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Veteranas temem pelo futuro do futebol feminino

Cristiane e Formiga criticaram a falta de apoio à modalidade no Brasil. Técnico Vadão ainda ressaltou os perigos da falta de renovação na equipe

O filme se repete a cada quatro anos ou um pouco menos. Depois de cada boa campanha da seleção feminina, especula-se os motivos para a modalidade não decolar no Brasil. Machismo? Desinteresse? Falta de iniciativa dos políticos e dirigentes? Vários fatores convergem para o mesmo cenário. E depois de uma dolorosa derrota, diante da Suécia, na semifinal da Rio-2016 no Maracanã, as principais atletas brasileiras e o treinador Oswaldo Alvarez, o Vadão, já admitem desânimo.

Maior artilheira da história da Olimpíada (entre homens e mulheres) com 14 gols, a atacante Cristiane foi dura ao falar sobre a falta de apoio à modalidade e às eternas promessas de dirigentes. “Eu não sei nem se com a medalha de ouro o futebol feminino mudaria. No Brasil, a gente tem essa coisa de só valorizar o título. Tivemos três medalhas de prata, duas olímpicas e uma na Copa do Mundo, e não aconteceu nada. (…) Não se pode só ajudar a modalidade quando ganha”, disse a atleta do Paris Saint-Germain, da França.

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Cristiane listou alguns fatores que impedem o desenvolvimento da modalidade e afirmou que o apoio dado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) – que criou uma seleção permanente em 2015, nos moldes do que é feito nas potências mundiais – ainda é muito pouco.

“O futebol feminino não faz parte da nossa cultura. Não tem nas escolas, nas escolinhas, não é como nos Estados Unidos onde as crianças dormem e acordam pensando em futebol. Espero que não só a CBF continue com o projeto, mas as confederações, que eles tenham essa vontade de investir. E não adianta ser um mês antes da Olimpíada, porque não dá para fazer milagre.”

Renovação – O técnico Vadão, que tem contrato até o fim da Olimpíada e diz que aguarda contato dos dirigentes para definir seu futuro, ressaltou um fator importante: a ausência de reposição para as veteranas como Marta, Formiga e Cristiane. “Nós estamos num momento de transição, com atletas importantes quase que encerrando seus ciclos e nossa reposição é muita lenta. Se não tomarmos uma providência agora, teremos uma lacuna de cinco a dez anos sem reposição adequada.”

Na sequência, Vadão defendeu quem paga seu salário. “Tudo que está nas mãos da CBF vai continuar. Nossa dúvida é se haverá apoio em outros órgãos, como governos, prefeituras, escolas, a estrutura. A CBF é o final da história, ela só seleciona os atletas. O que desenvolve as atletas são os clubes, as escolas, como em outros países. No Brasil, a menina de oito anos não quer jogar futebol. Se quiser, vai ter que fazer escolinha no meio de homens.”

A sueca Sofia Jakobsson disputa jogada com a brasileira Formiga Formiga, 38 anos, disse que deixará a seleção brasileira no fim do ano e acredita que a seleção precisa se renovar

Formiga, 38 anos, disse que deixará a seleção brasileira no fim do ano e acredita que a seleção precisa se renovar (Buda Mendes/Getty Images)

Jogadora mais ovacionada pela torcida no Maracanã nesta terça-feira, Formiga, de 38 anos, concorda que é preciso renovar a seleção. “Acredito que se houvesse um trabalho de base, poderíamos ter uma safra boa. Infelizmente, não vou ficar aqui para sempre, a Cristiane e a Marta também não. Isso só prova que precisamos dar mais atenção ao futebol feminino para acelerar esse processo, porque as outras seleções se renovaram e a gente ainda está muito devagar.”

Formiga disse que jogará pela seleção permanente até dezembro, quando se encerra seu contrato, e que pretende jogar futebol por mais dois anos, mas longe da seleção. Cristiane, de 31 anos, e Marta, de 30, evitaram falar sobre aposentadoria da equipe nacional. “Não sei, não quero pensar nisso não. Vamos buscar a medalha de bronze agora e curtir a família. Vou deixar para pensar depois”, disse Cristiane.

“Eu não consigo pensar em nada agora”, despistou Marta, a grande estrela da equipe, que terá 34 anos nos Jogos de Tóquio-2020. Vice-campeã olímpica em Atenas-2004 e Pequim-2008, Marta disse que perder em casa foi uma grande decepção. “A gente não quer decepcionar o povo que vem apoiando o futebol feminino. Acredito que eles também sabem o quanto a gente batalha e puderam perceber o quanto a gente se entregou esse tempo todo. Vamos continuar assim, a gente tem a chance de subir nesse pódio.”

 

Comentários

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  1. Não é machismo. Simplesmente, falta ao futebol feminino alguém que faça como o Havelange e transforme a modalidade em negócio. Ok, pode ser alguém mais honesto que o Havelange.

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