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Vodu do bem

Por Sérgio Xavier 23 jun 2014, 07h41

Andei brincando de vodu por estes dias, confesso. E eram bonequinhos brasileiros, que espetei sem dó. Torci contra, na maior caradura. Na estreia, cravei no Neymar, nos nossos zagueiros, dei alfinetadas em quase toda a equipe. Meu desejo era que o time jogasse mal, que isso ficasse muito claro. Não precisava perder, afinal também não queria que o anfitrião da Copa fizesse um papelão logo no primeiro jogo. O Brasil podia até vencer, mas teria de ser na bacia das almas, e Neymar não poderia ser o protagonista.

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Não que eu seja um traidor da pátria, um black block futebolista. Pelo contrário, torço pelo hexa. Só que acredito em um único caminho para chegar ao título. Nada de asfalto nem atalhos. A estradinha do hexa é íngreme, cheia de curvas, tem alguns quebra-molas e muitos pedregulhos. Em Copa do Mundo, são raros os campeões que levantam a taça sem sobressaltos. É preciso sofrer. Times vencedores se fazem fortes durante a campanha. Acabam formando casca. E a primeira fase funciona como um laboratório de sofrimento. Por isso, torci por uma estreia bem ruim. Se possível, que começasse levando um gol da Croácia. Talvez tenha exagerado no vodu de Marcelo, gol contra já é demasiado cruel. Vamos em frente, agora já foi. Espetei uns três alfinetes em Neymar. Queria que ele sumisse do jogo, até para sacodir o resto da equipe e mostrar que seriam necessários outros protagonistas. Deu mais ou menos certo, Oscar foi o melhor da partida, só que Neymar dribla até a energia negativa. O moleque marcou dois dos três gols brasileiros.

Contra o México, segui torcendo contra. Queria mais dificuldades, de repente uma expulsão, tipo Ronaldinho Gaúcho contra a Inglaterra em 2002. Não teve cartão vermelho, mas pintou um 0 a 0. Decepcionante, portanto excelente. E vieram mais críticas, quase pintou uma vaia em Fortaleza, muito bom. Nesta segunda-feira tem Camarões pela frente. Agora começo a baixar a bola de meu vodu. É o último jogo antes do mata-mata. Hora de algumas coisas começarem a melhorar. O que quero? Uma vitória mais folgada, mas nada de jogar bem. De repente, um 3 a 1, com algum gol de Fred, para ele chegar à fase mais aguda da Copa acordadão. Paulinho, se entrar, poderia fazer uma partida melhor. E temos de levar um gol de contra-ataque. Para ficarmos espertos e não tomarmos bola nas costas contra Chile ou Holanda nas oitavas. E, quando chegar o mata-mata, mando os meus bonequinhos para o banco. Aí nem será preciso torcer por dificuldades, elas vão aparecer naturalmente. O vodu dará lugar ao pachequismo, a forma mais rudimentar de torcida. Contra Chile ou Holanda, o Brasil precisará ser melhor do que foi até agora. Uma primeira fase sofrida é sempre mais eficiente do que inícios arrasadores. O time campeão só chega ao pico de rendimento mais perto das finais. Nesse aspecto, parece que o Brasil está fazendo tudo direitinho.

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