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“Doping tecnológico”: a polêmica de um revolucionário tênis de corrida

O incômodo protagonismo do calçado fez a federação de atletismo ficar mais atenta aos benefícios trazidos pelo artigo a atletas

Por Alexandre Salvador Atualizado em 7 fev 2020, 10h09 - Publicado em 7 fev 2020, 06h00
2 HORAS, 1 MINUTO E 39 SEGUNDOS - O recorde de Eliud Kipchoge na Maratona de Berlim: “Foi justo, eu treinei muito” Maja Hitij/Bongarts/Getty Images

Ao cruzar em primeiríssimo lugar a linha de chegada da Maratona de Berlim em 2018, o queniano Eliud Kipchoge abriu um largo sorriso. O motivo de tamanha felicidade talvez nem tenha sido a vitória, ou a nova melhor marca do mundo (2 horas, 1 minuto e 39 segundos), mas, sim, a quebra do tempo anterior por larga margem: 78 segundos, uma eternidade nas corridas de 42 quilômetros. Foi o freio no cronômetro mais espetacular em meio século, um resultado extraordinário, mesmo para o chão berlinense, palco de sete recordes mundiais da prova.

Kipchoge calçava, naquela ocasião, um par de tênis vermelhos da linha Vaporfly, da marca americana Nike. Antes que alguém se irrite com a menção desnecessária do nome da fabricante de material esportivo, convém ressaltar que sua participação no feito do queniano talvez tenha sido maior do que se imagina. Dotado de tecnologia revolucionária (conheça os detalhes no quadro abaixo), o calçado de apenas 200 gramas promete reduzir em mais de 4% o esforço durante a corrida. Em uma prova de mais de duas horas, isso pode representar um ganho de até noventa segundos no tempo final. Não por acaso, em 2019, 31 dos 36 atletas que estiveram no pódio das seis maratonas mais celebradas calçavam o Vaporfly.

  • Se ontem as passadas do queniano causaram excitação e espanto, hoje despertam uma incômoda dúvida: aquela performance seria atingida com um par de tênis qualquer? “Foi justo. Eu treinei muito”, despistou Kipchoge. “A tecnologia está crescendo, e não podemos negá-la. Mas quem corre é a pessoa, não o calçado.”

    A World Athletics, novo nome da Federação Internacional de Atletismo (a antiga Iaaf), não comprou totalmente a versão de uma de suas maiores estrelas e na última sexta-feira de janeiro comunicou que passará a fiscalizar com mais atenção os lançamentos de calçados. A ideia é evitar que as próximas competições, entre elas a Olimpíada de Tóquio, em julho e agosto deste ano, sejam lembradas mais pelo equipamento usado nas provas do que propriamente pelos atletas que as disputaram. Há precedente para a preocupação. Na Olimpíada de Pequim, o supermaiô de natação LZR Racer roubou, mesmo que parcialmente, os holofotes de nomes como Michael Phelps e Cesar Cielo.

    SUPERMAIÔ – O traje tecnológico de Phelps: banido da natação depois de 130 recordes batidos //Divulgação

    Embora os Vaporfly já lançados não tenham sido banidos do esporte (destino dos trajes tecnológicos das piscinas), regras foram estabelecidas em nome da lisura das disputas. A principal delas proibiu a utilização de “protótipos”, ou seja, calçados fabricados sob medida para os pés dos atletas. Isso exclui, por exemplo, o modelo usado pelo próprio Kipchoge, no ano passado, na prova não oficial em que ele se tornou o primeiro homem a cobrir a distância da maratona em menos de duas horas. Os pisantes devem ser, portanto, iguais aos comercializados em lojas físicas ou virtuais e estar no varejo há pelo menos quatro meses. Limitou-se, ainda, a altura da entressola dos tênis de corrida a 40 milímetros — os especialistas acreditam que, quanto maior é a camada de espuma usada, mais energia é devolvida a cada passada do atleta.

    Há o risco, segundo os especialistas em marketing, de o banimento profissional do Vaporfly gerar efeito indesejado — tornaria as grandes competições menos desiguais, mas provocaria uma corrida ao mercado dos meros mortais. Os modelos “voadores”, digamos assim, são disputados a tapa — cada par custa no mínimo 250 dólares (mais de 1 000 reais) — e eles se esgotam em minutos depois de ser postos à venda. Por sumirem tão rapidamente, acabam revendidos com ágio pela internet. Fazem sucesso porque, na prática, entregam resultados. O The New York Times analisou cerca de 500 000 registros de tempo em provas de meia distância e maratonas completas publicados na rede social favorita dos corredores, a Strava. Dissecados os dados, ficou comprovado estatisticamente que quem correu usando um par dos tênis tecnológicos da Nike foi 3% a 4% mais rápido que maratonistas de mesmo nível técnico mas que usavam outro calçado.

    A polêmica está apenas começando, afeita a jogar lenha na fogueira de uma questão incontornável: é justo o poder econômico (e tecnológico) de uma grife esportiva incrementar resultados de uns, deixando outros ao sabor do vento? Dito de outro modo, não seria um doping de calçar? É briga que remete ao aforismo final do clássico Revolução dos Bichos, de George Orwell: “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que os outros”.

    Publicado em VEJA de 12 de fevereiro de 2020, edição nº 2673

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