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Time do papa transforma Francisco em seu novo ‘craque’

Em crise, San Lorenzo passa a usar o novo pontífice como garoto-propaganda

O papa Francisco não tem muitos motivos para se animar com o histórico recente de seu time do coração, que conquistou o Campeonato Argentino pela última vez em 2007 e a Copa Sul-Americana, um de seus poucos títulos internacionais, em 2002

Das últimas quinze atualizações que o San Lorenzo fez em seu Twitter oficial até a noite de quinta-feira, nada menos que dez faziam referência ao homem que, de um dia para o outro, se transformou no mais ilustre torcedor do clube argentino no mundo. Jorge Mario Bergoglio, agora papa Francisco, virou uma espécie de garoto-propaganda do time de Almagro – que tem origem muito ligada à Igreja – desde que se tornou o novo ocupante do Trono de Pedro. O clube preparou até uma carta, que será endereçada ao Vaticano, para felicitar o pontífice. Para o clube, ele “não é só mais um papa, o primeiro papa argentino ou o primeiro papa jesuíta; mais que isso, ele é o papa do San Lorenzo”, diz o texto. A empolgação do San Lorenzo em ter um papa entre seus fiéis é fácil de entender. Muito tradicional em seu país, o clube hoje enfrenta uma crise. Destacar a ligação entre a agremiação e uma figura tão importante internacionalmente foi a estratégia adotada pelos cartolas para tentar ajudar a equipe a ganhar mais força – seja pela maior exposição nos jornais e TVs, seja pela renovação do interesse dos torcedores que andavam afastados das arquibancadas.

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O papa Francisco não tem muitos motivos para se animar com o histórico recente de seu time do coração, que conquistou o Campeonato Argentino pela última vez em 2007 e a Copa Sul-Americana, um de seus poucos títulos internacionais, em 2002. Fora de campo, o San Lorenzo ainda luta para recuperar o terreno de seu antigo e histórico estádio, o Gasómetro, no bairro portenho de Boedo, que foi tomado pela ditadura militar e acabou sendo transformado em um supermercado. Com as preces de Jorge Mario Bergoglio, o San Lorenzo tem fé em dias melhores. O clube pelo menos já voltou a ganhar as manchetes internacionais, conforme alardeou em seu site oficial: “O fanatismo de Francisco pelo San Lorenzo dá a volta ao mundo. Meios de comunicação de México, Espanha, Portugal, Colômbia, Brasil, Peru e Chile repercutiram a notícia”. A ligação do San Lorenzo com o religioso, no entanto, é antiga. Em 2008, o jesuíta celebrou a missa do centenário do clube, posou para fotos com camisas, flâmulas e bandeiras e tornou-se o sócio 88.235 do seu time de coração.

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Francisco, torcedor do time de futebol San Lorenzo Francisco, torcedor do time de futebol San Lorenzo

Francisco, torcedor do time de futebol San Lorenzo (/)

Curiosamente, os últimos quatro números da carteirinha do papa foram sorteados nesta semana na loteria argentina Quiniela Nacional. Anos antes da coincidência no jogo de azar, Bergoglio já dizia trazer sorte ao San Lorenzo. O novo papa declarou que “não perdia nenhuma partida da campanha de 1946”. Foi um dos melhores anos da história do “Ciclone”, como ficou conhecido o clube portenho. O novo papa e sua família não vibraram apenas com os feitos do San Lorenzo no futebol. O pai de Bergoglio foi jogador de basquete do clube, motivo pelo qual Francisco se acostumou a frequentar as instalações em Boedo desde criança. Em maio de 2011, ele destacou as raízes católicas de seu time em missa celebrada na Capela Padre Lorenzo Massa: “Nunca tirem a imagem de Maria Auxiliadora do clube porque é sua mãe, já que o San Lorenzo nasceu no Oratório Santo Antônio sob proteção da Virgem. Sinto uma alegria enorme por estar aqui, vendo o estádio do San Lorenzo através dos vidros da capela”, disse. Antes de Bergoglio virar o papa Francisco, outro sacerdote havia sido imprescindível para a história do San Lorenzo, que recebeu essenome em homenagem ao padre Lorenzo Bartolomé Martín Massa.

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No livro Memórias do Velho Gasómetro, o escritor argentino Enrique Escande fala sobre o homem que inspirou a criação do time de Almagro: “Massa, despojado da rigidez que caracterizava os sacerdotes da época, dedicou horas e horas ao clube, colocou dinheiro, organizou os primeiros papéis, apoiou dezenas de projetos e sempre esteve disposto a opinar quando as ideias ficavam travadas por discussões. Canalizou então sua paixão – os padres também as têm – pelo San Lorenzo de Almagro.” Na mesma obra, Escande ainda relata que o padre Lorenzo Massa comprou o primeiro uniforme azul e grená do San Lorenzo, intercedeu pelos garotos do time quando eles quebraram janelas com boladas e conseguiu o arrendamento do terreno do antigo Gasómetro. Foi o sacerdote quem trouxe os meninos que fundaram o San Lorenzo para jogar futebol dentro de sua igreja, quando se assustou ao ver um deles (Juan Abbondanza) quase ser atropelado por um bonde. É certo que o papa Francisco não terá o mesmo envolvimento que o padre Lorenzo para ajudar o clube. De qualquer forma, ele já conseguiu motivar os jogadores da equipe com o seu fanatismo. “Sinto um orgulho enorme com a escolha dele. Corre nas minhas veias uma sensação muito difícil de descrever, mas linda”, contou o meia Angel Correa, mais um seguidor fiel do papa.

(Com agência Gazeta Press)