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Tecnologia estrangeira

O português Jorge Jesus, do Flamengo, e o argentino Jorge Sampaoli, do Santos, são um sopro de novidade traduzido em gols no aborrecido futebol brasileiro

 (Diego Vara/Reuters; Maurício de Souza/Diário do Litoral/Estadão Conteúdo)

Apenas uma vez na história do Campeonato Brasileiro de futebol disputado em pontos corridos calhou de o último jogo do primeiro turno ser entre o primeiro e o segundo colocados — foi em 2005, com o empate entre Corinthians e Goiás, de 1 a 1. O alvinegro ficou com a liderança da metade inicial do torneio. Vai acontecer de novo, no sábado 14, com o duelo entre Flamengo e Santos, no Maracanã. O placar igual deixa o rubro-negro no topo — e quem vencer conquistará o cume. É partida que chama atenção por dois personagens à margem do gramado: Jorge Jesus, o português que comanda a equipe carioca, e o argentino Jorge Sampaoli, o mandachuva santista. Ter uma dupla estrangeira nos dois primeiros degraus da tabela, dois Jorge, não é mera coincidência, e entender como eles chegaram lá, revirando seus grupos de cabeça para baixo, é um interessante passeio pelas contribuições que ambos trouxeram para o Brasil. Escreveu o craque Tostão em sua coluna na Folha de S.Paulo, em julho, quando o Santos era quem dava a bola: “Alguns treinadores brasileiros estão incomodados com Sampaoli. Ficarão ainda mais se Jorge Jesus der certo no Flamengo. É uma mistura de ambição com inveja, dois sentimentos habituais e compreensíveis, desde que não prejudiquem ninguém e não atinjam níveis inaceitáveis e antiéticos”.

Jesus e Sampaoli, cada qual a seu modo, são tratados pelos torcedores como figuras sagradas, personagens incontornáveis. Eles têm o nome gritado nas arquibancadas e retribuem — com resultados e com posturas no mínimo divertidas para quem os vê de longe. O descabelado lusitano e o careca nascido perto de Rosário são expansivos, gesticulam, gritam e passam instruções aos atletas o tempo todo. Até aí, nada especialmente novo — Tite, Mano Menezes e Renato Gaúcho, para ficar apenas em três exemplos autóctones, também não param. O que difere o duo importado dos treinadores brasileiros é o apreço pela fome de gols, a busca incessante pela rede adversária (não por acaso, o Flamengo tem 41 tentos marcados, mais que qualquer outro time, à frente do Santos, o segundo, com trinta). “Sigo a filosofia de ‘João’ Cruyff, para quem não bastava ganhar, era preciso proporcionar espetáculo ao ‘adepto’ que paga o ingresso. É melhor ganhar de 5 a 4 que de 1 a 0, assim todos saem satisfeitos”, disse Jesus a VEJA, aportuguesando o nome de Johan Cruyff (1947-2016), o gênio holandês da chuteira e da prancheta. “O protagonismo não se negocia nunca”, ecoa Sampaoli, sempre em castelhano, sempre em entrevistas coletivas, por se recusar a dar depoimentos exclusivos. A herança dos dois para o aborrecido futebol brasileiro, ainda que seja cedo para medi-la, já é visível: Flamengo e Santos querem sempre vencer, erram pouco e conseguem alterar o ritmo de jogo quando as dificuldades se impõem (veja o quadro).

Nas orientações ao time, Jesus, é claro, se comunica em português — embora prefira ser chamado de mister, na expressão consagrada na Europa, ao apodo “professor”. Sampaoli só vai mesmo de idioma natal. Alega não ter disciplina para aprender outra língua. O goleiro Everson, contratado junto ao Ceará a pedido de Sampaoli e peça crucial na engrenagem do Santos, pois tem habilidade para atuar com os pés, diz que a falta de tradutor não causa atritos. “A linguagem do futebol é universal. Nós nos entendemos não só nas palavras, mas nos gestos.” O novo carioca, encasulado, vai de casa para o centro de treinamento, o Ninho do Urubu, e vice-versa, nada mais. Não se anima a passear pela cidade. O novo santista é visto com seus quatro cães da raça border collie, muitas vezes descalço, pelas ruas da cidade do litoral paulista.

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A uni-los há o rigor, a mão forte, o tom disciplinador, a procura por recursos fora do comum na hora de mudar a toada de uma partida. Prega Jesus: “O treino de futebol não é uma ciência exata, cada um tem seus métodos. O treinador, assim como o jogador, tem de ser um criativo. Não basta ser bom taticamente”. Sampaoli tem os dois braços cobertos de tatuagens, com frases que parecem falar por ele: “Creio que educar é combater e o silêncio não é meu idioma” foi extraída da letra de um sucesso de uma banda de rock portenha. Jesus decidiu cobrar 100 reais de multa por minuto de atraso nos treinos (nenhum jogador teve ainda a coragem de acordar mais tarde). No Santos, sobra até para a diretoria. Sampaoli costuma criticar abertamente as promessas não cumpridas pelos cartolas. “É quase uma filosofia de vida”, diz o argentino Pablo Paván, autor da biografia autorizada de Sampaoli, No Escucho y Sigo (Não escuto e sigo). “Ele acredita que o chefe tem de exigir, exigir e exigir, não quer ninguém acomodado.”

NÃO MAIS – Felipão na seleção portuguesa e Luxemburgo no Real Madrid: técnicos brasileiros eram convidados pelos europeus

NÃO MAIS – Felipão na seleção portuguesa e Luxemburgo no Real Madrid: técnicos brasileiros eram convidados pelos europeus (Alex Livesey/Getty Images; A. Bibard/Panoramic/Zumapress/Fotoarena)

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Vai dar certo? Saberemos no fim do Brasileirão, mas, por enquanto, ninguém ousa negar, já deu certo, como demonstram as posições na tabela. O sucesso de treinadores forasteiros no Brasil é raro, mas não inédito. Até hoje, apenas um estrangeiro venceu um torneio nacional: o argentino Carlos Volante (1910-1987), campeão da Taça Brasil de 1959, pelo Bahia, competição que posteriormente seria reconhecida pela CBF como o primeiro Campeonato Brasileiro. O caso mais semelhante ao de Jesus e Sampaoli talvez seja o de Béla Guttmann (1899-1981), um judeu húngaro sobrevivente do Holocausto, famoso por ter ajudado a desenvolver craques como o compatriota Ferenc Puskás e o português Eusébio. Consagrado em mais de dez países por seu estilo ofensivo, Guttmann chegou ao São Paulo em 1956 e trouxe uma série de inovações, como treinos específicos com ênfase em fundamentos técnicos e a adoção de um novo sistema, o 4-2-4. Foi campeão paulista em 1957 e influenciou diretamente na postura de Vicente Feola, que conquistaria o primeiro Mundial do Brasil no ano seguinte, na Suécia. Guttmann trocaria o Brasil por Portugal, onde alcançou suas maiores glórias pelo Benfica — assim como Jorge Jesus.

Não dá para negar que o sucesso de treinadores estrangeiros no Brasil, em certa medida, ajuda a reforçar a tese de que o nível atual dos nossos “professores” seja fraco. No passado, em mão contrária, eram os países da Ásia, da África e do Oriente Médio que vinham buscar técnicos brasileiros, na esperança de repetir o nosso sucesso nos gramados. Zico fez história no Japão. Carlos Alberto Parreira levou as seleções da África do Sul, dos Emirados Árabes Unidos, do Kuwait e da Arábia Saudita a Copas do Mundo. Até mesmo a Europa chegou a contratar representantes nacionais. Felipão treinou Portugal. Vanderlei Luxemburgo teve efêmera passagem pelo Real Madrid. Hoje, dada a terra arrasada, a exportação minguou.

Pôr a bola debaixo do braço e levar conhecimento para o além-mar talvez seja um dos movimentos mais interessantes do futebol — e poucos nomes representam tanto essa transferência como o “João” de Jesus, Johan Cruyff, que transportou o aprendizado com Rinus Michels (1928-2005) no Ajax e na seleção da Holanda dos anos 1970 para o Barcelona, onde criou discípulos como Pep Guardiola, o atual treinador do Manchester City. E, com eles, o futebol foi se reinventando. Oxalá Jorge&Jorge façam isso em campos brasileiros.

Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2019, edição nº 2652