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Vinicius Junior: ‘Nunca vou perder o meu jeito alegre’

Outro dia mesmo ele empinava pipa em São Gonçalo; hoje, é apontado como o futuro do Real Madrid e da seleção brasileira

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 3 Jan 2020, 14h25 - Publicado em 3 Jan 2020, 06h00
“METELI O GOLI” - O ex-jogador do Flamengo: em seu novo clube, perdoam-lhe até quando ele pisa na bola do idioma
“METELI O GOLI” - O ex-jogador do Flamengo: em seu novo clube, perdoam-lhe até quando ele pisa na bola do idioma ./.

O esporte, mais particularmente o futebol, talvez seja a atividade que faça brotar prodígios com maior frequência — não é raro ver craques que mal saíram da puberdade ser arrancados do anonimato depois de descobertos pelos chamados “olheiros”. O caso do ponta-esquerda carioca Vinicius Junior, contudo, é diferente. A família e os profissionais do Flamengo sabiam desde o início estar lapidando um diamante que antes mesmo dos 20 anos brilharia intensamente. O despretensioso garoto que ainda outro dia corria atrás de uma pipa em Porto do Rosa, bairro humilde de São Gonçalo, município situado na região metropolitana do Rio, já tinha traçado a linha que o levaria ao impecável gramado do Estádio Santiago Bernabéu, casa do Real Madrid, o clube mais vencedor da história. O elo comum a ligar as duas pontas: o largo sorriso. A naturalidade, porém, é fachada. “Pareço estar sempre calmo, mas por dentro fico muito nervoso. Na minha estreia pelo Flamengo, por exemplo, estava morrendo de medo. Não queria nem tocar na bola”, disse ele a VEJA. A confissão, genuína, é indício de sua personalidade autêntica. Vinicius se declara herdeiro da filosofia “ousadia e alegria”, expressão cunhada por Neymar quando o craque do Paris Saint-Germain ainda jogava pelo Santos e tinha mais ou menos a mesma idade da promessa criada nas categorias de base do rubro-negro carioca. “Sou assim e nunca vou perder o meu jeito alegre”, garante.

Vinicius sabe rir até das próprias gafes, como na vez em que acabou escorregando no espanhol e inventou uma expressão — “meteli o goli” — em uma de suas primeiras entrevistas em espanhol com a camisa do Real Madrid (ele assegura ter feito um ano de aulas particulares para não pisar na bola novamente). Ou na sua versão desafinada da música Atrasadinha, que viralizou na internet. Aliás, como a maioria dos jovens de sua geração, Vinicius é ultraconectado. Vê-lo em selfies é autorretrato comum, quase invariavelmente com a língua de fora. “Estou sempre de olho nas redes sociais, e eu mesmo controlo a minha conta.” Ele tem mais de 8 milhões de seguidores no Instagram e recentemente inaugurou um canal no YouTube em que interage com os fãs e até já desembrulhou um videogame que ganhou de presente, no melhor estilo blogueira de moda. “É legal jogar comigo mesmo, acho que sou até melhor no game do que na vida real”, brinca. Vinicius também conseguiu contratos com grifes e fez ponta de modelo, no entanto jura não perseguir a condição de pop star: “Deixo que as coisas aconteçam naturalmente”.

Zidane, ídolo do time espanhol e o atual técnico da equipe, garante que o craque tem sua total confiança

Natural mesmo foi o caminho de Vinicius dentro do futebol. Seu contato com o Flamengo começou aos 5 anos, quando ele se matriculou em uma escolinha franqueada. Aos 10, foi levado para as categorias de base do rubro-negro, e fez sua estreia pelo time profissional aos 16 anos e 10 meses. Bastou apenas mais uma partida entre os adultos — além do desempenho nas seleções de base — para que o Real Madrid adquirisse seu passe. Os 45 milhões de euros desembolsados pelos espanhóis foram a segunda mais alta quantia já paga por um jogador que atuava no futebol brasileiro, atrás apenas da ida de Neymar do Santos para o Barcelona.

Embora ajude a conquistar a simpatia da torcida, o sorriso não é garantia de sucesso na Europa. Haverá muita pressão, demais para tão pouca idade. “O (late­ral brasileiro) Marcelo já havia me avisado: aqui, num dia você é o Pelé. No outro, não joga nada”, relata Vinicius. Em um clube que ainda busca suprir a ausência de Cristiano Ronaldo, o atacante brasileiro dispõe de rara oportunidade. “Vinicius tem a minha máxima confiança e é o futuro do Real Madrid”, afirma o francês Zinedine Zidane, ídolo como jogador e o atual treinador da equipe. Se triunfar no futebol mais concorrido do planeta, Vinicius será forte concorrente para assumir o posto de grande craque da seleção, já que a carreira de Neymar caminha para sua metade final. O ano de 2020 vai ser vital para o menino bom de bola, com os jogos do Real e os das eliminatórias da Copa do Catar.

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Publicado em VEJA de 8 de janeiro de 2020, edição nº 2668

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