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Skate: aos 13 anos, Rayssa Leal faz história e ganha a medalha de prata

"Fadinha do Skate" encantou os jurados com a leveza de suas manobras e sua alegria juvenil, tornando-se a medalhista mais jovem do esporte brasileiro

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 26 jul 2021, 17h20 - Publicado em 26 jul 2021, 01h30

Rayssa Leal colocou seu nome na história do esporte brasileiro. Aos 13 anos e 198 dias, sorriso metálico e jeito de criança, a atleta maranhense, conhecida como “Fadinha do Skate” tornou-se a medalhista mais jovem da história do país ao conquistar a prata na categoria street do skate, modalidade estreante na Olimpíada de Tóquio, no Ariake Sports Urban Park, na madrugada desta segunda-feira, 26. A medalha de ouro ficou com a japonesa Momij Nishiya, também de 13 anos.

A façanha de Rayssa eclipsou a decepção pela eliminação precoce das compatriotas Pâmela Rosa e Letícia Bufoni e garantiu a segunda medalha do Brasil na estreia do skate no programa olímpico, um dia depois da prata de Kelvin Hoefler. A medalha de bronze foi para outra japonesa, Funa Nakayama, de 16 anos. 

Rayssa é agora a terceira medalhista mais jovem da Era Moderna dos Jogos Olímpicos em um esporte individual, ficando atrás apenas da americana Dorothy Hill, prata nos saltos ornamentais em Amsterdã-1928 (13 anos e 23 dias) e da dinamarquesa Inge Sorensen (12 anos e 24 dias), prata nos 200 metros nado de peito em Berlim-1936. Supera, portanto, uma marca de 85 anos.

“Não caiu a ficha ainda sobre poder representar o Brasil e ser uma das mais novas a ganhar uma medalha. Estou muito feliz, esse dia vai ficar marcado na história”, afirmou Rayssa, ao COB.

“Muitas meninas já me mandaram mensagem no Instagram falando que começaram a andar de skate por causa de um vídeo meu, isso me deixa muito feliz porque foi a mesma coisa comigo. Minha história é a história de muitas outras skatistas que quebraram esse preconceito de que o skate era só para menino, para homem, e saber que estou aqui e posso segurar uma medalha olímpica é muito importante para mim.”

Por pouco, Rayssa não obteve um feito ainda maior. Caso tivesse conquistado a medalha de ouro, ela teria superado a alemã Marjorie Gestring, campeã mais jovem da história, nos saltos ornamentais nos Jogos de Berlim-1936, aos 13 anos e 268 dias de idade. Ela, no entanto, tornou-se a mais jovem medalhista dos Jogos em 85 anos.

  • Acompanhada da mãe Lilian, Rayssa se divertiu durante toda a competição, como se estivesse brincando em sua cidade, Imperatriz, no interior do Maranhão. A cada boa participação, sorria para a câmera, dançava e mostrava a bandeira brasileira. Também recorreu a coletes de gelo a cada parada, para amenizar o forte calor na capital japonesa. Ela terminou a fase classificatória na terceira colocação geral, com nota 14,91. Na hora da decisão, manteve a calma, mesmo após pequenos erros, e foi crescendo nas últimas das cinco tentativas de melhor manobra. 

    Sua façanha não foi uma surpresa, pois Rayssa já era vista como uma sensação mundial dos corrimões e escadarias. Dias antes da estreia olímpica, ela recebeu conselhos nos treinamentos de Tony Hawk, a lenda americana da modalidade, que a definiu como “fora da curva”. Ela ganhou o apelido de “fadinha” com apenas sete anos, quando um vídeo seu, fazendo manobras fantasiada de fada, viralizou.

    O próprio Tony Hawk ajudou a popularizar o vídeo, com a mensagem: “Não sei nada sobre isso, mas é incrível. Um heelflip de conto de fadas no Brasil”, em suas redes sociais. Na época, a criança natural de Imperatriz, no interior do Maranhão, tinha como grande referência Letícia Bufoni, que seis anos depois seria sua companheira de quarto e grande parceira em Tóquio.

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    Pâmela e Letícia decepcionam

    Letícia Bufoni na pista
    Letícia Bufoni na pista Juan Ignacio Roncoroni/EFE

    A expectativa era maior, pois o Brasil iniciou a disputa com três das mais fortes candidatas ao título. A favorita era Pâmela Rosa, paulista de 21 anos, líder do ranking internacional da modalidade, e campeã mundial em 2019, em São Paulo. Letícia Bufoni, de 28 anos, multicampeã e grande referência do skate feminino do país, também entrou sob grande expectativa, mas ambas decepcionaram e caíram na fase classificatória.

    Pâmela sofreu algumas quedas, não conseguiu completar suas melhores manobras e terminou em décimo no geral, com nota de 10.06. Já Bufoni teve mais esperanças de avançar, mas, com priorizou manobras mais simples, falhou nas mais ousadas, e terminou em nono, a primeira posição fora da zona de classificação à final, com nota 10,91. A última classificada foi Alexis Sablone, com nota 11,77.

    Frustrada, Pâmela não parou para dar entrevistas, mas ajudou a explicar seu desempenho abaixo do normal em suas redes sociais, com uma foto de seu tornozelo extremamente inchado. “Mais uma vez, enfrentei uma competição lesionada, mas essa lesão não me parou”, escreveu.

    Pâmela Rosa chegou a Tóquio como favorita, mas competiu lesionada
    Pâmela Rosa chegou a Tóquio como favorita, mas competiu lesionada Juan Ignacio Roncoroni/EFE

    O skate street brasileiro sai fortalecido de Tóquio, sobretudo com o desempenho de Kelvin Hoefler e Rayssa Leal, as novas caras de um fenômeno bem estabelecido no Brasil. O skateboard (patins em prancha, em tradução literal) se popularizou a partir dos anos 1960, nos EUA, e se tornou um fenômeno mundial com a criação do evento X-Games, em 1995. Turbinado pela presença de ídolos como Bob Burnquist e Sandro Dias, o Mineirinho, além da influência da música, com bandas como a santista Charlie Brown Jr., e de jogos de videogame, o Brasil viu florescer pistas e rampas em clubes e praças país afora.

    O Comitê Olímpico Internacional, de posse de estudos que apontavam uma relevante perda de audiência do público abaixo de 18 anos, se apropriou do movimento e incluiu três modalidades que transitam bem entre os jovens — skate, surfe e escalada esportiva — no calendário olímpico. Nesta segunda, milhões de brasileiros pararam diante da TV para torcer pelas atletas brasileiras, cujo legado certamente será sentido nos próximos anos.

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