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Vai à Olimpíada do Rio assistir ao tiro com arco? Compre um binóculo…

... Caso contrário vai ficar como a reportagem de VEJA nas disputas desta quinta-feira nos Jogos Pan-Americanos em Toronto: sem enxergar nada

Existem algumas modalidades esportivas que deveriam vir com um selo gigantesco de aviso nos ingressos comercializados para o público. Exemplo: vai a uma corrida de Fórmula 1? Leve um par de protetores auriculares e saiba que o momento mais empolgante será o da largada (depois disso é uma sucessão de vultos coloridos passando a sua frente). As competições de tiro com arco se encaixam perfeitamente nesse grupo, do qual também faz parte o curling. Quem assiste das arquibancadas sem o auxílio de um binóculo vai sofrer para saber o que está se passando.

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A distância entre o arqueiro e o alvo é de 70 metros. Ou seja, isso significa que no momento do tiro você vai conseguir prestar atenção em apenas um dos dois. Além disso, saiba que são 24 alvos posicionados lado a lado a uma distância de pouco mais de um metro entre eles. Existe apenas um par de alvos destacado dos demais, mais próximos da torcida e que são dedicados a um enfrentamento importante (por aqui, os arqueiros canadenses tiveram a prioridade do espaço).

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Então vale a ressalva de que, eventualmente, seu atleta favorito pode estar atirando no alvo 1, o mais distante das arquibancadas. Nesse caso, esqueça! Nem com olhos de águia você enxergará uma flecha dentro menor círculo do alvo, que tem apenas 12,2 centímetros de diâmetro. Dica para os organizadores da Rio 2016: disponibilizem um telão gigante que mostre imagens de algumas das disputas. E caprichem no zoom, por favor!

Embora seja um esporte de concentração máxima, em curso possui uma trilha sonora para os espectadores mais enfadados. Em Toronto, as músicas atendem o gosto pelo pop, de várias idades: de Michael Jackson a Taylor Swift. Outra dica importante é se equipar com itens para se proteger do sol: boné, protetor solar, óculos escuros e, para os mais calorentos, um leque irá cai bem.

Promessa – Mesmo sem enxergar muito, é possível afirmar com segurança que o brasileiro Marcus Vinicius D’Almeida frustrou as expectativas e não avançou para as semifinais do Pan de Toronto. D’Almeida, oitavo melhor arqueiro do mundo e grande promessa para a Olimpíada do Rio, foi derrotado nas quartas-de-final pelo mexicano Luis Alvarez, número 28 do ranking mundial. Visivelmente frustrado e abatido, o brasileiro balbuciou algumas justificativas, como o vento forte tirando sua concentração e confiança. “Tenho apenas 17 anos e esse é meu primeiro Pan”, tentou relevar o arqueiro brasileiro. O país ainda tem chances na disputa por equipes, que acontece nesta sexta-feira, mas Marcus Vinicius já repulsa de antemão qualquer tipo de cobrança. “Olha, a culpa não é nossa do jejum (de conquistas em Jogos Pan-Americanos), não estamos no time desde 1983 (última vez que o Brasil medalhou no tiro com arco). Vamos fazer o nosso melhor.”

Em reportagem especial, VEJA apresentou promessas olímpicas, que devem brilhar nos Jogos do Rio de Janeiro, em agosto do ano que vem. Leia o perfil de Marcus Vinícius abaixo ou clique aqui para ler todos os textos.

Marcus Vinícius D’Almeida, 17 anos ­— Tiro com arco Marcus Vinícius D’Almeida, 17 anos ­— Tiro com arco

Marcus Vinícius D’Almeida, 17 anos ­— Tiro com arco (/)

Robin Hood à brasileira

Marcus Vinícius D’Almeida, 17 anos, Tiro com arco

O.k., dirão que é conto da carochinha, conversa para boi dormir, fábula, lorota. Mas não é. O arqueiro carioca Marcus Vinícius D’Almeida (cujo sobrenome com apóstrofo lhe confere ar nobre), o mais bem-sucedido atleta brasileiro na modalidade, foi criado num castelo. Ou, a bem da verdade, numa casa que imita o estilo arquitetônico de uma construção medieval. Quem explica é a mãe de Marcus, Denise: “O castelo foi uma brincadeira que fizemos com as crianças quando ainda eram pequenas. A Isabella, irmã do Marcus, era a princesinha, e ele, nosso príncipe”. Começar a manipular arcos e flechas foi etapa posterior, associada ao lugar onde moravam, em Maricá, a 61 quilômetros do Rio de Janeiro.

Ali fica a sede da Confederação Brasileira de Tiro com Arco, e a vizinhança fez Marcus se interessar pelo esporte. Em 2014, ele brilhou. Com 16 anos, classificou-se para a final da Copa do Mundo. Foi o atleta mais jovem da história a realizar tal feito. Conquistou o segundo lugar. Nos Jogos Olímpicos da Juventude, também alcançou uma inédita prata para o Brasil.

O ano de 2015 começou bem. Marcus foi eleito, em fevereiro, o segundo melhor arqueiro do mundo pela federação internacional. Depois decaiu, e não tem tido bons resultados. Um profissional do COB foi designado para acompanhá-lo, porque não é possível que um fenômeno como ele se perca. Instado a definir sua atividade, o arqueiro resume: “É um esporte que exige sangue-frio”. E esse é o trunfo do menino-prodígio que, quando entra em campo, esquece o que ficou de fora: “Sou eu e o alvo, nada mais”. E, lá no castelinho de Maricá, o pano usado no alvo agora faz o papel de cortina colorida na janela do quarto de dormir do Robin Hood brasileiro.