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Wimbledon: uma geração de ouro

Nunca houve uma rivalidade como esta. Novak Djokovic pode alcançar o recorde de Roger Federer e Rafael Nadal e consagrar de vez o Big Three do tênis

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 25 jun 2021, 12h04 - Publicado em 25 jun 2021, 06h00
ARTISTA - Rei da grama: aos 39 anos, Federer buscará nono troféu em Londres -
ARTISTA - Rei da grama: aos 39 anos, Federer buscará nono troféu em Londres – Salvatore Di Nolfi/EFE

No próximo dia 28, começa na grama sagrada do All England Lawn Tennis and Croquet Club, em Londres, aquela que promete ser uma edição épica de Wimbledon, o mais antigo torneio do circuito de tênis. A competição criada em 1877 teve de ser cancelada no ano passado — foi a primeira vez desde a II Guerra — em razão da pandemia de Covid-19. O retorno pode marcar uma façanha: o sérvio Novak Djokovic, de 34 anos, está a um título de igualar o recorde masculino de vinte troféus de Grand Slams, como são chamados os quatro torneios mais importantes da modalidade — o Aberto da Austrália, Roland Garros, US Open e Wimbledon. Os líderes nessa contagem são o suíço Roger Federer, 39 anos, e o espanhol Rafael Nadal, 35. O feito ganha especial relevância pelo fato de os três serem contemporâneos e estarem em atividade. Trata-se de um caso raro, se não inédito, de rivalidade em dose tripla pelo topo de um esporte.

NÚMERO 1 - Djokovic não para: o mais jovem do trio, o sérvio já acumula outros recordes -
NÚMERO 1 - Djokovic não para: o mais jovem do trio, o sérvio já acumula outros recordes – Yoan Valat/EFE

A competição estará desfalcada. Nadal abriu mão de disputar o torneio britânico e também a Olimpíada de Tóquio por questões físicas. “Tive de ouvir o corpo”, justificou o ídolo ibérico, que recentemente desperdiçou a chance de conquistar o pentacampeonato consecutivo de Roland Garros diante do próprio Djokovic. Federer, por sua vez, abriu mão da disputa em Paris justamente visando a seu Grand Slam favorito. A história do grupo batizado de Big Three (os três grandes) teve início em 2003, quando o suíço conquistou seu primeiro Wimbledon. Dos setenta Grand Slams disputados desde então, apenas doze (17,1%) não tiveram Djokovic, Federer ou Nadal como campeões. Quem mais se aproximou foram o britânico Andy Murray e o suíço Stan Wawrinka, ambos com três taças.

TOURO FERIDO - Desfalque: destronado em Roland Garros, Nadal abriu mão da disputa britânica -
TOURO FERIDO – Desfalque: destronado em Roland Garros, Nadal abriu mão da disputa britânica – Christophe Archambault/AFP

Djokovic, portanto, fez o que até pouco tempo atrás parecia impossível. Colou nas marcas dos mais badalados tenistas do século XXI e tem chances reais de superá-los, por ser o mais jovem e em forma. É o recorde que lhe falta na disputa particular. Em março, ultrapassou Federer e tornou-se o atleta com mais semanas seguidas na liderança do ranking mundial (atualmente, a marca está em 326). É também o único jogador a ganhar todos os chamados “grandes títulos” (Grand Slams, Masters 1000 e ATP Finals) e leva vantagem nos confrontos diretos (trinta a 28 sobre Nadal e 27 a 23 sobre Federer). Está, portanto, no centro do debate interminável — e sempre saboroso — sobre o maior de todos os tempos (ou GOAT, na sigla em inglês). “Os critérios e gostos podem variar, é difícil comparar gerações, mas não há mais como excluir Djokovic dessa discussão”, disse a VEJA o ex-tenista brasileiro Fernando Meligeni. “São três estilos distintos. Federer é mais habilidoso e agressivo. Nadal é intenso e aguerrido no fundo da quadra, enquanto Djokovic é um meio-termo dos dois.”

arte Tênis

A rivalidade das raquetes difere de outras que fizeram história no esporte, como Senna contra Prost na Fórmula 1 ou Jimmy Connors versus John McEnroe no tênis, mercuriais e plenas de animosidade. Há, agora, enorme camaradagem entre o trio. Nenhum deles chama para si o rótulo de melhor da história e, ao menos diante das câmeras, costumam trocar rasgados elogios e sorrisos nos eventos que promovem juntos. Isso não se deve apenas à personalidade afável, mas, sobretudo, à adequação a uma era de enorme profissionalismo e zelo com a própria imagem. Daí vem outra explicação para a longevidade do trio: o avanço da medicina esportiva e dos cuidados com a alimentação, segredo que mantém outras estrelas veteranas como Tom Brady e Cristiano Ronaldo no topo. O Big Three não durará muito mais tempo e outros talentos como Stefanos Tsitsipas e Alexander Zverev tentarão suprir essa lacuna. Até lá, desfrutemos desta mágica geração.

Publicado em VEJA de 30 de junho de 2021, edição nº 2744

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