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Uma seleção de gala

<p>VEJA selecionou onze jogadores – todos jovens, em sua primeira Copa – cujos nomes agora soam desconhecidos, mas que têm tudo para explodir em 2014 no Brasil</p>

Por Cauê Marques, Juliana Guarany e Renata Lucchesi Atualizado em 11 jan 2022, 20h48 - Publicado em 7 dez 2013, 05h00

O desempenho em uma Copa tem o poder de transformar para sempre a carreira de um jogador – ofusca os que fracassam, ilumina os bem-sucedidos. Mesmo que sem a consagração de um título, muitos dos talentos descobertos durante um Mundial são imediatamente alçados ao patamar de estrelas do esporte, e passam a ser o objeto de desejo dos grandes clubes da Europa. Na era do YouTube, e com as emissoras a cabo transmitindo até jogo da quarta divisão de Andorra, é difícil extrair joias inéditas, ainda a lapidar. Mas há nomes desconhecidos, ou conhecidos apenas por quem não desgruda da TV, com tudo para se destacar em 2014. Guarde o nome desta seleção de gala. Quem a lidera é o alemão Mario Götze, já razoavelmente badalado. O escrete é formado por jogadores com até 24 anos – à exceção de um bósnio (27 anos), cuja seleção vai à Copa pela primeira vez, e um belga (26 anos), cujo país (atenção com a Bélgica, ela promete) não frequenta o torneio desde 2002.

O rap de Iscariotes

​MARIO GÖTZE,

21 anos • Alemanha

Meia-atacante do Bayern de Munique

O apelido: “Gotzinho”, assim mesmo, no diminutivo, fusão de Götze com Ronaldinho. Quando surgiu no ataque do Borussia Dortmund, com apenas 18 anos, há três temporadas, Mario Götze logo entusiasmou os alemães com seus gols bonitos, dribles rápidos e lances de efeito. Soou extraordinário em um país que historicamente pratica um futebol de aplicação tática, cujo símbolo maior, e incontornável, é Franz Beckenbauer. A adoração a Götze, unânime, ruiu em abril deste ano, quando ele deixou o clube no qual foi criado, o Borussia, para jogar no Bayern de Munique, o atual campeão da Europa, arquirrival de décadas. E, pior, fez a troca na véspera da decisão do torneio que reúne os grandes clubes da Europa, disputada justamente entre as duas agremiações alemãs. Fã de rap, o jogador teve de amargar as severas críticas de uma banda, a Kopfnussmusik, formada por aficionados do Borussia, que gravou uma nada melodiosa coleção de xingamentos anti-Götze. Mais ou menos assim, e daí para pior: “Você é um mercenário de m*%&#. Parabéns, você pode se autoproclamar Judas agora”. O que Götze pode fazer para recuperar a imagem de queridinho da nação, agora que apenas os torcedores do Bayern gritam seu nome? Vencer a Copa de 2014. As chances são boas. A Alemanha chega ao Brasil com uma equipe extraordinária.

“Thibautear”, verbo intransitivo

THIBAUT COURTOIS
THIBAUT COURTOIS VEJA

THIBAUT COURTOIS,

21 anos • BÉLGICA

Goleiro do Atlético de Madrid

Chama-se de ponte, no jargão do futebol brasileiro, aquele lance no qual o goleiro defende um chute pondo seu corpo na horizontal em relação ao gramado, com braços e pés estendidos. A ponte, movimento abusado, é prato cheio para as fotografias que vão parar na primeira página dos jornais. Na Bélgica, fazer a ponte ganhou um verbo: “thibautear” (lê-se tibotear). A expressão deriva do primeiro nome do goleiro belga, Thibaut Courtois, emprestado pelo Chelsea, da Inglaterra, ao Atlético de Madrid. Como tudo o que faz sucesso hoje em dia, a brincadeira com o “thibautear” começou no Facebook e virou mania no Tumblr. Nas redes sociais, pessoas comuns imitam em fotos as defesas acrobáticas de Thibaut: na mesa da cozinha, no chão da sala, a meio caminho da piscina. O próprio goleiro postou na internet uma versão aquática do salto. O cara é bom mesmo. Nas dez partidas da Bélgica nas eliminatórias europeias, ele não ficou um minuto fora, e levou apenas quatro gols. Convém lembrar que goleiros são especialidade belga como as batatas fritas e as cervejas trapistas. Houve Pfaff, semifinalista de 1986, e Michel Preud’homme, que chegou às oitavas em 1994. Nenhum dos dois, contudo, thibauteava como Thibaut.

O herdeiro de Iniesta e Xavi

ISCO
ISCO VEJA

ISCO,

21 anos • Espanha

Meia-atacante do Real Madrid

Andrés Iniesta (29 anos) e Xavi Hernández (33) são titulares absolutos da seleção espanhola, maestros do magnífico toque de bola que levou a Fúria ao título mundial em 2010. A dupla de meias do Barcelona poderá fazer no Brasil a última Copa de suas carreiras. Por isso, já começou a busca no além-mar para os substitutos. Francisco Román Alarcón Suárez, mais conhecido como Isco, é um dos fortes candidatos à vaga. Antes de se transferir para o Real Madrid, o meia destro disputou duas temporadas pelo Málaga, time de sua cidade natal, e deixou sua marca. Em 2012, foi vencedor do prêmio Golden Boy, dado pela publicação italiana Tuttosport ao melhor jogador do continente abaixo de 21 anos. Isco derrotou na disputa o italiano El Shaarawy. As habilidades do espanhol como armador e finalizador seduziram o presidente do Real, Florentino Pérez, que desembolsou 30 milhões de euros na última janela de transferências para contratar o craque. Apesar de ter assinado com o time da capital, há no passado de Isco um episódio que o condena, uma paixão proibida pelo grande rival: na adolescência, Isco posou para fotos vestindo a camisa do Barcelona – um ex-treinador revelou recentemente que o meia só não foi jogar nas categorias de base do Barça pela obrigatoriedade de falar catalão na escola. Para quem ainda tem dúvidas, seu cachorro de estimação, um labrador, atende por Messi.

Olha a cabeleira do Fefé

MAROUANE FELLAINI
MAROUANE FELLAINI VEJA

MAROUANE FELLAINI,

26 anos • Bélgica

Volante do Manchester United

A cabeleira do volante do Manchester United só perde o espetacular viço, se é que perde, quando comparada aos caracóis bacanas do zagueiro brasileiro David Luiz, do Chelsea. Marouane Fellaini, belga de origem marroquina, cultiva os fios com dedicação e inteligência. Sabe que eles representam dinheiro e boa imagem. Recentemente, ele os tingiu de prateado para pagar uma promessa e ajudar um fundo de caridade. O penteado-assinatura tem desvantagens? Não para cabecear, evidentemente, porque o jeito correto de bater na bola é com a testa. Com 1,94 metro de altura, o galalau risonho foi o jogador do campeonato inglês que mais ganhou disputas pelo alto na última temporada. E onde ele sai perdendo? Nos entreveros. O jogador já reclamou de ter seus cabelos puxados em algumas partidas, nas divididas. “Os juízes deveriam prestar mais atenção”, disse à revista inglesa Four Four Two. Comprado pelo Manchester United do Everton (33 milhões de euros), Fellaini é o Sansão carismático capaz de transformar a Bélgica na grande surpresa da Copa.

O gigante de La Plata

MARCOS ROJO
MARCOS ROJO VEJA

MARCOS ROJO,

23 anos • Argentina

Zagueiro do Sporting de Lisboa

A Argentina de Diego Maradona (1,65 metro) sempre foi conhecida pela imensidão de craques geniais e baixinhos, sobretudo para os atuais padrões do futebol. Messi, “o pequeno polegar”, tem 1,69 metro. Carlitos Tevez tem 1,73 metro. Javier Mascherano tem 1,75 metro. Como não há tradição que não possa ser quebrada, mesmo entre os fanáticos boleiros argentinos, o treinador Alejandro Sabella inovou, e pôs na zaga o grandalhão Marcos Rojo, do Sporting de Lisboa, dono de respeitável 1,86 metro. Para efeito de comparação: o zagueiro Daniel Passarella, capitão da seleção argentina campeã do mundo em 1978, mede 1,73 metro. Os centímetros a mais de Rojo, portanto, lhe conferem insólito destaque, e a garantia de que as bolas aéreas sejam menos perigosas. Nascido e criado dentro do Estudiantes de La Plata, Rojo se destacou no futebol sul-americano por fazer parte do grupo que conquistou a Copa Libertadores da América de 2009 – Sabella era o técnico do clube na época. A cara de bom moço recebe toques de inofensiva rebeldia nas diversas tatuagens que o jogador coleciona. Em sua última ida ao estúdio, marcou as palavras “orgulho” e “glória” logo acima dos joelhos, uma homenagem ao Estudiantes, o que fez com que a torcida portuguesa ficasse deveras enciumada.

O capitão da legião estrangeira

PAUL POGBA
PAUL POGBA VEJA

PAUL POGBA,

20 anos • França

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Meia da Juventus

O futebol da França sempre teve a valiosa contribuição de talentos oriundos de suas ex-colônias, ou de descendentes de outras regiões do mundo. Zinedine Zidane, o magistral meia, um dos mais elegantes jogadores de futebol de todos os tempos, é filho de argelinos. Na equipe campeã do mundo em 1998 havia um ganês, um polinésio e até um argentino. A legião estrangeira que veste a camisa azul encontrou um novo capitão, Paul Pogba. Os pais do jovem meia imigraram da Guiné e se instalaram nos arredores de Paris, como boa parte dos expatriados que vivem na França. Ágil, de toques rápidos na construção de contraataques, altivo, Pogba passou por todas as categorias de base da seleção francesa. Foi o capitão da equipe sub-20 campeã do mundo em julho, na Turquia, e logo agarrou as chances que teve na seleção principal. Como Zidane, Pogba está fazendo sua fama na Juventus, da Itália. O jogador já é uma das principais peças do técnico Antonio Conte, que não poupa elogios ao camisa 6 da Juve. “Ele é um jogador moderno, por ser forte, rápido e resistente”, diz Conte. “Se quiser, pode ser o melhor do mundo.”

Ele quer ser David Beckham

TOM CLEVERLEY
TOM CLEVERLEY VEJA

TOM CLEVERLEY,

24 anos • Inglaterra

Meia do Manchester United

Por ser loiro e bonito, e ainda por cima jogar no meio de campo do Manchester United, embora não seja casado com nenhuma spice girl, Tom Cleverley não perdeu a chance de emular David Beckham. Quando lhe perguntaram que número de camisa gostaria de vestir nos Diabos Vermelhos da cidade industrial, não vacilou: a 23, a mesma que Beckham escolheu no Real Madrid e no Los Angeles Galaxy. Na seleção inglesa, ele também já vestiu a 7. O risco, como aconteceu com Beckham, é o marketing preceder o futebol (quem não se lembra da boa tirada de Ronaldo, logo depois da vitória do Brasil contra a Inglaterra, na Copa de 2002, para quem o inglês era o único a sair de campo cheirosinho?). Recentemente, Cleverley anunciou o lançamento de uma marca de roupas com sua assinatura, a TC23. A chiadeira foi imensa, dado que ele não ganhou nada de muito importante ainda. O bicampeonato mundial da Inglaterra o transformaria numa marca realmente vendedora.

Filhinho da mamãe

SON HEUNG-MIN
SON HEUNG-MIN VEJA

SON HEUNG-MIN,

21 anos • Coreia do Sul

Atacante do Bayer Leverkusen

O lugar-comum do futebol ensina que os ronaldinhos têm carrões, roupas extravagantes e mulheres sensuais. É um estilo de vida que associa a boa malandragem ao sucesso, mas muitas vezes termina em confusão e fracasso. O atacante sul-coreano Son Heung-Min cultiva o avesso disso tudo, e não tem receio algum de se mostrar como um típico filhinho da mamãe. “É melhor quando minha mãe está aqui comigo”, reconheceu Heun­g-Min em uma entrevista recente. “Ela cozinha e faz tudo para mim. Meu pai é também muito importante, está sempre ajudando.” Seu pai, Son Wo­ong-Jung, também foi jogador e teve passagens pela seleção s­ul-coreana. Foi ele o primeiro treinador do atacante e ainda hoje palpita na vida de Heung-Min, das frequentes convocações para a seleção da Coreia do Sul àquilo que o filho anda dizendo nas redes sociais. Apesar da postura tímida dentro de casa, no gramado o sul-coreano parece dar as cartas do jogo: depois de disputar três temporadas pelo Hamburgo, da Alemanha, clube ao qual chegou com apenas 16 anos de idade, ele se transferiu para o Bayer Leverkusen, ao preço de 10 milhões de euros. Suas boas atuações pelo novo clube já atraem o interesse de outras grandes equipes da Europa, como Tottenham e Manchester United.

Um holandês de boa cepa (só para variar)

KEVIN STROOTMAN
KEVIN STROOTMAN VEJA

KEVIN STROOTMAN,

23 ANOS • Holanda

Meia da Roma

Não se pode, nunca, duvidar do potencial da Holanda. Mas é sempre bom lembrar, também, que, se a tradição vale alguma coisa no futebol, a seleção laranja tem um recorde – três derrotas em três decisões de Copa do Mundo, em 1974, 1978 e 2010. De qualquer modo, convém não brincar com ela – o Brasil foi eliminado duas vezes pelos holandeses, em 1974 e 2010. Responsáveis por inovações duradouras como a do “futebol total” de 1974, com Cruyff e companhia, eles nunca decepcionam quando se trata de exibir um grande novo craque. A maior novidade da safra holandesa de 2014 é Kevin Strootman, jogador de 23 anos que vive uma temporada de rápida adaptação na Roma, clube em que atua desde julho. Dono de um potente chute com o pé esquerdo, hábil na transição entre a defesa e o ataque, Strootman já foi comparado ao irlandês Roy Keane, que fez história no Manchester United, por sua força e habilidade como me­io-campista. Embora o holandês diga que está feliz vestindo a camisa do time italiano, há quem aposte em um futuro mais ambicioso depois da Copa. O técnico Dick Advocaat, que treinou Strootman no PSV, acredita que a Roma é pequena demais para o prodígio holandês: “Kevin não ficará na equipe por muito tempo. Se ele mantiver esse nível, será arrancado dali. E será para um time do calibre do Manchester United”.

O príncipe de Sarajevo

EDIN DZEKO
EDIN DZEKO VEJA

EDIN DZEKO,

27 anos • Bósnia

Atacante do Manchester City

São comuns as histórias de jogadores de futebol de infância pobre que buscam a salvação no futebol. A trajetória que vai da favela aos estádios é relato familiar tanto no Brasil quanto nos países da África, ou mesmo entre as seleções europeias construídas a partir da periferia das grandes cidades. A Copa do Mundo de 2014, nesse aspecto, trará uma novidade: alguns dos jogadores da Bósnia e Herzegovina, que participa pela primeira vez de um Mundial, cresceram em meio à guerra civil dos anos 90. Nenhum nome é mais emblemático que o do atacante Edin Dzeko, do Manchester City. Ele tinha 6 anos quando a guerra eclodiu em Sarajevo. Teve de morar em um apartamento de um quarto com mais de dez pessoas, ao som de tiros e explosões. Nomeado em 2009 embaixador do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), ele tem um discurso devidamente bem preparado. “Muitos jogos importantes ainda precisam ser vencidos, e só conseguiremos fazer isso juntos”, disse Dzeko na solenidade que marcou sua posse no Unicef. Noves fora as reais preocupações de Dzeko, e o drama no início da vida, o jogo que ele quer mesmo ganhar é um, na Copa do ano que vem.

O artilheiro do Twitter

CHRISTIAN ATSU
CHRISTIAN ATSU VEJA

​CHRISTIAN ATSU,

21 ANOS • Gana

Atacante do Vitesse (Holanda)

Enquanto a grande maioria dos jogadores usa o Twitter para discussões sobre futebol ou para compartilhar imagens de momentos de lazer, o meia-atacante ganês Christian Atsu, de 21 anos, está mais interessado em expressar sua fé cristã na rede social. A conta de Atsu no Twitter, @ChristianAtsu20, já tem mais de 20 000 seguidores. Versículos retuitados e agradecimentos ao divino juntam-se a mensagens trocadas com fãs e fotos despretensiosas com companheiros de campo. Caçula de onze irmãos, Atsu teve uma carreira brevíssima nos campos de seu país. Com apenas 17 anos, ele já era destaque do Porto, de Portugal. Em agosto deste ano, depois de ter sido afastado da equipe principal do clube, Atsu assinou com o Chelsea, que o emprestou ao holandês Vitesse. A saída da equipe portuguesa, aliás, foi tumultuada justamente por uma mensagem postada no Twitter. A mulher de Atsu, a alemã Marie-Claire Rupio, teria dito que os dirigentes do Porto eram mafiosos. O craque prontamente negou a afirmação, mas a conta de Marie no Twitter foi deletada.

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