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Vamos vencer o jogo do esporte levado a sério

A atividade física é a peça-chave do projeto de futuro de qualquer nação. É preciso tratá-la, portanto, com mais seriedade e transparência

Por Daniela Castro e Gustavo Borges* Atualizado em 11 out 2019, 10h44 - Publicado em 11 out 2019, 06h00

O esporte brasileiro não está dissociado dos desafios e dos avanços que acontecem no país. Para o bem ou para o mal. A condenação em primeira instância por desvios de recursos públicos de dirigentes de longa data da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) é mais uma notícia ruim. Mas o Brasil anda menos tolerante a conquistas obtidas a partir de desvios de conduta ou de corrupção. No esporte, felizmente, estamos caminhando para um processo importante de mobilização de diversos stakeholders ligados a essa área. Ainda há muito a evoluir. Mas existem avanços inegáveis.

O esporte nacional de alto rendimento funciona sob um guarda-chuva de confederações, federações e clubes. A maioria das entidades depende do setor público para sobreviver. Isso acontece por meio de leis, como a Agnelo Piva, que lhes destina parte da arrecadação das loterias, bem como dos repasses diretos feitos pelo Executivo e pelo patrocínio de empresas estatais. Em 2013, a Atletas pelo Brasil, uma entidade sem fins lucrativos e composta de diversos ídolos do esporte nacional, iniciou uma união do setor e atuou fortemente pela aprovação do artigo 18-A da Lei Pelé. Esse aditivo estabelece mecanismos de gestão, governança e integridade para recebimento de recursos públicos pelas entidades esportivas. Naquela ocasião, foram alteradas as exigências do então Ministério do Esporte (hoje rebaixado ao status de secretaria dentro da pasta da Cidadania) em relação às entidades esportivas. Para continuarem recebendo os aportes públicos, essas instituições tiveram de realizar uma série de mudanças, entre elas limite de mandato de seus dirigentes, prestação de contas e transparência. O processo já está trazendo melhorias para as organizações, e esse movimento que vem acontecendo no esporte fez emergir diversos casos de desvio de conduta, como o da CBDA.

Um segundo passo, ocorrido pouco depois da aprovação do artigo 18-A, foi dado por iniciativa daqueles que, em nossa visão, têm a possibilidade de mudar o esporte de alto rendimento por meio de seu investimento: as empresas do setor privado. Desde 2015 está em vigor o chamado Pacto pelo Esporte, um acordo privado no qual as empresas incentivam e condicionam os seus patrocínios a melhorias da gestão, governança e transparência das entidades esportivas. Hoje, o pacto conta com mais de trinta empresas signatárias, algumas delas concorrentes em seus setores. O grande objetivo é a melhoria do ambiente esportivo, que culminará no aumento dos investimentos privados para as modalidades. Para alcançarmos tais metas, lançaremos no próximo dia 23 os resultados do Rating Integra, que trará um primeiro panorama da real situação das entidades esportivas a partir da avaliação de vinte itens, como “prestação de contas para o governo”, “transparência das regras” e “políticas, normas e controles internos”. Além da Atletas pelo Brasil, foram responsáveis por sua criação o próprio Comitê Olímpico do Brasil (COB), o Comitê Paralímpico Brasileiro e o Instituto Ethos. A proposta é que o Rating sirva para o setor público e privado, de modo que as entidades sigam os mesmos parâmetros para receber patrocínios tanto de empresas quanto do governo.

“O país ainda aguarda um plano de metas e diretrizes para as políticas públicas no setor”

O esporte de alto rendimento é uma paixão nacional e fonte de inspiração de valores para pessoas de todas as idades. Portanto, devemos cuidar com mais seriedade e responsabilidade da gestão das entidades. O esporte não é um assunto meramente comercial. Nossas seleções levam na camisa as cores do Brasil, representando-nos nos grandes eventos esportivos. Por esse motivo, atletas, empresas, governos e entidades devem se unir para apoiar a melhoria do setor. Já como política pública, o esporte é ferramenta importante para o desenvolvimento. Ele afeta de maneira positiva o índice de desenvolvimento das cidades, gerando ganhos sociais e econômicos com a ocupação adequada de espaços públicos, atividades para todas as idades e maior convivência, deixando as comunidades mais acolhedoras e ativas. Mais do que isso, traz consigo uma série de valores que ajudam a formar cidadãos: perseverança, resiliência, esforço, foco, espírito de equipe — são habilidades emocionais que terão impacto para toda a vida, como vários estudos comprovam. Por isso, o recurso público no esporte deve ser usado, prioritariamente, para o bem de todos.

No entanto, desde a extinção do Ministério do Esporte, o país ainda aguarda um plano de metas e diretrizes para as políticas públicas no setor. Sabemos a importância da pauta econômica, mas a área social deve andar junto. Deve, inclusive, ser tratada com o mesmo empenho pelos governantes, com metas bem definidas. As áreas sociais são estruturantes, com resultados de longo prazo, mas são elas que gerarão ou resolverão problemas futuros. O amanhã depende de planejamento. Percebemos os efeitos nocivos da falta de visão a longo prazo e da escolha equivocada de prioridades quando vemos os nossos resultados frustrantes na área da educação, por exemplo.

O esporte também precisa ser planejado hoje pensando-se no Brasil de amanhã. No Brasil de agora, há problemas graves em decorrência da obesidade e da inatividade física. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), de 2015, apenas 34,4% dos alunos do 9º ano praticaram cinco horas ou mais de atividade física ou esportiva acumulada nos sete dias anteriores à sondagem. Já o levantamento Vigitel, de 2016, mostra que a obesidade na idade adulta cresceu 60% em dez anos, atingindo 18,9% da população. Atualmente, mais da metade dos brasileiros adultos está acima do peso. Fala-se inclusive de analfabetismo motor em crianças. Um jovem sedentário tem grande probabilidade de se tornar um adulto com o mesmo padrão e, por consequência, mais sujeito a uma série de doenças. Não temos professores de educação física em quantidade suficiente, e a matéria não é valorizada. Além disso, faltam espaços adequados para a prática. Segundo o Censo Escolar de 2018, em apenas 33,3% das escolas públicas há quadras. Por tudo isso, investir no esporte é investir no país. Trata-se de um setor importante que precisa ser entendido como ponto de apoio estratégico para o desenvolvimento da nação e cujo patrimônio pertence não só aos atletas e a quem trabalha com atividade esportiva, mas a todos os brasileiros e brasileiras.

* Daniela Castro, diretora executiva do Pacto pelo Esporte, foi secretária de Esportes da cidade de São Paulo. Gustavo Borges, dono de quatro medalhas olímpicas na natação, é um dos associados da Atletas pelo Brasil

Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2019, edição nº 2656

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