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Uruguai: o mistério do país nanico com um futebol gigante

Com só 3,4 milhões de habitantes e emigração dos jovens promissores, a nação da equipe celeste é um pesadelo demográfico – mas segue formando craques

Por Giancarlo Lepiani - 26 abr 2014, 16h34

Nas últimas duas décadas, o Uruguai assistiu à emigração de cerca de meio milhão de pessoas. A “fuga de cérebros” nos mais diversos setores teve um movimento análogo no futebol – assim como no Brasil, é raro ver um jogador da seleção defendendo um clube local

A Zona Leste de São Paulo, onde fica o Itaquerão, palco da abertura da Copa do Mundo de 2014, é a região mais populosa da maior cidade do país: são cerca de 3,6 milhões de habitantes distribuídos numa área de pouco menos de 300 quilômetros quadrados. Em 19 de junho, na segunda rodada do Grupo D do torneio, o novo estádio paulistano receberá uma das gigantes da história dos Mundiais – uma seleção que conseguiu conquistar dois títulos e chegar a outras três semifinais mesmo representando um dos menores países da elite do futebol internacional. O Uruguai, que jogará contra a Inglaterra em Itaquera, tem população menor que a da própria Zona Leste paulistana – 3,4 milhões de pessoas, conforme as estimativas mais recentes – e chama atenção dos admiradores de seu futebol pela incrível capacidade de formar jogadores de notável talento mesmo com uma demografia tão desfavorável. O 129º país mais populoso do planeta é, disparado, o menor a já ter vencido a Copa do Mundo.

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No Brasil, com seus mais de 200 milhões de habitantes, armar uma seleção com 23 jogadores para disputar a Copa só é difícil porque há opções de sobra em meio às numerosas legiões de boleiros profissionais que se espalham por todas as partes do país e por dezenas de ligas estrangeiras. Montar uma equipe de primeiro escalão com um contingente populacional quase sessenta vezes menor é outra história. Ainda assim, a delegação uruguaia desembarcará no país com alguns dos principais nomes da competição: Diego Forlán, o melhor da Copa da África do Sul; Luis Suárez, o grande goleador do futebol europeu na temporada; Edinson Cavani, a contratação mais cara da história do futebol francês (o PSG pagou 200 milhões de reais por seus gols). No último Mundial, o Brasil de Kaká e a Argentina de Messi ficaram pelo caminho, e os uruguaios avançaram até a semifinal – foi a única seleção de fora da Europa entre as quatro melhores da Copa-2010.

A enorme tradição do futebol uruguaio é a explicação mais óbvia para o surgimento de tantos atletas de alto nível na minúscula nação sul-americana. A modalidade é uma das grandes paixões do povo uruguaio, o que aumenta a chance de um talento em potencial ser descoberto. Para muitos, a própria composição e origem da população uruguaia ajudam a desvendar a fórmula de sucesso do país no futebol – assim como no Brasil, a miscigenação formou uma sociedade cujo fundo genético seria favorável ao surgimento de bons jogadores para o esporte mais popular do planeta. Um estudo divulgado em 2009 mostrou que a composição genética do povo uruguaio é majoritariamente europeia, mas com importante contribuição indígena e africana, uma mistura vista por muitos estudiosos do assunto como benéfica ao bom desempenho no futebol. Mesmo com esses fatores positivos, impressiona a capacidade uruguaia de formar equipes tão técnicas, fortes e criativas partindo de uma base demográfica tão reduzida.

Tabela
População COPAS
Brasil 201 mi 5
Alemanha 81 mi 3
França 65 mi 1
Itália 61 mi 4
Inglaterra 53 mi 1
Espanha 47 mi 1
Argentina 42 mi 2
Uruguai 3,4 mi 2

Emigração – O desafio enfrentado pelo técnico Óscar Washington Tabárez, de 67 anos, o responsável por levar o time celeste às semis em 2010, espelha um problema espinhoso enfrentado tanto pelo poder público como pelo setor privado no pequeno país. Apesar de alguns aspectos bastante positivos – o Uruguai tem elevado grau de alfabetização, abismo social menor que o dos vizinhos e uma grande classe média urbana -, a demografia nacional tem uma perspectiva preocupante. Com um índice de natalidade baixo e uma expectativa de vida alta, a população é madura e está em declínio. O que complica de vez o quadro é a elevada taxa de emigração dos jovens, que procuram novos rumos por causa de um mercado de trabalho restrito, de uma economia pouco pujante e da atmosfera dormente da única grande cidade do país – mesmo concentrando quase a metade da população uruguaia, a velha Montevidéu tem jeitão interiorano e ritmo pacato, principalmente se comparada às capitais brasileiras.

Nas últimas duas décadas, o Uruguai assistiu à emigração de cerca de meio milhão de pessoas, a maioria a caminho da Europa e do próprio Brasil. Uma fatia considerável desse contingente corresponde a jovens profissionais cujas qualificações seriam essenciais para fazer o país evoluir. A “fuga de cérebros” nos mais diversos setores teve um movimento análogo no futebol – assim como no Brasil, é raro ver um jogador da seleção defendendo um clube local, como Nacional, Peñarol, Defensor e Danúbio. Na última convocação de Tabárez, para um amistoso contra a Áustria, nenhum atleta da lista jogava no Uruguai (três eram de clubes brasileiros). Dentro de um contexto tão desanimador, é difícil crer na repetição das campanhas vencedoras de 1930 e 1950 nos próximos Mundiais. Resta ao torcedor uruguaio esperar por um grande desempenho da atual geração, talentosa mas em idade avançada, na Copa deste ano – ou ainda imaginar que, contrariando as estatísticas e a demografia, seu modesto e miúdo país continue fabricando grandes esquadrões.

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