umidade e solo — um conjunto conhecido pelos especialistas como terroir. Embora o conceito seja mais associado aos vinhos, ele se aplica a muitas outras delícias, do parmesão a raízes delicadas como o wasabi e até peixes nobres.
Está-se falando de negócios estabelecidos com a premissa da constância do clima e que, sem ela, podem colapsar. O caso do parmigiano-reggiano é exemplar. “Não existe gastronomia, principalmente no norte da Itália, sem ele”, diz Rogério Fasano, presidente do Grupo Fasano e responsável por preservar o padrão de qualidade e o conceito gastronômico dos hotéis e restaurantes da marca. Mas as ondas de calor cada vez mais frequentes na Europa vêm tornando sua produção francamente desafiadora.
Elaborado no coração da Emilia-Romagna, o queijo tem seu apelo irresistível ligado ao altíssimo teor de umami — o quinto gosto básico do paladar humano, responsável por intensificar aromas, prolongar o sabor e estimular a salivação. O parmigiano passa por longo processo de maturação, que pode ultrapassar um ano, até adquirir as características que o transformam numa das mais importantes denominações de origem do mundo.
Um dos segredos do queijo é o leite. As vacas são alimentadas principalmente com feno produzido na própria região. Esse capim concentra açúcares, proteínas, óleos essenciais e uma microbiota específica, responsável por conferir compostos aromáticos únicos à matéria-prima. O calor prolongado que se estabeleceu como o “novo normal” do verão europeu, porém, altera o regime de chuvas e compromete a qualidade das pastagens. Muda também a composição nutricional do feno e, consequentemente, do leite e do queijo. Para minimizar o problema, os produtores italianos vêm investindo em irrigação, adaptação das forragens, sistemas de resfriamento dos rebanhos e manejo alimentar mais complexo, elevando significativamente os custos de produção e, por tabela, o preço da iguaria. No ano passado, o valor final do produto subiu 12,5%, fazendo o quilo custar até 13,22 euros.
Em regiões mais frias, como o Alasca, o impacto do aquecimento é ainda mais dramático e ameaça um dos peixes mais valorizados da gastronomia mundial: o salmão selvagem. Diferentemente do produzido em cativeiro, ele nasce em rios de água fria e cristalina, migra milhares de quilômetros rumo ao Oceano Pacífico e retorna ao local de origem para se reproduzir. Por isso, tem carne firme, pouco gordurosa e sabor intenso, marcas valorizadas pelos chefs. O aquecimento das águas reduz o oxigênio disponível, aumenta o estresse fisiológico dos peixes e altera a disponibilidade de alimentos. Em algumas espécies, como o salmão Chinook (King), a população se reduziu em 81% nas regiões mais críticas.
No Japão, o desafio é manter o cultivo do milenar wasabi, obtido da raiz da planta Eutrema japonicum, ingrediente indispensável no preparo do sushi e do sashimi. Ralado na hora, ele tem sabor picante que realça o frescor do peixe cru, além de reduzir a proliferação de bactérias. Como a planta depende de cursos de água extremamente limpos, frios e ricos em oxigênio, uma startup levou o cultivo para dentro de um ambiente controlado por sensores e inteligência de dados. A tecnologia mantém o terroir perfeito. “Não é só a agricultura que precisa de estabilidade: os negócios como um todo dependem dela”, diz Tim Lang, professor do Centro de Política Alimentar da Universidade de Londres. Como a volatilidade climática soa irrefreável, a tecnologia assume um papel que por séculos pertenceu à natureza. Isso torna as iguarias cada vez mais raras e caras — mas ao menos é um consolo para os paladares.
Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005







