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Vamos desamarelar?

Vamos falar claro: a seleção está amarelando sob a pressão de disputar uma Copa em casa

Ganha um Fuleco de pelúcia autografado pelo reserva de Fred quem se lembrar de outra Copa do Mundo em que a seleção tenha apresentado futebol tão inconsistente, travado, assustadiço

É difícil acrescentar alguma coisa ao extenso levantamento dos defeitos da seleção brasileira que tem sido feito por críticos profissionais e simples torcedores desde que, contra o Chile, o time de Luiz Felipe Scolari demonstrou que não apenas não está “evoluindo dentro da competição” – para usar um chavão que os treinadores apreciam – como vem se desmilinguindo cada vez mais.

Enumerar as escassas qualidades da equipe é mais fácil. Temos goleiro? Temos, viva! Temos um camisa 10? Um dos melhores do mundo, pelo menos até que a deslealdade dos adversários o incapacite para exercer sua arte, como ocorreu logo no princípio da partida de sábado. Mas é só. Entre as virtudes que não temos, o meio de campo é a falta mais sentida, mas o problema parece ser maior do que a soma das partes ausentes. Emocionalmente descontrolada, taticamente confusa e, o mais espantoso, tecnicamente deficitária, tudo indica que a jovem equipe de amarelo – vamos falar claro – está amarelando sob a pressão de disputar uma Copa em casa.

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Terá conserto? Tomara que sim, embora pareça improvável que os necessários apertos de parafuso e trocas de peças possam ser feitos em prazo tão curto por um treinador que, na tentativa de mudar os rumos da partida contra o Chile, foi capaz de apostar suas fichas num jogador como Jô (!). A situação é grave e parece exigir medidas extremas.

Ganha um Fuleco de pelúcia autografado pelo reserva de Fred quem se lembrar de outra Copa do Mundo em que a seleção tenha apresentado futebol tão inconsistente, travado, assustadiço – em suma, tão incompatível com a tradição gloriosa da amarelinha. Certo, em 1990 a equipe treinada por Sebastião Lazaroni tinha menos talentos individuais, jogava de forma medíocre e foi eliminada pela Argentina nas oitavas de final. Mas não, não colecionava micos como um jardim zoológico de província.

Nesse ritmo, já há quem receie ver a boa Colômbia vencer por W.O., na sexta-feira, o árbitro aguardando o tempo regulamentar no centro do campo e sendo enfim avisado pelo representante da CBF de que o Brasil não vai jogar porque o time se trancou no vestiário, chorando convulsivamente. Chorando de emoção antecipada com o hino, mas também de medo de James Rodríguez. Ou de medo da torcida. Ou de medo de errar – um medo que, como disse o humorista inglês John Cleese em frase memorável, é o que existe de mais letal para a criatividade.

Quem diria, um mês atrás, que a Copa em si seria um sucesso, mas a seleção, uma bagunça? Pois essa imprevisibilidade absoluta do futebol é, por incrível que pareça, a principal esperança do torcedor agora. Se o futuro é tão indecifrável, por que nosso time não poderia, em poucos dias, finalmente crescer, chegar à idade adulta e compreender que o Brasil não se tornou pentacampeão do mundo por acaso? A eliminação estará sempre no horizonte, claro. Ninguém vai morrer por causa disso. Todo mundo quer o hexa, mas perder de cabeça erguida e jogando futebol, como fez ontem o México antes de ser abatido pela covardia de seu treinador, será mais digno da nossa história do que ganhar jogando bulhufas.

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