Canetas emagrecedoras já afetam cardápios dos restaurantes? A opinião do dono do Le Cordon Bleu
André Cointreau confirma a tendência global impulsionada pela busca por saúde e menos tempo, exigindo adaptações rápidas dos restaurantes
Assíduos frequentadores de restaurantes de boa cozinha vêm percebendo a mudança. Há no menu porções cada vez mais diminutas – e olha que isso pode soar impossível diante das já exíguas quantidades de estabelecimentos da alta gastronomia. A grande razão por trás do ajuste tem nome: canetas emagrecedores, aquelas que viraram febre ao simular o funcionamento do hormônio que turbina a sensação de saciedade. As pessoas sentem menos fome, e chefs renomados precisam se mexer para atender ao apetite reduzido da clientela.
A questão ronda o mundo das panelas de cobre, no qual o francês André Cointreau, dono da famosa escola de culinária Le Cordon Bleu, está imerso. “Toda a lógica moderna leva à diminuição do que as pessoas consomem à mesa”, disse em rara entrevista exclusiva ue concedeu a VEJA sob a moldura do mar de Copacabana, no Rio de Janeiro.
Desde 1984 à frente do Cordon Bleu, Cointreau também reflete sobre os menus degustação, aquele festival de entradas, pratos principais e sobremesas em que, ao fim da refeição, não dá nem para saber quantos foram, tamanha a abundância. Eles terão que sofrer ajustes, diz. “Até mesmo a turma mais gourmet já não quer comer tanto: estar com a saúde em dia figura no topo das prioridades. E é preciso lembrar também que, com a vida apressada, sobra menos tempo para ritos tão demorados”, afirma.
Formado em uma escola de negócios, com passagens por multinacionais e cabeça voltada para os negócios, Cointreau, herdeiro da fabricante do licor que leva seu sobrenome, enfatiza que as casas que não acompanharem a atual revolução de hábitos terão menos estofo para sobreviver em um mercado já difícil. “As canetas emagrecedoras são uma onda global e, sim, há um foco agora em oferecer pratos cada vez menores. Quem pilota um restaurante deve estar atento aos novos ventos. E não dá para esperar: a pressão financeira exige mudanças rápidas”, frisa.
Restaurantes estrelados já começam a rezar pela nova cartilha, como o britânico The Fat Duck, dono de três estrelas Michelin, que lançou uma versão compacta de seu extenso menu degustação. Já os descolados Lulla, italiano de Nova York, e The Banc, mediterrâneo com endereços em Londres e Dubai, adotaram versões aperitivo de seus carros-chefe, tudo voltado para o público que já não aguenta consumir tanto. No Brasil, a pizza de brócolis com massa fina e ingredientes leves da Don Rafaelle, em Teresina, ganhou até o sugestivo apelido de “combo Mounjaro”.
Bom de garfo e apreciador da culinária do mundo todo, Cointreau diz ser um comensal consciente e criterioso. Em praias cariocas, porém, não escondeu seu especial apreço pela boa e velha caipirinha, que aproveitou à vontade. Afinal, não é toda hora que está por aqui.





