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Ondas gigantes, o efeito inesperado do aquecimento global para o surfe

Quanto mais quente o mar, mais frequentes são os ventos, devido à diferença de temperatura das camadas atmosféricas

A emoção e os perigos de surfar ondas enormes tomaram um caldo literário em Dias Bárbaros, do jornalista americano William Finnegan, livro com que esse praticante amador do esporte venceu o prêmio Pulitzer de 2016 na categoria biografia. “Terror e êxtase retrocedem e fluem nas beiradas de tudo, ameaçando subjugar o sonhador”, escreve ele a certa altura da obra, referindo-se ao misto de emoções de quem encara um mar bravo. Derivado do surfe, o tow-in elevou o grau do desafio. Rebocados por jet ­skis até o topo das ondulações, os big riders (grandes cavaleiros), como eles são conhecidos, encaram terremotos de água que desabam sobre suas costas, deslizando a bordo de pranchas mais estreitas e com presilhas para os pés. Um tombo implica ficar submerso por minutos. Algumas vezes o corpo é violentamente empurrado para o fundo, como ocorreu no caso de Zander Venezia, de 16 anos, considerado uma das grandes promessas do tow-­in, que morreu ao se chocar contra um conjunto de pedras em Barbados, em setembro de 2017. Não por acaso, o esporte é considerado um dos mais perigosos do mundo.

As mudanças climáticas pelas quais passa o planeta elevaram a régua do negócio a um patamar inédito. Ao mesmo tempo que gera péssimas notícias para a Terra, o aquecimento global faz a alegria da turma da parafina. De acordo com uma pesquisa recente da Universidade da Califórnia, o aumen­to da temperatura da superfície dos oceanos vem tornando as ondulações maiores e mais potentes. Qual a relação entre essas duas coisas? Quanto mais quente o mar, mais frequentes são os ventos, devido à diferença de temperatura das camadas atmosféricas. Com isso, multiplica-­se a ocorrência de tempestades que carregam energia em forma de ondas por grandes distâncias até a costa. Em termos esportivos, esse efeito cria as condições para uma era de ouro para o surfe.

Um estudo divulgado em janeiro pela respeitada revista científica Nature Communications, de Londres, quantificou o fenômeno. Os pesquisadores da Universidade da Califórnia responsáveis pelo artigo analisaram a variação da potência das ondas entre 1948 e 2008. A partir de 1994, o crescimento médio foi de 2,3% ao ano, cinco vezes maior que a média verificada ao longo de todo o período. Embora pareça uma variação relativamente pequena, ela produz efeitos gigantescos a longo prazo. Mantido esse ritmo, as ondulações poderiam aumentar entre 32% e 122% neste século. “No geral, não é bom que a energia das ondas cresça”, disse a VEJA o bió­logo Borja Reguero, um dos responsáveis pelo levantamento. “É uma má notícia, principalmente para as regiões costeiras.” Elas sofrem com a elevação do nível do mar e também estão mais sujeitas a eventos como fortes chuvas. Para os surfistas, no entanto, as consequências são benéficas, do ponto de vista estritamente do esporte. “Os praticantes podem esperar por ondas mais altas, em períodos mais longos”, completa Reguero.

Os atletas já percebem esse movimento — e vêm se aproveitando disso. Em novembro de 2017, o surfista brasileiro Rodrigo Augusto do Espírito Santo, de 39 anos, “cavalgou” uma montanha de água de 24,3 metros de altura, o equivalente a um prédio de oito andares, na pequena cidade de Nazaré, no litoral oeste de Portugal. “É preciso muito preparo e conhecimento para sobreviver a um paredão desse tamanho”, conta. O feito superou em pouco mais de meio metro a marca anterior, do havaiano Garrett McNamara, registrada em 2011. De quebra, rendeu a Rodrigo Koxa, como o big rider paulista costuma ser chamado, um verbete no Guinness Book. O atleta não sossegou com a façanha e continua atento a novas oportunidades de melhorar o recorde. “Sei que ele não vai durar muito tempo, pois é visível que a ondulação das marés está cada vez maior”, afirma. Algu­mas vezes, a força da natureza tem chegado em excesso mesmo para quem espera tanto por ela. No ano passado, organizadores cancelaram uma etapa de uma competição de ondas gigantes no Havaí: o mar estava assustador demais. Outro motivo que tira a tranquilidade dos surfistas são os efeitos colaterais do aquecimento global sobre os oceanos. “Os corais morrem, as praias somem e a poluição aumenta”, enumera Carlos Burle, de 51 anos, um dos mais experientes big riders brasileiros. “Prefiro viver em um mundo mais saudável, mas com ondas menores.” Os fatores que fazem a festa de hoje do surfe não podem ser comemorados quando se pensa no futuro do planeta.

Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2019, edição nº 2649