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Virada de jogo

Antes trunfo exclusivo dos canais de televisão, as transmissões de eventos esportivos começam a ser acompanhadas pela internet

Uma a uma, de modo implacável e definitivo, quase todas as modalidades de entretenimento de massa foram sendo chacoalhadas pela internet — o cinema e a televisão, engolidos pela Netflix e por outros serviços de streaming; a indústria fonográfica, forçada a se reinventar com a criação do iTunes e, posteriormente, com o Spotify. Restava uma última fronteira, a das transmissões esportivas ao vivo, joias da coroa das emissoras de televisão. A novidade: o esporte também começa a ser aceleradamente sugado para dentro da internet. É movimento sem volta, em plena efervescência.

Quem estava habituado à onipresença de craques como Cristiano Ronaldo e Neymar nas emissoras de televisão aberta ou nos canais por assinatura pode ter estranhado o repentino sumiço. Os jogos de CR7 pela Juventus da Itália e de Neymar com a camisa do Paris Saint-Germain deixaram de ser exibidos no Brasil. O obstáculo: nenhum canal detém os direitos de transmissão dos campeonatos italiano e francês — algumas partidas esparsas já apareceram na RAI italiana ou na TV5 francesa, mas nos idiomas originais. Encontrá-los na grade é como procurar agulha no palheiro. Segundo algumas das emissoras ouvidas por VEJA, os valores solicitados pelos detentores dos direitos para renovar os contratos, nunca revelados, “foram muito altos, fora da realidade do país”. Além disso, no caso da liga francesa, pesou também a duração do acordo. Sem a certeza da permanência de Neymar no PSG, as TVs relutaram em firmar um acordo de três anos, como queria a BeIN, empresa que negocia as partidas da competição. Outro campeonato muito popular que sumiu da TV aberta foi a Liga dos Campeões da Europa, que até junho tinha jogos veiculados na Globo.

Quem, afinal, substituiu a emissora carioca na transmissão gratuita das partidas da Champions? O Facebook. A investida da empresa de Mark Zuckerberg foi ainda mais longe. Além de comprar os direitos de transmissão da Liga dos Campeões, a rede social adquiriu a autorização para exibir na América do Sul os jogos da Copa Libertadores. O acordo começa a valer em 2019 e envolve a transmissão de 46 partidas, 27 delas disputadas sempre em uma quinta-­feira, dia tradicionalmente morno, se comparado à quentíssima quarta-feira, repleta de partidas de futebol. “A porta de entrada para gerações mais novas é o conteúdo grátis”, disse a VEJA o inglês Peter Hutton, chefe de programação esportiva ao vivo do Facebook. “Ao oferecermos essas transmissões, queremos observar como esse grupo consome esporte e quais histórias ou narrativas mais o impactam.” Evidentemente, como não há almoço grátis, está em vista também a melhor forma de monetizar esse conteúdo, para usar um jargão do universo digital, seja com anúncios, seja com patrocinadores. A Amazon, que recentemente comprou os direitos de partidas do Campeonato Inglês de futebol (um dos mais caros do mundo), está usando sua plataforma de streaming, o Prime Video, para angariar mais assinantes. Entrega esporte para ganhar corpo em outros setores, como o do e-commerce.

O sucesso e o rápido crescimento das disputas acompanhadas pela internet impõem uma questão: será, então, o fim da televisão como plataforma preferencial do esporte? O risco da TV aberta é pequeníssimo e ainda remoto. Mas os dias da TV a cabo estão, sim, contados. Segundo a Anatel, as empresas de TV por assinatura perderam 426 000 assinantes nos últimos doze meses — existem atualmente 17,7 milhões de contratos ativos no Brasil. Em contraponto, o porcentual de domicílios no país com acesso à internet só aumenta: hoje está em 61%. Isso não significa, porém, que os canais voltados exclusivamente para o esporte desaparecerão. Muitos já estão se preparando para a nova realidade, migrando seu conteúdo para a internet.

O Esporte Interativo, que divide com o Facebook os direitos da Liga dos Campeões, fechou seus canais na TV paga para se devotar exclusivamente a um serviço pago de streaming. A Globosat passou a oferecer diretamente ao cliente, sem o intermédio de uma operadora de TV, dois de seus canais: o Combate, dedicado às lutas marciais, especialmente o UFC, e o Premiere, que exibe os jogos dos clubes brasileiros de futebol. Nos Estados Unidos, a ESPN já disponibiliza plano semelhante para seus telespectadores — no Brasil, contudo, sua plataforma de streaming, o WatchESPN, é exclusividade de quem ainda assina o canal na TV a cabo tradicional.

O fenômeno de migração para a internet ganhará ainda mais tração com a entrada em cena das operadoras de telefonia celular. Nos Estados Unidos, já é uma realidade. No Brasil, algumas empresas começam a oferecer conteúdo esportivo. A TIM inclui o EI Plus em certos pacotes. A Vivo oferece as plataformas de streaming oficial das ligas americanas de basquete (NBA League Pass) e de futebol americano (NFL Game Pass). “Não somos concorrentes do mercado de direitos de transmissão, atuamos como parceiros das ligas”, diz Dante Compagno, diretor de marketing da Vivo. Somente os usuários do League Pass puderam assistir à estreia de LeBron James pelo Los Angeles Lakers. “A tendência de consumo de vídeo pela internet é inexorável”, diz Compagno. A antiga ideia de televisão logo será coisa do passado.


UM QUARTO DO BRASILEIRÃO DE 2019 PODE SUMIR DA TV

PALMEIRAS x CORINTHIANS - Jogo fantasma?

PALMEIRAS x CORINTHIANS - Jogo fantasma? (Anderson Rodrigues/ag f8/Estadão Conteúdo)

Os dois jogos entre Corinthians e Palmeiras válidos pelo Campeonato Brasileiro do ano que vem correm o risco de ser vistos apenas por aqueles que estiverem sentados nas arquibancadas. Soa absurdo, mas, dadas as particularidades da Lei Pelé, que rege o futebol no Brasil, é o que pode acontecer. De acordo com o texto, os direitos de transmissão pertencem aos dois times envolvidos na disputa. Portanto, quem deseja exibi-la deve firmar contrato com as duas equipes. Isso, é claro, exclui os acordos coletivos, nos quais os participantes de uma competição cedem os direitos ao organizador, caso da Copa Libertadores, por exemplo.

Qual é a atual jabuticaba, a novidade que levou à insólita situação? Desde 2011, quando os clubes passaram a negociar individualmente o acordo com a televisão, não houve conflito, pois todos assinaram com a mesma emissora, a Globo, em todas as plataformas possíveis: TV aberta, fechada, pay-per-view e digital. Nas próximas seis temporadas, contudo, dezessete clubes — entre eles sete times da Série A — já venderam a exibição de seus jogos na TV a cabo a outro canal, o Esporte Interativo, que ofereceu proposta nove vezes superior à da Globo. O Palmeiras é um deles. Tem acordo com o EI para TV fechada, mas ainda não acertou com nenhuma TV aberta nem pay–per-view. Já o Corinthians vendeu todos seus direitos à Globo. Atlético–PR e Bahia também estão com contratos ainda sem assinatura. Tudo somado, estima-se que, em 2019, 102 das 380 partidas do Campeonato Brasileiro talvez não sejam transmitidas pela TV.

Publicado em VEJA de 7 de novembro de 2018, edição nº 2607