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Veronica Hipólito, em busca do ouro paralímpico no atletismo

Prata e bronze na Paralimpíada da Rio-2016, a atleta de 22 anos teve de fazer uma cirurgia no cérebro e luta para chegar aos Jogos de Tóquio

“Vai, Magrela! Vai, Magrela!” O apelido dado por amigos ecoou no Estádio Olímpico e embalou a franzina Veronica Hipólito na conquista de duas medalhas nos Jogos Paralímpicos na Rio-2016 – prata nos 100m e bronze nos 400m, classe T38, para atletas com paralisia cerebral. Os braços e pernas finos eram atípicos em uma atleta de provas curtas no atletismo, mas não impediram que a atleta de São Bernardo do Campo chegasse aos pódios. A história de Veronica já contava com um tumor no cérebro, um AVC, a retirada de 90% do intestino grosso e um novo capítulo em 2018.

Um novo tumor no cérebro fez com que  passasse por uma cirurgia de risco em maio do ano passado e por mais um processo de recuperação, longo, com diversas outras doenças decorrentes da baixa imunidade. A corredora voltou à rotina atlética no Centro de Treinamento do Comitê Paralímpico Brasileiro, em São Paulo, no final do ano passado.

Hoje com 22 anos, passou por tratamentos e ganhou 15 quilos. O corpo magro ficou no passado e Veronica teve dificuldades para se aceitar nos primeiros meses. Agora, usa a sua história para motivar outras pessoas e (literalmente) corre contra o tempo para se classificar para os Jogos de Tóquio-2020. Seu sonho: ser campeã paralímpica.

Como define o ano de 2018? Começou de uma forma chata. Descobri que estava novamente com um tumor no cérebro. O maior dos três que já tive. Fiquei me perguntando porque aquilo estava acontecendo. Por que de novo? Muita gente me disse que cada um carrega a cruz que aguenta. Mas não aguentava mais.

Qual o peso dessa cruz? Tive um AVC em 2009 e fiquei com o lado direito do corpo paralisado. Foi por isso que entrei no atletismo, para voltar a andar. Em 2015, meses antes da Paralimpíada do Rio, descobri que estava com uma doença rara chamada Polipose Adenomatosa Familiar e tive de retirar 90% do intestino grosso. Isso tudo não me impediu de ganhar duas medalhas. Não dá para ficar num canto chorando, reclamando o tempo todo. Não era agora que ia fazer isso.

Quando fez a cirurgia? Maio. Tinha de operar, porque o tumor estava muito grande e estava afetando a visão. O dia chegou e foi tudo muito engraçado. Meus pais e meu namorado conversando comigo, brincando, rindo. Era um sinal de que a cirurgia seria simples e sairia de lá maravilhosa, linda, melhor do que antes. Em três dias estaria bem e ponto final.

E acordou maravilhosa? Quando retomei a consciência, me senti muito quebrada, como se tivesse tomado uma surra. Fiquei com o corpo assado e tive muita dor nas costas. Era só fraqueza do corpo por causa da cirurgia, mas quando acontecem várias coisas ruins em sequência, a tendência é que uma coisa mínima pareça muito pior do que realmente é.

Como foi a recuperação? Fiquei oito dias na UTI antes de ir para o quarto e receber alta. Minha imunidade estava muito baixa e contraí outras doenças. Quase tive de operar a perna, o que praticamente me impediria de voltar aos treinamentos. Não tenho o costume de orar, mas pedi só por uma chance… Deu certo. O medicamento fez efeito.

Como foi a volta aos treinamentos? Algumas pessoas dizem que não sabiam se voltaria a correr. Muitos ainda acham que não vou dar conta. Amadureci muito em 2018 e não sou o tipo de pessoa que larga o osso.

Já voltou a fazer todas as atividades? Comecei em agosto, mas parei por causa de uma infecção no rosto. Voltei de novo em outubro, mas ainda é um treino de fisioterapia, para me recuperar, não um de alto rendimento. No fim de novembro, comecinho de dezembro, tive de parar de novo por um problema na perna.

Continua tomando algum medicamento? Tive de usar diversos remédios, incluindo corticoides, e meu peso aumentou em mais de 15 quilos. Não estava aceitando meu novo corpo. Fazia piada comigo mesma para me proteger, antes que alguém me deixasse magoada.

E publicou uma foto no Instagram mostrando a barriga e disse que agora aceitava o novo corpo. Com o tempo, percebi que, se não me aceitasse, não ia entender minhas dores nas costas quando começava a correr, ou porque estava saltando tão baixo, ou que precisava comprar roupas maiores. Meu namorado me disse que pelo menos agora iria ganhar mais massa muscular. Tinha um sério problema com a alimentação e agora como melhor, até brócolis, algo que nunca pensei em colocar na boca.

A publicação fez sucesso. Acredita que inspirou as pessoas de alguma forma? Antes de postar fiquei pensando: “Será que tem gente passando pelo mesmo que eu?” Um dia, terminou o treino e estava pingando de suor. Olhei para o espelho e pensei que as minhas bochechas estavam bonitinhas. Olhei para a minha barriga e pensei que daria um belo travesseiro… Peguei o celular e tirei uma foto. Era só para mim, para postar a foto quando emagrecesse. Quando cheguei em casa, percebi que estava me aceitando, mas que talvez muitas pessoas não se aceitem. Então resolvi mostrar. Também pensei que muita gente gostaria de perguntar o que aconteceu, se havia desistido de correr. Então postei para explicar.

Onde encontra forças para continuar? Nos meus pais. Eles sempre fizeram tudo por mim, sem reclamar e sem ficarem tristes em nenhum momento. Espero que ninguém tenha de passar por tudo isso para falar que ama os pais. Comecei a falar de forma muito mais fácil que os amo.

Acredita que estará nos próximos Jogos? O ano de 2019 vai ser muito difícil, porque estou dois anos sem treinar direito. Estou atrás de todas as minhas adversárias. Aceitei meu corpo e minha condição. Hoje não trabalho com a possibilidade de não ir para Tóquio. Posso até não ir para o Parapan-Americanos ou para o Mundial esse ano, mas o que quero mesmo é ser campeã paralímpica. Tudo ainda é uma grande dúvida e não sou o tipo de pessoa que desiste. Se quiserem ganhar de mim, vão ter de correr com mais vontade que eu.