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Vai faltar pressão

Como país-sede, o Brasil está dispensado das eliminatórias. Será bom para evitar desgastes desnecessários — mas há o risco de faltar tarimba de competição aos jogadores mais jovens

Por Paulo Jebaili 30 jul 2011, 01h26

Ao ser eleito o país-sede da Copa do Mundo, o Brasil estava também dispensado de jogar as eliminatórias. Tal condição livrará a seleção do desgaste de uma disputa de mais de dois anos, com deslocamentos pelo continente, jogos na altitude, gramados ruins e estádios acanhados, entre outros obstáculos. No entanto, eis um problema: o time reduzirá o número de jogos competitivos em sua preparação até 2014.

A situação piora quando nem essas oportunidades são aproveitadas. o fiasco na Copa América e a eliminação precoce baixaram para nove o número máximo de jogos oficiais da seleção (contando aí a Copa das Confederações). “Partidas oficiais ajudam na preparação, mas isso é muito pouco, tem de ser complementado com amistosos de grande nível”, diz Carlos Alberto Parreira, treinador que já viveu as duas situações. disputou as eliminatórias com o Brasil e com outras seleções e ficou fora dessa obrigação às vésperas de 2010, quando comandou a anfitriã África do Sul.

Além de intensificar a agenda de amistosos da seleção sul-africana, Parreira fez questão de que um jogo da fase final de preparação ocorresse no estádio em que a equipe faria a partida inaugural. “Arrumamos um amistoso com a Colômbia, ao qual foram quase Como país-sede, o Brasil está dispensado das eliminatórias. Será bom para evitar desgastes desnecessários – mas há o risco de faltar tarimba de competição aos jogadores mais jovens 100 000 pessoas, um clima de Copa mesmo”, lembra. “então, na estreia, aquele impacto já não existia.”

Enfileirar amistosos, portanto, é o único caminho para o Brasil, de modo a manter a cobrança necessária aos vitoriosos. “Em 1973, fizemos uma excursão para dez amistosos”, afirma o ex-jogador Paulo Cézar Caju, que atuou nas eliminatórias para as Copas de 1970 e de 1978 e ficou “de folga” para a de 1974, por ter sido campeão na edição anterior (regra que vigorou até 2002). Foram 38 dias, em que o Brasil enfrentou equipes de todos os portes. o ex-ponta considera os amistosos com seleções de bom nível mais proveitosos do que as próprias competições oficiais.

Deve-se considerar que, no aspecto técnico, as eliminatórias também não representariam ganho significativo na preparação do time. Resultados recentes mostram que o futebol apresentado na fase classificatória não é indicativo do desempenho na Copa. Nos dois últimos títulos do Brasil, em 1994 e 2002, por exemplo, a vaga só foi garantida na rodada final. Já para a Copa de 2010, o time foi muito bem nas eliminatórias, mas viu o sonho do hexa naufragar nas quartas de final, contra a Holanda.

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A questão fundamental é como preparar jogadores com pouca rodagem, que ocupam posições-chave, para uma Copa disputada em casa. “Seria fundamental para Ganso, Neymar e Lucas encarar as eliminatórias”, diz Parreira. “Há relevância em jogar na Argentina, no Uruguai, no Paraguai, onde as partidas são uma guerra.” Uma fase preparatória oficial ajudaria os mais jovens a adquirir aquilo que só se conquista em torneio: a confiança. “Eles precisam estar preparados, porque vai ser uma pressão absurda”, afirma Parreira. “Imagine o Brasil perder uma segunda Copa em casa. Não é mole conviver com isso.”

Das equipes de ponta, a seleção brasileira é a única que não conquistou o título em seu território. Uruguai (em 1930), Itália (1934), Inglaterra (1966), Alemanha (1974), Argentina (1978) e França (1998) venceram em seu domínio. Ressalve-se que a Itália, em 1990, e a Alemanha, em 2006, ficaram pelo caminho na segunda vez que sediaram a competição. e que a Espanha, em 1982, era uma força mediana.

Os poucos jogos oficiais até a Copa parecem não preocupar o técnico da seleção, Mano Menezes. Ele cita o recente êxito de Neymar e Ganso no Santos. “Não faltou espírito competitivo para eles conquistarem a libertadores na hora da decisão”, argumenta Mano, que vê o tempo como aliado na preparação dos atletas. “É preciso ter um pouco de calma. Não é assim, todo mundo chegar e resolver todos os problemas da seleção. Nós temos de jogar e fazer com que eles amadureçam. e, em seus clubes, eles mesmos vão se desenvolver mais.”

Na ausência de uma competição eliminatória, aposta-se em amistosos com grandes adversários. “Mesmo correndo o risco, é preciso jogar com Alemanha, França, Argentina e Espanha”, diz Mano. “Nessas partidas, os jogadores são forçados a se expor, e só assim sabem qual é o nível que temos de alcançar.” Na agenda da seleção, estão programados amistosos com a Alemanha, em agosto, dois com a Argentina, em setembro, e, provavelmente, com a Espanha, em outubro, e a Itália, em novembro.

Colaborou Rodolfo Rodrigues

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