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Um brasileiro que é craque no futebol australiano

Harry O'Brien foi para a Austrália buscando uma vida melhor - e nem imaginava que, aos 25 anos, poderia ser considerado o Pelé do esporte mais popular daquele país

Por Davi Correia - 10 Jun 2012, 12h18

“Gosto muito de pagode, sei até tocar percussão, principalmente pandeiro, e meu ídolo é o Zeca Pagodinho”

É difícil encontrar alguém no Brasil que conheça o futebol australiano. No seu país de origem, porém, a modalidade é uma mania nacional, atraindo multidões aos estádios (o público é muito maior do que o dos jogos de futebol convencional). Nesse esporte valorizado e muito popular em um dos países mais desenvolvidos do planeta, um brasileiro descendente de congolês é um dos craques da liga – e, mesmo contra sua vontade, é constantemente comparado a Pelé. Carioca, 25 anos, seu nome primeiro nome é Heritier, mas ninguém o conhece assim na Austrália – a pronúncia era complicada demais para quem fala inglês. Logo veio a mudança para Harry O’Brien (o sobrenome ele pegou emprestado do padrasto). A mudança em definitivo para a Austrália aconteceu quando Harry tinha apenas 7 anos, mas o amor pelo Brasil – principalmente pelo Rio de Janeiro – está estampado em tatuagens no braço com o distintivo do Flamengo, o Cristo Redentor e uma favela. “Os narradores sempre lembram que eu sou brasileiro, e isso é uma coisa que eu carrego com orgulho”, diz ele, em bom português.

Apesar de tantos anos longe do Brasil, Harry não troca as palavras e tem um bom vocabulário, mas o sotaque é de quem está adaptado ao idioma inglês. No máximo, demora alguns segundos a mais para conseguir se lembrar de alguma palavra específica – e dá risada, satisfeito, ao encontrar o termo que procurava. Mesmo sendo considerado um astro num dos principais esportes do país em que reside, o brasileiro leva uma vida simples, mora com um amigo ex-jogador e, quando não está disputando uma partida, dedica-se aos treinos, meditação, yoga e a vários projetos sociais. Em janeiro, foi nomeado pela primeira-ministra Julia Gillard embaixador multicultural da Austrália. Já visitou o Congo, país onde seu pai nasceu, e todo ano leva um estudante brasileiro para morar com sua mãe e estudar inglês na Austrália. Conta que um dos momentos mais felizes de sua vida foi quando conheceu o Dalai Lama. Mas, afinal, o que levou um brasileiro a jogar futebol australiano? Harry explica que começou a treinar para fazer amigos na escola e acabou pegando gosto pelo esporte. Em 2004, participou de um processo de seleção para entrar na AFL, a Australian Football League, mas foi descartado pelos olheiros. Harry não desistiu do sonho de se tornar profissional e ligou para a equipe do Collingwood, em Melbourne, pedindo uma chance para treinar. Recebeu uma resposta positiva no mesmo dia, dando início a uma trajetória de sucesso que o atleta relembra na entrevista a seguir. Como foi a mudança de país? Cheguei em Melbourne aos 3 anos, em 1989, com meu irmão mais velho e minha mãe, que nasceu no Brasil. A gente mudou de país em busca de novas oportunidades. Minha mãe estava separada do meu pai, que veio para a Austrália e disse que poderia ajudar a gente no novo país. Fiquei em contato com meu pai até os cinco anos, depois nos afastamos. Na mesma época, voltamos para o Brasil porque as coisas não estavam indo bem aqui, mas logo depois a gente voltou para a Austrália, mas para outra cidade, Perth. Hoje tenho contato com meu pai e o vejo algumas vezes. Como você começou a jogar futebol australiano? Comecei a jogar para me adaptar na escola e assimilar a cultura local. Precisava fazer o que todos faziam. Sou apaixonado pelo Flamengo por causa da minha mãe, mas aqui ninguém joga futebol brasileiro, o australiano é o esporte nacional. Atualmente jogo no Collingwood, de Melbourne. Como é a rotina de um jogador de futebol australiano? A gente treina seis vezes por semana. Chego ao clube às 8 horas e fico, geralmente, até às 17 horas. Tem treino de simulação de jogo, outro para aprender as táticas e também a parte física. Com a ajuda de um GPS, descobri que corro em média 14 quilômetros por partida. O futebol australiano é uma combinação de força, contato físico, e muita corrida. Numa comparação com o futebol convencional, como é sua posição no futebol australiano? Jogo na defesa. É parecido com o que faz um lateral. Meu estilo de jogo é como o do Maicon, da Inter de Milão: cuido da defesa, mas também gosto de atacar. Como você explicaria o esporte? Cada gol vale seis pontos, e a maneira de marcar é chutando a bola entre os arcos em cada extremidade do campo. Tem muito contato físico, mas não é permitido acertar jogadores sem a bola. Quando eles estão com a bola, é proibido acertar acima dos ombros e abaixo do joelho. São dezoito jogadores em cada equipe, com quatro reservas, sem limites para substituição. O tempo de jogo é marcado por quatro períodos de vinte minutos cada, mas pode variar, já que a contagem é interrompida a cada gol. Cada tempo tem um intervalo; o primeiro e o último são de seis minutos, e o do meio tem vinte minutos. Os torcedores te deram algum apelido? Sempre me chamam de brasileiro, e é uma coisa que eu carrego com orgulho. Tem até os que comparam com o Pelé, mas isso me deixa até constrangido. O Pelé é o cara, não tem como comparar. Dentro de campo eu carrego a ginga brasileira. Sou conhecido por um chute longo, e gosto de carregar a bola. Com que frequência você visita o Brasil? Gosto de passar as férias no país. Nosso campeonato termina em outubro, aí consigo ficar um mês todo no Rio de Janeiro. Tenho vontade de conhecer outros lugares no Brasil, mas sou muito apaixonado pelo Rio. Gosto de me hospedar em Madureira, na Serrinha, onde estão minhas raízes. Quando estou no Brasil, gosto de agir como carioca, não quero ser tratado como turista. Alguns amigos visitaram o Rio de Janeiro e alugaram uma cobertura em Copacabana, mas preferi ficar na comunidade, dormindo em um colchão fininho, no chão mesmo. É uma sensação diferente, eu gosto de ficar no Brasil como se nunca tivesse saído do país. Como é sua vida na Austrália? Eu moro com um amigo, que também jogava, mas hoje trabalha em outro clube. Tenho vários projetos sociais. Minha grande paixão é ajudar as pessoas, divulgar uma mensagem de paz e esperança. Em janeiro, nossa primeira-ministra me indicou para ser embaixador multicultural do país. Foi um reconhecimento do trabalho que tenho feito. Quanto a diversão, gosto muito de pagode, sei até tocar percussão, principalmente pandeiro, e meu ídolo é o Zeca Pagodinho. Para concentrar eu faço meditação e yoga de três a quatro vezes por semana. Você já visitou o Congo? Fui uma vez, em 2008, e foi uma experiência inesquecível. Pude entender um pouco mais das minhas raízes africanas, conhecer o país do meu pai. No primeiro dia eu não vi quase ninguém nas ruas, pensei até que o país estava em guerra. No Rio de Janeiro eu vejo a violência, mas o que eu vi no Congo está em outro nível, tem muita violência, corrupção e estupro. Como foi seu encontro com o Dalai Lama? Eu estava malhando na academia do clube, aí o nosso representante me tirou do treino dizendo que tinha uma notícia que eu iria gostar. Fiquei sabendo que o pessoal que estava organizando a visita do Dalai Lama queria que eu fosse um representante da Austrália no encontro. No dia em que eu o conheci estava um pouco nervoso, mas ele me fez sentir muito feliz. Não tem como explicar essa experiência.

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